«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Esta é a cidade - Gedeão

A Cidade - Nadir Afonso


Esta é a Cidade

Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descança,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

                   António Gedeão

sábado, 25 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O QUE FAZ FALTA...

A reedição de 11 discos de Zeca Afonso e espectáculos musicais em várias cidades portuguesas e no estrangeiro contam-se entre as iniciativas para assinalar os 25 anos da morte do cantautor.
“Admito que a revoluçã seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão seja a que nível for. 

 - José Afonso, in Associação José Afonso

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

CARLOS DE OLIVEIRA

Óleo de Mário Dionísio
De louvar a doação do espólio de Carlos de OLiveira, cerca de 9 000 documentos, ao Museu do Neo-Realismo.
Romancista, poeta e cronista marcante, com trabalhos como, «Uma abelha na Chuva», que teve uma adaptação ao cinema, «Finisterra» ou o livro de poesia «Sobre o Lado Esquerdo, o Lado do Coração»...tem uma obra vasta, que merece ser lida ou relida.









Acusam-me de Mágoa e Desalento

Acusam-me de mágoa e desalento, 
como se toda a pena dos meus versos
 
não fosse carne vossa, homens dispersos,
 
e a minha dor a tua, pensamento.
 

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
 
quando a luz que não nego abrir o escuro
 
da noite que nos cerca como um muro,
 
e chegares a teus reinos, alegria.
 

Entretanto, deixai que me não cale:
 
até que o muro fenda, a treva estale,
 
seja a tristeza o vinho da vingança.
 

A minha voz de morte é a voz da luta:
 
se quem confia a própria dor perscruta,
 
maior glória tem em ter esperança.
 

Carlos de Oliveira, in 'Mãe Pobre'

A ASA DE ÍCARO - FERNANDO AZEVEDO

Com uma enorme capacidade de ver e de saber, teve uma acção muito importante em prole dos artistas portugueses. Homenagem dos artistas ao artista, em exposição na SNBA.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

NOVO HOMEM - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Pintura Manuel Botelho
O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objeto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como flor
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
"Nove meses, eu?
Nem nove minutos." 
Quem já conheceu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio
e, per omnia secula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.


Carlos Drummond de Andrade
In Caminhos de João Brandão
(publicado originalmente no JB, 17/12/1967)
José Olympio, 1970
© Graña Drummond

domingo, 12 de fevereiro de 2012

QUE SE PASSA COM A ESQUERDA EUROPEIA?


