A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




sexta-feira, 6 de novembro de 2009

SEGUNDA VISITA DE ESTUDO - CADEIA DE RELAÇÃO DO PORTO


Só em 1603 Filipe II ordenou que se construísse uma casa para receber a Relação e a Cadeia, pelas fracas instalações que existiam. A ordem de Filipe II, no entanto, só começou a ser cumprida em Julho de 1606, quando se deu início às obras no Campo do Olival. Os trabalhos duraram três anos e foram pagos, em grande parte, com dinheiros provenientes das remissões dos degredos para África. Isto é, quem era condenado a degredo para a 'costa d'África' podia pagar uma determinada quantia, resgatando a pena que cumpria cá. O edifício enorme, custou tanto dinheiro, que durante o tempo da sua construção, não foram feitas mais obras na cidade. No entanto, foi mal construído porque no dia 1 de Abril de 1752, em Sábado de Aleluia, ruiu completamente.Uma nova casa para a sede da Relação e da Cadeia começou a ser construída sobre os escombros da anterior, em 1765, por iniciativa do regedor das Justiças e governador das Armas do Porto, João de Almada e Melo, segundo uma planta elaborada para o efeito pelo engenheiro e arquitecto Eugénio dos Santos que foi um dos intervenientes na reconstrução da Lisboa pombalina. A obra custou 200 contos de réis, durou trinta anos e só ficou concluída em 1796. Albergou a sede do Tribunal da Relação e serviu de cadeia quase até aos nossos dias.

É um dos edifícios de referência na história do Porto. As enxovias tinham nomes de santos: Santo António, Sant'Ana, para homens; Santa Teresa para mulheres; e Santa Rita para menores. A prisão oficina estava sob a protecção do Senhor de Matosinhos e as prisões de castigo tinham por patrono São Vítor. Havia ainda os salões (do Carmo e de São José) para homens e mulheres. Diferenciavam-se das celas por terem o chão de madeira mas pagava-se para ficar neles - 1$500 réis.

Na sala do tribunal havia uma capela porque as Ordenações do Reino determinavam, que houvesse um sacerdote, para dizer missa todos os dias.

A algumas das celas estão ligados nomes famosos:

No número 8 dos chamados quartos de Malta (eram catorze) passaram, por exemplo, os Mártires da Pátria, o duque da Terceira (António José de Sousa Manuel de Menezes Severim de Noronha) lugar-tenente da rainha D. Maria II nas províncias do Norte, detido em 1846, juntamente com vários generais e oficiais.

Camilo Castelo Branco ocupou (1860) o quarto de São João, enquanto Ana Plácido recolhia ao pavilhão das mulheres, acusados, ambos, do crime de adultério.

Na cela que Camilo ocupara daria entrada mais tarde o célebre banqueiro Roriz. E, no quarto a seguir a este, Urbino de Freitas, professor da Faculdade de Medicina, acusado de ter assassinado por envenenamento os sobrinhos para ficar senhor da herança que a eles caberia.

O salteador Zé do Telhado, o caudilho miguelista Pita Bezerra e o jornalista político João Chagas também conheceram as celas da velha cadeia.

Em 1961 começou a ser construído o novo estabelecimento prisional do Porto, em Custóias, que demorou anos a ser ocupada. A Cadeia de Relação em 1974, foi ocupada revolucionariamente por várias famílias e grupos não familiares que procuraram aí abrigo e durante largo tempo o edifício sofreu um desgaste inesperado, degradando-se rapidamente.

O Instituto Português do Património Arquitectónico iniciou os trabalhos de restauro do edifício em 1988, com projecto do arquitecto Humberto Vieira, mas nenhum programa de utilização tinha, ao tempo, sido estabelecido superiormente. Em 1997 foi criado o Centro Português de Fotografia, que teria sede na antiga Cadeia da Relação. As primeiras exposições inauguraram-se em Dezembro de 1997, tendo o rés-do-chão funcionado como espaço de exposição até Dezembro de 2000. Nesta data o edifício encerrou para se terminarem as obras de renovação e a adequação do edifício às novas funções. O projecto foi confiado aos arquitectos Eduardo Souto Moura e Humberto Vieira. A Cadeia e Tribunal da Relação do Porto reabriu em Outubro de 2001, albergando agora todos os serviços do Centro Português de Fotografia

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

TEXTO DE GUERRA JUNQUEIRO DATADO DE 1896


"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,

fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,

aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias,

sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice,

pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;

um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;

um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom,

e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que

um lampejo misterioso da alma nacional,

reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.


Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,

não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha,

sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,

descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,

capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação,

da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.


Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;

este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,

tornado absoluto pela abdicação unânime do País.


A justiça ao arbítrio da Política,

torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.


Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,

incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos,

iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,

e não se malgando e fundindo, apesar disso,

pela razão que alguém deu no parlamento,

de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, 1896.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

MORREU HOJE LÉVY-STRAUSS - TINHA 100 ANOS








Foram os seus estudos sobre os índios da Amazónia que nos fizeram olhar para estes povos de outra maneira. Claude Lévi-Strauss, o antropólogo que na América mudou de nome por causa dos jeans, deu outro sentido às sociedades primitivas.
Odeia viagens e exploradores. No entanto, é por um relato, o da partida, que começa um dos seus livros mais famosos — “Tristes Trópicos”. É aí que o
antropólogo Claude Lévi-Strauss, um dos grandes pensadores do século XX, conta a sua viagem à Amazónia, quinze anos depois de ter chegado a uma das últimas fronteiras a explorar na Terra. Estava em 1935, quando começa a estudar as sociedades primitivas — as tribos índias da Amazónia. Este homem influenciou de maneira determinante o desenvolvimento das ciências sociais neste século, mas a sua opinião era apenas mais uma opinião, dizia: O mundo começou sem o homem e acabará sem ele, escreveu quase no fim de “Tristes Trópicos”, certamente o seu livro mais lido.
Como é que vê o mundo?
Bom, é o tipo de perguntas a que me recuso responder.
Porquê?
Recuso-me a tecer quaisquer considerações porque esse não é o meu trabalho. O que faz com que eu não tenha, pelo menos é a minha opinião, nenhuma autoridade para fazer qualquer espécie de julgamentos sobre o estado mundo. Não sou apenas eu que não tenho autoridade para falar sobre o estado do mundo. É um assunto de tal forma complexo, que não vejo muito bem quem é que possa ter alguma autoridade para falar sobre ele. Não sabemos nada, essa é a verdade! Podemos ter preferências, esperanças ou irritações. Mas, repito, não podemos fazer qualquer espécie de juízo acabado. Bom, se quiser, sobre essa matéria sou um pessimista, ou antes, um céptico total. Não vejo o que possa dizer!
Apesar de odiar as viagens, é como abre “Tristes Trópicos”...
... é verdade, mas há muito tempo — já nem me lembro quando foi a última vez [risos] — que não viajo. Se insiste dou uma resposta simples, mas que muito provavelmente não o satisfará. Quando comecei a trabalhar, a ensinar Filosofia, quase há 70 anos, a população mundial andava à volta de dois mil milhões de pessoas; esse número triplicou, o que dá qualquer coisa como seis mil milhões de pessoas. Para mim, isso representa qualquer coisa de catastrófico. Absolutamente inimaginável! É um mundo que não tem qualquer semelhança, ou relação, com o mundo que conheci quando era jovem. Como é que quer me pronuncie sobre o seu estado?
Depois das descobertas. Acha que ainda se pode descobrir algo no mundo?
[Grande silêncio.] Descobertas científicas sim. Mas à face da terra já não há nada para descobrir.
Isso não é preocupante?
Não é preocupante. É uma tristeza!
Neste momento está a escrever algum livro?
Já não escrevo mais livros, já não tenho vontade. É algo que demora muito tempo. Digo com os meus botões: para é que vais escrever um livro se não o vais acabar? [risos] De vez em quando, escrevo alguns artigos. O último apareceu no jornal italiano “La Repubblica”, sobre a administração da prova na análise dos mitos. Não diz muita coisa, pois não? [gargalhada]
Acha que pode falar-se de mitos na sociedade contemporânea?
O sentido que os povos sem escrita atribuíam ao mito é o que nós atribuímos aos diferentes modelos de explicações científicas: quando temos problemas, vamos ter com os físicos, com os químicos ou com os biólogos. Mas acho que não podemos encontrar em qualquer domínio da nossa sociedade algum equivalente do que pode ser o pensamento mítico.O papel que a História representa para nós, quer dizer, a maneira como tentamos compreender o presente e prever o futuro — que é também a forma de reconstruirmos o nosso passado — é, talvez, o equivalente do que o pensamento mítico terá sido para os povos que não tiveram escrita.