Há comentadores e especialistas, que dizem já não fazer muito sentido falar de esquerda e de direita, para mim ainda faz todo o sentido! Mas na prática quem tem acesso a governar em Portugal, são dois partidos, um social-democrata e o outro dito socialista, que a governar pouca diferença fazem entre si. Têm-se vindo a alternar, numa espécie de penalização, que os votantes vão fazendo a um ou ao outro. Estes partidos são o «centrão» e revelam que as pessoas votam nos socialistas, (que deviam ser de esquerda), porque temem as consequências de votar num partido radical de esquerda, o mesmo se passa relativamente aos sociais-democratas, que não são a direita mais extremista, mas são a direita. Isto é obviamente a minha leitura do que se passa em Portugal, onde a situação ainda é mais complexa, porque na realidade quem está a governar é o FMI e  a Alemanha.
Na comunicação social vou lendo opiniões e contra-opiniões e acabei de ler um artigo sobre o que se passou num debate ocorrido no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, onde foram ventiladas várias ideias.
A contestação é que a esquerda está em crise e apesar do capitalismo neoliberal estar em convulsão, a esquerda radical não consegue beneficiar desta situação. As mudanças da sociedade europeia que estão em curso podem ser tão grandes que podem motivar o desaparecimento dos partidos de esquerda. A situação é que a esquerda paralisou, sem conseguir apresentar alternativas, à receita da austeridade imposta pela direita, que comanda as operações.
Há crise de ideias, mas também de coragem de apresentar ideias ao eleitorado. Uma série de propostas foram lançadas, como a taxa Tobin (taxar fluxos de capital para financiar o desenvolvimento), taxar os rendimentos mais elevados de forma mais eficiente, combater a evasão dos advogados, notários, médicos, comerciantes. Mas o Estado, ou não quer ou não consegue. Pode chamar-se um estado falhado, isso aconteceu na Grécia, Itália, Portugal, Espanha.
Houve um refluxo em relação à esquerda que estava no poder quando surgiram as crises – a primeira em 2008, do mercado de capitais e a segunda, a crise fiscal dos Estados, que gastaram mais do que o que podiam. Um dos efeitos da crise foi uma espécie de anti-establishment, contra quem estivesse no poder. Mas nem sempre, na manta de retalhos europeia, houve prejuízos, outros beneficiaram da crise, como por exemplo o caso da Islândia.
A esquerda radical, que tem um discurso anti-establishment e, que ainda viu as suas ideias comprovaram-se, não foi compensada nas urnas, após a queda do banco Lehman Brothers, em 2008.
As pessoas querem ser tranquilizadas, sem apelo aos radicalismos. Em tempo de crise procuram quem lhes dê estabilidade, conforto emocional e não reviravoltas emocionais e a direita é melhor a lidar com as emoções e os medos e a fazer discursos de acordo com o que as pessoas querem. Aparentemente, claro!
O ano de 2011, foi o ano de todos os protestos – Occupy, Indignados, manifestações, greves... A classe média foi a que aderiu mais, porque têm sido os mais penalizados, com uma carga de impostos a que não podem fugir! Os cidadãos estão mais críticos em relação aos governos e parlamentos. Estes movimentos sociais não ajudam os partidos na sua crise de identidade, nos últimos anos os movimentos antiglobalização revelam desconfiança nos partidos, têm mesmo um sentimento antipartido. Estes movimentos são prejudiciais para os partidos da esquerda radical, enfraquece-os, tira-lhes protagonismo. A internet está a prestar um serviço útil, porque é lá que as pessoas se encontram e se mobilizam. Os partidos têm que se renovar, com novos programas, novos métodos de trabalho, utilizando de forma eficiente as técnicas modernas de comunicação.
Num cenário sem partidos de esquerda na Europa, não é de excluir os movimentos de cidadãos, que podem entrar para a política, durante dois ou três anos, não para toda a vida, pessoas normais activas social e politicamente.
Este cenário será para uma parte da população europeia, porque outra deixará de votar. Presentemente 30% da população europeia já não vota. A democracia está a enfrentar um grave problema, que é um progressivo afastamento das pessoas do processo democrático. Deixam de votar, deixam de estar sindicalizados, de se filiar em partidos.
A percentagem de pessoas a quem é difícil dar um emprego ronda a média de 15% a que se somam os desapontados da política. Os sindicatos e os partidos estão em declínio, o proletariado hoje também é diferente, uma grande parte é precário e o desemprego está sempre presente.

Neste debate os intervenientes foram: LUKE MARCH, investigador da Universidade de Edimburgo, especialista das esquerdas radicais e Wolfang Merkel, do Centro de Investigação em Ciências Sociais de Berlim.

SERÁ MESMO QUE OS PARTIDOS DE ESQUERDA VÃO ACABAR?