Acha que ainda hoje — com as teses de alguns autores pós-modernos sobre o fim da História — essa ideia tem algum sentido?
Em primeiro lugar, gostaria que me explicassem o que é isso do pós-modernismo! Porque sentimos que, quando se fala de pós-modernismo, diz-se que não é moderno, mas não se diz o que é. O que é muito revelador porque, com efeito, representa um conjunto de ideias de tal modo confusas que somos completamente incapazes de ter uma linha de definição.
Abraçou o socialismo ainda adolescente, chegou mesmo a dizer que gostaria de ter sido o “filósofo do Partido Socialista”. O facto de vivermos uma sensação de vazio sem qualquer “ismo” ou ideologia não o incomoda?
Claro, claro! Foi por isso que quando começámos a falar me recusei a responder! [risos] E quanto à política, abandonei a actividade política.
Porquê?
Por um lado, o meu cepticismo sobrepôs-se. Por outro, o meu trabalho de etnólogo levou-me a ver as coisas humanas de muito longe. O que se passa à escala de uma vida ou de uma geração não tem muita importância. Sou totalmente céptico. As pessoas têm que encontrar os seus caminhos. O meu papel não é de propor qualquer um.
Sim, mas no último volume de “Mitologias” escreveu que, se fossem suprimidos dez ou vinte séculos de história, isso não afectaria o conhecimento da natureza humana. A única perda insubstituível seria a das obras de arte que esses séculos viram nascer. Qual é a obra que, na sua opinião, podia resumir o nosso século?
Não há uma obra! Há dezenas, centenas, milhares. Depende do momento, depende da hora do dia.
Com a idade que tem, como é que se vê a si próprio, qual é o retrato que faz da sua vida? Vê-se como um sábio?
Ah não! Ao longo da minha existência, fiz os possíveis para me divertir ou, se quiser, para não me aborrecer [risos]. Foi por isso que trabalhei, porque se não o fizesse aborrecer-me-ia imenso. Escrevi apenas para passar o tempo. E não dou qualquer importância a isso.Os que o leram dão.
Por que razão se apaga tanto?
Se calhar é isso que é saber ser sábio! [risos]. Os outros deram-me uma certa importância num certo momento, sobretudo os que fomos da mesma geração, nos anos 50, 60, 70. Hoje não se interessam pelo que faço ou fiz. E acho bem que assim seja.
O senhor é um dos últimos sobreviventes de toda uma geração de pensadores e escritores — Braudel, Lucien Febvre, Sartre, Merleau-Ponty, Raymond Aron, Dumézil, Breton, Max Ernst, Marcel Duchamp, Lacan, Alexandre Koyré, Foucault, Jakobson, a lista é interminável. Tem consciência da referência intelectual que representa?
Mas eu não sou uma referência. O que se passa é que vivi mais, sou mais velho. É tudo!
A grande cultura francesa, que todos aqueles nomes representavam, está em declínio. Concorda?
Certamente. E aflige-me imenso. Mas sou totalmente incapaz de dizer se é algo de durável ou se é simplesmente uma flutuação. Quem sabe se daqui a 10, 50 anos o caso muda de figura? Ninguém sabe, ou melhor, eu não sei.
O facto de os EUA serem actualmente a potência toda-poderosa preocupa-o?
Em primeiro lugar: nunca me esquecerei do papel que os EUA tiveram na minha existência. Salvaram-me a vida ao deixarem-me sair da França, em 1940. Em segundo lugar, foi nos EUA que comecei a escrever e que conheci todo um ambiente intelectual que foi capital para a minha vida. Logo, não tenho medo nenhum dos EUA.O poder dos EUA pode durar ou não. Não sei. O mundo muda. E não estarei já cá muito tempo para ver. Espero calmamente a morte.
Imagine que podia começar tudo de novo. Repetia tudo o que fez ao longo da sua vida?
Nem por sombras. Gostaria de fazer coisas completamente diferentes do que fiz.
O quê?
Gostaria imenso de ser compositor e maestro. Sobre isso, não tenho quaisquer dúvidas!
Não gosta muito do conceito, da palavra, método.
De facto, não. Mas se quiser pode utilizar a palavra.
O seu “método” de trabalho não é o de colar coisas como fizeram os surrealistas?
Não se pode generalizar a tudo quanto fiz. Disse isso ao comparar as colagens de Max Ernst e os trabalhos que fiz sobre os mitos. O que afirmei? Bom, também eu recortei velhas imagens e depois procurei colá-las umas com as outras, para fazer aparecer relações que passavam até então despercebidas. Mas é uma ideia a que não dou, mais uma vez, uma grande importância. É uma espécie de “boutade”.
Quando lhe dizem que é o “papa do estruturalismo” como é que reage?
Digo que isso não quer dizer nada. Até porque quem inventou o estruturalismo não fui eu. O estruturalismo é uma coisa mais antiga do que se possa pensar. Se quiser falar de um “papa do estruturalismo”, ele viveu no século XVIII: foi Goethe. No século XIX, foi Wilhelm von Humboldt [filósofo e linguista alemão, 1767-1835], depois vem Saussure e Trubetskoi [linguista russo 1890-1938] e, claro, Roman Jakobson. Não inventei nada. Sou alguém que faz parte de uma corrente de pensadores — de um afluente de um grande rio — que remonta, no mínimo, a Dürer.
Máscaras, crocodilos e Breton. A abarrotar de livros e discos por tudo quanto é sítio, a casa de Lévi-Strauss é um pequeno museu. Há objectos, de todos os géneros e feitios, espalhados por cima das mesas, das cadeiras, da sua secretária de trabalho. Ao fundo avista-se, por uma nesga da janela, o Sena.
Tem uma biblioteca imensa?
Até já tive que pôr muitos livros na garagem. Não leve a mal toda esta desarrumação. Ri-se. Claude Lévi-Strauss tem um olhar a um tempo inquieto e meigo. Está a ler vários livros ao mesmo tempo, como a biografia de Balzac. Mas o seu autor preferido é Proust. À Procura do Tempo Perdido’ continua a ser o meu livro de cabeceira, confessa. Mas gosto muito de Chateaubriand, Balzac e Rousseau. Quando esteve no Brasil, leu Eça de Queirós. Enquanto fala, as suas longas e lindíssimas mãos parecem acompanhar o pensamento. Treme um pouco e anda com alguma dificuldade. Do outro lado da casa, há um rumor de música. Tenho uma lista muito banal de compositores preferidos, confessa por entre um sorriso, Beethoven, Mozart, Wagner, Stravinski. Depois, há outros, ao lado, a que sou menos sensível: Schubert, Schumann, Brahms, Schönberg — não é a minha família. O seu pai era pintor. Gosto muito de Poussin, e sobretudo dos grandes flamengos: Van Eyck, Van der Weyden. Picasso é um grande génio, tem quadros admiráveis, mas, enfim, não é com os olhos postos neles que gostaria de viver...
Qual é o objecto que tem em sua casa de que gosta mais?
Só um? É impossível, é como estarmos a falar de um pintor, de um compositor ou de um escritor [risos].Não é isso. A pergunta é: qual é o objecto a que se sente mais ligado?Depende de tanta coisa. Dos dias, das horas, daquilo que estamos a sentir em cada momento. Mas está bem, aceito o jogo: escolheria este aqui [aponta para uma escultura que está por detrás da sua secretária de trabalho]. É uma escultura da costa pacífica do Canadá, da Colômbia Britânica, dos índios dessa região onde estive entre 1973 e 1974. Escrevi sobre eles “A Via das Máscaras”, que fala sobre esta arte. Para mim, é a arte mais importante de toda a história da humanidade.Porquê?É o mesmo que perguntar porque é a arte gótica tão importante! É uma arte que me diz muito. O que posso dizer mais?
E aquele crocodilo?
Bem não é propriamente um crocodilo. É um alaúde da Birmânia. Tem três cordas esticadas no ventre e tem a forma de um crocodilo porque na mitologia chinesa é o crocodilo que é o inventor da música. É muito bonito, não é?
Diz-se que era muito “naïf”. E hoje?
Espero bem que sim e acho que é bastante útil continuar “naïf”.
E aquela grande pintura que está por cima do alaúde, que aparece em todas as entrevistas que já deu?
É uma pintura tibetana, mas nunca fui ao Tibete. Encontrei-o num antiquário em Paris...... aliás, quando era jovem gastava uma boa parte do meu pouco dinheiro nos antiquários...... e depois ia com os meus amigos surrealistas. Curiosamente, acho que é a primeira vez que falo disso. A minha amizade com Breton está muito ligada a esta pintura. De facto, ele nunca se interessou pela arte tibetana. Foi quando a comprei — por um preço absolutamente irrisório porque era muito grande e ninguém a queria [risos] — que Breton, depois de a ver, se começou a interessar pela arte tibetana.