Uma homenagem a quem brilhou, mas se deu mal com a vida!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

foto:google

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

«SÊ PLURAL COMO O UNIVERSO» - Fernando Pessoa

Richard Zenith, escritor e curador da exposição na Fundação Gulbenkian, sobre Fernando Pessoa, disse:
«Há mais de vinte anos tirei uma fotocópia da frase ««Sê plural como o Universo», quando pesquisava a mítica arca de Pessoa. Vi a frase isolada no topo de uma folha, seguida de muito espaço em branco, como se o autor tivesse começado com a ideia de encher a página, mas, tendo escrito cinco palavras e um ponto de exclamação, compreendesse que o texto estava completo. Percebi, que assim é como tudo no mundo, segundo Pessoa. O fingimento, «o drama em gente», as «ficções do interlúdio», o «Não sou nada», o «Deus sou eu», o «Navegar é preciso» e todos os outros conceitos e frases emblemáticas do escritor. Ele não achava, suponho eu, que deveriamos todos ter heterónimos, mas instava a que não ficássemos mental ou espiritualmente parados, que fossemos outro constantemente, que nos confrontássemos com a nossa condição de ser plural, muitos, em permanente viagem por mundos tão vastos que, por mais que os conheça, quase não os conhece ainda».

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Wisława Szymborska (Kórnik, 2 de Julho de 1923 — Cracóvia, 1 de fevereiro de 2012)

Prémio Nobel da Literatura 1996.
Com uma linguagem simples e coloquial, herança do realismo social, a sua modernidade revela-se no tom irónico e na complexidade formal de muitas de suas poesias.










Céu

Era preciso comecar daí: céu.
Janela sem encosto, sem moldura, sem vidraça.
Abertura e nada mais, porém muito bem aberta.
Não preciso aguardar a noite amena:
nem levantar a cabeça
para perscrutar o céu.
Tenho céu atrás de mim, sob as mãos
e debaixo das pálpebras.
Estou enredada de céu
e isto me exalta.
Nem as montanhas mais altas
Estão mais próximas do céu
que os vales mais profundos.
Nao há mais céu num lugar
do que em outro.
A nuvem está atada ao céu
indiferente como o túmulo.
A toupeira é tão feliz
quanto a coruja que abre as asas.
O objeto que cai no precipício
cai do céu no céu.
Partes poeirentas, líquidas, montanhosas,
passageiras e queimadas do céu, migalhas do céu,
brisas de céu e montes.
O céu é omnipresente
até nas trevas sob a pele.
Devoro o céu, rejeito o céu.
Estou com armadilhas na armadilha,
com o habitante instalado,
com o abraço abraçado,
com a pergunta presente na resposta.
A divisão entre céu e terra
não foi pensada de forma adequada
a respeito desta unidade.
Permite até que se sobreviva
no endereço mais exacto,
que pode ser achado mais depressa
se me procurarem.
Os meus sinais característicos são
o arrebatamento e o desespero.

(em: "Antologia de 63 poetas eslavos", tradução e 
organização - Aleksandar Jovanovic - editora Hucitec,
 
São Paulo, 1996)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ALEGRIA

De passadas tristezas, desenganos
amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilusões,
de pequenas traições
que achei no meu caminho...,
de cada injusto mal, de cada espinho
que me deixou no peito a nódoa escura

duma nova amargura...
De cada crueldade
que pôs de luto a minha mocidade...
De cada injusta pena
que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte...
De cada morte
que anda a viver comigo, a minha vida,
de cada cicatriz,
eu fiz
nem tristeza, nem dor, nem nostalgia
mas heróica alegria.

Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal
pode vencer.
Doido prazer
de respirar!
Volúpia de encontrar
a terra honesta sob os pés descalços.

Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,
de respirar
honestamente e sem caprichos,
como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar
frutos e de cheirar rosas.

Alegria brutal e primitiva
de estar viva,
feliz ou infeliz
mas bem presa à raíz.

Volúpia de sentir na minha mão,
a côdea do meu pão.
Volúpia de sentir-me ágil e forte
e de saber enfim que só a morte
é triste e sem remédio.
Prazer de renegar e de destruir
o tédio,

Esse estranho cilício,
e de entregar-me à vida como a
um vício.

Alegria!
Alegria!
Volúpia de sentir-me em cada dia
mais cansada, mais triste, mais dorida
mas cada vez mais agarrada à Vida!

Fernanda de Castro, in "D'Aquém e D'Além Alma"