EXCERTOS da Entrevista publicada a 11 de Abril de 1999
Carlos Câmara Leme - PÚBLICO-NET

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

CASAMENTOS INFANTIS NA PALESTINA


CULTURAS DIFERENTES...MAS QUE COISA TÃO ABERRANTE!?...

A PAISAGEM METROPOLITANA - ECOLOGIA E SUSTENTABILIDADE

(Vista aérea de Serralves)
10 Nov - 11 Nov 2009 - das 09:30 às 18:30 - AUDITÓRIO DE SERRALVES
A expansão das áreas metropolitanas associada à sua atractividade para a fixação das populações humanas à escala mundial e regional é um fenómeno indissociável da paisagem de hoje e uma herança do século passado. Os problemas e os desafios que se nos colocam são diversos e a Fundação de Serralves promove esta conferência com o intuito de debater e contribuir para o entendimento de uma das facetas deste fenómeno e herança: a ecologia e a sustentabilidade. Na sequência de iniciativas anteriores, nomeadamente a Conferência em 2008 sobre a Sustentabilidade da Gestão dos Espaços Verdes, surge a presente iniciativa que terá como principal cenário a Área Metropolitana do Porto (AMP). Por sua vez, a Fundação de Serralves é um dos parceiros do Centro Regional de Excelência para a Sustentabilidade (CRE_Porto) empenhado na promoção de acções para a melhoria do desempenho ambiental na AMP. A conferência é motivada por um trabalho desenvolvido nos últimos três anos em torno de uma proposta de uma rede de parques metropolitanos desenvolvida para a Junta Metropolitana do Porto pelo CIBIO da Universidade do Porto (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos). Este trabalho, por sua vez, é entendido já como uma consequência do Plano Regional de Ordenamento do Território da Região Norte que recentemente foi submetido a discussão pública. A Fundação de Serralves convidou um conjunto de especialistas nacionais e estrangeiros para trazer a sua experiência e reflexão sobre a paisagem metropolitana. Já muito se especulou sobre o significado da sustentabilidade. Nesta conferência entendemos a sustentabilidade como a atitude responsabilizada dos cidadãos perante a natureza e a cultura, privilegiamos a ecologia e focalizamos a actuação ao nível do planeamento, projecto e gestão da paisagem metropolitana – o habitat por excelência do cidadão de hoje. A conferência interessa a uma grande diversidade de áreas disciplinares da biologia à arquitectura, da sociologia à arquitectura paisagista, da engenharia à geografia. Interessa a profissionais da administração local, regional e nacional ou da actividade privada. Interessa a educadores, professores e estudantes universitários. Interessa também ao cidadão comum cada vez mais cioso de uma participação activa e esclarecida na tomada de decisões sobre o futuro dos seus espaços, do seu património, dos seus valores. Além da conferência vai-se efectuar uma visita e debates no local pelas paisagens a norte do rio Douro – “descobrindo o verde escondido à nossa porta”.
[PASSO ESTA INFORMAÇÃO, QUE ME PARECE DA MAIOR IMPORTÂNCIA, COM UM LAMENTO, EM SERRALVES TUDO TEM UM CUSTO E ESTES ACONTECIMENTOS DEVIAM OCORRER DE PORTAS ABERTAS]

domingo, 1 de novembro de 2009

PRÉMIO NOBEL


Você sabia que o ditador Adolf Hitler, foi indicado para o Prémio Nobel da Paz? E que Mahatma Gandhi, o maior defensor da não-violência, nunca foi premiado? (se não acredita, vá à net verificar)

O critério é assim: qualquer pessoa pode concorrer. Basta que o nome seja sugerido por um parlamentar do país. Cada um escolhe da melhor forma que entender quem merece entrar para essa lista.
Para o Nobel da Paz de 2009, 205 pessoas foram indicadas, por exemplo, Barack Obama, Nicolas Sarkozy, a activista afegã, defensora dos direitos humanos, Seema Samar, (no topo da lista), seguida pela senadora colombiana Piedad Cordoba, que luta pela libertação de reféns das Forças Revolucionárias da Colômbia e pelo professor de filosofia, o jordaniano Ghazi bin Muhammad. Na bolsa de apostas aparecem ainda o cantor Michael Jackson e o ex-presidente americano George Bush.
[Ganhou o Obama e já se falou muito sobre isso, mas será que sabem a reacção de Clinton? Em conversa «parece que ele disse: …ah pois… por isto mais aquilo…o falatório é que dá, um prémio pelo blá-blá…Bolas eu próprio fui considerado um grande orador, eu que aturei quadrilhões de horas da loucura do Arafat, acabei com a limpeza étnica na Bósnia, promovi a paz na Irlanda do Norte, tenho a Clinton Global Initiative, a salvar vidas em África…isto parece que não é nada…se não me iam dar a mim podiam ter dado ao movimento dos direitos humanos chinês, ou a quem combate a sida no Congo ou ao Bono!..
[ISTO É INVENÇÃO MINHA, CLARO!..]
O neurocirurgião português, Egas Moniz, recebeu o Prémio Nobel da Medicina em 1949, mas há um movimento, com origem nos Estados Unidos, que lhe quer retirar o prémio, porque consideram a leucotomia pré-frontal uma mancha negra na história da psiquiatria.
Egas Moniz foi proposto cinco vezes para o prémio e inicialmente a nomeação incidia sobre a angiografia, a sua primeira descoberta cientifica.
Há uma lista discutível de personalidades premiadas: quem se lembra da escritora Gabriela Mistral e qual o valor literário de Winstom Churchill? Também há polémicas sobre a atribuição de determinados Prémios da Paz – Theodore Roosevelt, Kissinger, Araf, Rabin e agora Obama. Outro prémio (química) foi atribuído ao criador do DDT, pesticida retirado há anos pela sua elevada toxicidade
O movimento de desnobelização, já existe há 10 anos, mas voltando a Egas Moniz, a lobotomia é hoje considerada é considerada uma intervenção bárbara, teve uma taxa de insucesso muito alta,ou o doente morria na operação ou ficava com infecções e numa total apatia. Foi o caso de Rosemary Kennedy, irmão de John Kennedy, que sofria de ligeiro atraso mental, foi operada com 23 anos e passou o resto da sua vida num manicómio. Outros casos mais próximos de nós, foram: a mulher de Marcelo Caetano e Raul Proença.


A descoberta de Egas Moniz, tornou alguns doentes hiper agressivos, mais calmos, porque os deixava apáticos, numa altura em que não havia terapêuticas antipsicóticas ou antidepressivas, mas isso mesmo levantava a questão: até que ponto seria lícito alterar cirurgicamente a personalidade de uma pessoa? O prestigio de Egas Moniz foi a descoberta da angiografia, que é reconhecida na comunidade cientifica como um passo de «gigante», quanto à leucotomia pré-frontal é considerada um equívoco científico e até ético. Que pensaria Egas Moniz? Ele só realizou vinte lobotomias e os resultados foram: 1/3 regrediu, 1/3 ficou igual e os restantes terão apresentado algumas melhoras. Nos EUA foram realizadas cinquenta mil leucotomias, Walter Freeman, um médico americano andou de terra em terra a fazer «lobotomias», foi ele rebaptizou a leucotomia de lobotomia e, fazia-se deslocar numa viatura chamada «lobotomobile», chegava enfiava o leucótomo no cérebro do doente, através do lóbulo ocular, chocalhava e mandava vir o seguinte. É preciso pensar, que nessa altura, nada existia de tratamento ao cérebro, portanto perante o nada, as pessoas viam a situação como único recurso. Não me vou alongar mais, porque este é um assunto cientifico, apenas pretendi revelar que a nível do prémio Nobel, a sua atribuição pode vir a resultar em erros crassos, em todas as áreas e que tudo está em mutação, a nível das ideias e do progresso, para além de um outro factor, que sempre influencia, as pressões políticas e económicas.

sábado, 31 de outubro de 2009

ODE A WALT WHITMAN (GARCIA LORCA)


Pelo East River e pelo Bronxos rapazes cantavam,
mostrando a cintura,com a roda, o óleo, o coiro e o martelo.
Noventa mil mineiros arrancavam a prata das rochas
e crianças desenhavam escadas e perspectivas.
Porém nenhum adormecia,
nenhum queria ser rio,
nenhum amava as grandes folhas,
nenhum, a língua azul da praia.
Pelo East River e pelo Queensboroughos
rapazes lutavam com a indústria,
os judeus vendiam ao fauno do rio
a roda da circuncisão e o céu desembocava
por pontes e telhados manadas de bisontes
empurradas pelo vento.
Porém nenhum se detinha, nenhum queria ser nuvem,
nenhum procurava os fetos nem a roda amarela do tamboril.
Quando a lua nascer
as polés rodarão para tombar o céu;
um limite de agulhas cercará a memória
e ataúdes serão levados aos que não trabalham.
Nova Iorque de lama,
Nova Iorque de arame e de morte,
que anjo levas oculto na tua face?
Que voz perfeita dirá as verdades do trigo,
o sonho terrível das tuas anémonas manchadas?
Nem um só momento,
velho e formoso Walt Whitman,
deixei de olhar a tua barba cheia de borboletas,
os teus ombros de bombazine gastos pela lua,
as tuas coxas de Apolo virginal,
a tua voz como coluna de cinza;
ancião formoso como a bruma,
que gemias como um pássaro
com o sexo atravessado por uma agulha,
inimigo do sátiro,
inimigo da vide
e amante dos corpos ocultos por tecidos grosseiros.
Nem um só momento, formosura viril,
que em montes de carvão, vias-férreas e anúncios,
sonhavas ser um rio e dormir como um rio
com aquele camarada que poria no teu peito
uma pequena dor de ignorante leopardo.
Nem um só momento, Adão de sangue, macho,
homem sozinho no mar,
velho e formoso Walt Whitman,
porque nos terraços,
agrupado nos bares,
saído em cachos da sarjetas,
tremendo entre as pernas dos chauffeurs
ou girando nas plataformas do absinto,o maricas,
Walt Whitman, sonhava contigo.

Também esse! Também!
E despenham-sena tua barba luminosa e casta,
loiros do norte, negros das areias,
multidões de gritos e ademanes,
como os gatos e as serpentes,
os maricas, Walt Whitman, os maricas
turvos de lágrimas, carnes para chicotes,
bota ou mordedura dos domadores.
Também esse! Também!
Dedos pintados apontam a margem do teu sonho,
quando o amigo come a tua maçã
com um leve sabor de gasolina,
e o sol canta nos umbigos
dos rapazes que brincam debaixo das pontes.
Mas tu não procuravas olhos arranhados,
nem o pântano sombrio onde afogam os garotos,
nem a saliva gelada,
nem as feridas curvas como panças de sapos
que os maricas levam em carros, aos terraços,
enquanto os fustiga a lua pelas esquinas do terror.
Tu procuravas um nu que fosse como um rio,
toiro de sonho que junte a roda à alga,
pai de tua agonia, camélia da tua morte,
e gemesse nas chamas do teu equador oculto.
Porque é justo que o homem não procure o prazer
na selva de sangue da manhã mais próxima.
O céu tem praias onde evitar a vida
e há corpos que não devem repetir-se na aurora.
Agonia, agonia, sonho, fermento e sonho.
Assim é o mundo, amigo, agonia, agonia.
Apodrecem os mortos sob o relógio das cidade,
passa a guerra chorando com um milhão de ratas cinzentas,
os ricos dão às suas amantes
pequenos moribundos iluminados
e a vida não é nobre, nem boa, nem sagrada.
Pode o homem, se quiser, conduzir o desejo
por veia de coral ou nu celeste.
Amanhã todo o amor será rocha e o Tempo
uma brisa que chega adormecida pelos ramos.
isso não ergo a minha voz,
velho Walt Whitman,
ccontra o garoto que escreve um nome de menina na sua almofada,
contra o jovem que se veste de noiva na penumbra da sua alcova,
nem contra os solitários dos casinos
que bebem com nojo a água da prostituição,
nem contra os homens de olhar verde
que amam outro homem
queimando os lábios em silêncio.
Mas sim contra vós, maricas das cidades,
de carne apodrecida e pensamento imundo,
mães do lodo, harpias, inimigo sem o sonho
do Amor que reparte grinaldas de alegrias.
Como vós sempre, que aos rapazes
gotas de suja morte com veneno amargo.
contra vós,
Faeries da América,
Pájaros de Havana,
Jotos do Mexico,
Sarasas de Cádis,
Apios de Sevilha,
Cancos de Madrid,
Floras de Alicante,
Adelaides de Portugal.
Maricas de todo o mundo, assassinos de pombas!
Escravos da mulher, cadelas de seus toucadores,
aberto nas praças com febre de leque
ou emboscados em hirtas paisagens de cicuta.
Não haja tréguas! A morte
irrompe dos vossos olhos e junta flores de cinza
na margem do lodo.
Não haja tréguas!
Alerta!
Que os confundidos, os puros,os clássicos,
os predestinados, os suplicantes vos fechem as portas da bacanal.
E tu, belo Walt Whitman,
dorme nas margens do Hudson
com a barba virada ao pólo e as mãos abertas.
Argila branca ou neve,
a tua língua chama camaradas
que velem tua gazela sem corpo.
Dorme, não fica nada.
Uma dança de muros agita as pradarias
e a América afoga-se em máquinas e pranto.
Quero que o ar forte da noite mais profunda
tire flores e letras do arco onde dormes
e um garoto negro anuncie aos brancos do oiro
a chegado do reino das espigas."

SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN - (A.CAMPOS/PESSOA)

(Pintor - Costa Pinheiro)

Portugal-Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze...
-lá-á-á-á-á-á-á!
De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser...
Eu tão contíguo à inércia,
Não facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.


Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn&Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela rua do Ouro acima pensando em tudo o que não é a rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo,
e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas,
dançando o universo na alma.

Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas,
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!

Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo,
Grande democrata epidérmico,
contíguo a tudo em corpo e alma,
Carnaval de todas as acções,
bacanal de todos os propósitos,
Irmão gémeo de todos os arrancos,
Jean-Jacques&Rousseau do mundo que havia de produzir máquinas,
Homero do insaisissable do flutuante carnal,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Electricidade futura!


Incubo de todos os gestos,
Espasmo pra dentro de todos os objectos-força,
Souteneur de todo o Universo,
Rameira de todos os sistemas solares...
Quantas vezes eu beijo o teu retrato!
Lá onde estás agora (não sei onde é mas é Deus)
Sentes isto, sei que o sentes,
e os meus beijos são mais quentes em gente)
E tu assim é que os queres, meu velho, e agradeces de lá,
– Sei-o bem, qualquer coisa mo diz, um agrado no meu espírito
Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma.

Nada do engageant em ti, mas ciclópico e musculoso,
Mas perante o Universo a tua atitude era de mulher,
E cada erva, cada pedra, cada homem era para ti o Universo.

Meu velho Walt, meu grande Camarada, evohé!
Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés
até à náusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim,
de aí desde Deus vês-me ao contrário:
De dentro para fora...

Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma
– Isso vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo
– Olha pra mim: tu sabes que eu,
Álvaro de Campos, engenheiro,
Poeta sensacionista,
Não sou teu discípulo,
não sou teu amigo,
não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!

Nunca posso ler os teus versos a fio...
Há ali sentir demais...
Atravesso os teus versos como uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a actividade humana e mecânica.

Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No tecto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do tecto da tua intensidade inacessível.

Abram-me todas as portas!
Por força que hei-de passar!
Minha senha? Walt&Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim – eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há-de passar por força,
porque quando quero passou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata,
não o espírito que dá a vida.

O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
É comigo, com Deus, com o sentido – eu da palavra Infinito...
Prá frente!
Meto esporas!

Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana...
Ninguém tem nada com isso...
Loucura furiosa!

Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,
De me cramponner às rodas dos veículos e meter por baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai bater,
De ser cadela de todos os cães e eles não bastam,
De ser o volante de todas as máquinas e a velocidade tem limite,
De ser o esmagado, o deixado, o deslocado, o acabado,
Dança comigo, Walt, lá do outro mundo, esta fúria,
Salta comigo neste batuque que esbarra com os astros,
Cai comigo sem forças no chão,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
Em tudo, por tudo, à roda de tudo, sem tudo,
Raiva abstracto do corpo fazendo maelstrons na alma...

Arre! Vamos lá prá frente!
Se o próprio Deus impede, vamos lá prá frente...
Não faz diferença...
Vamos lá prá frente sem ser para parte nenhuma...
Infinito! Universo! Meta sem meta! Que importa?
(Deixa-me tirar a gravata e desabotoar o colarinho.

Não se pode ter muita energia com a civilização à roda da pescoço...)
Agora, sim, partamos, vá lá prá frente.

Numa grande marche&aux&flambeaux-todas-as-cidades-da-Europa,
Numa grande marcha guerreira a indústria, o comércio e ócio,
Numa grande corrida, numa grande subida, numa grande descida
Estrondeando, pulando, e tudo pulando comigo,
Salto a saudar-te,
Berro a saudar-te,
Desencadeio-me a saudar-te, aos pinotes, aos pinos, aos guinos!

Por isso é a ti que endereço
Meus versos soltos, meus versos pulos, meus versos espasmos
Os meus versos-ataques-histéricos,
Os meus versos que arrastam o carro dos meus nervos.

Aos trambolhões me inspiro,
Mal podendo respirar, ter-me de pé me exalto,
E os meus versos são eu não poder estoirar de viver.
Abram-me todas as janelas!
Arranquem-me todas as portas!
Puxem a casa toda para cima de mim!
Quero viver em liberdade no ar,
Quero ter gestos fora do meu corpo,
Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo,
Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras,
Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares,
Com uma voluptuosidade que já está longe de mim!
Não quero fechos nas portas!
Não quero fechaduras nos cofres!
Quero intercalar-me, imiscuir-me, ser levado,
Quero que me façam pertença doida de qualquer outro,
Que me despejem dos caixotes,
Que me atirem aos mares,
Que me vão buscar a casa com fins obscenos.


(UFFF...DE PERDER O FOLGO...)

WALT WHITMAN (1819-1892)


Walt Whitman poeta norte-americano, executou vários trabalhos, foi tipógrafo, impressor, professor, jornalista, editor e poeta.
Em 1855 publicou a primeira edição de "Leaves of Grass", cujos custos suportou. A obra poética de Whitman centra-se nesta colectânea, dado que ao longo da sua vida o escritor dedicou o seu tempo a rever e a completar o livro, que teve um grande número de edições.

CANTO A MIM MESMO (EXCERTO)

Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.

Descanso e convido a minha alma,
Deito-me e descanso tranquilamente,
observando uma haste da relva de verão.

Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,
Com a esperança de não cessar até morrer.


Crenças e escolas quedam-se dormentes
Retraindo-se por hora na suficiência do que não, mas nunca esquecidas,
Eu me refugio pelo bem e pelo mal,
eu permito que se fale em qualquer casualidade,
A natureza sem estorvo, com energia original.

Nos seus poemas, Walt Whitman elevou a condição do homem moderno, celebrando a natureza humana e a vida em geral em termos pouco convencionais. Na sua obra "Leaves of Grass", exprime em poemas visionários um certo panteísmo e um ideal de unidade cósmica que o Eu representa. Introduziu uma nova subjectividade na concepção poética e fez da sua poesia um hino à vida. A técnica inovadora dos seus poemas, nos quais a ideia de totalidade se traduziu no verso livre, influenciou não apenas a literatura americana posterior, mas todo o lirismo moderno, incluindo o poeta e ensaísta português Fernando Pessoa. Profundamente identificado com os ideais democráticos da nação americana, Whitman não deixou de celebrar o futuro da América. Whitman, ficou ainda mais conhecido mundialmente a partir das citações inseridas no enredo do filme, Clube dos Poetas Mortos.
Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas

Estão todas as verdades à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor que um toque?)
Sermões e lógicas jamais convencem o peso da noite
cala bem mais fundo em minha alma.
(Só o que se prova a qualquer homem ou mulher, é que é;
só o que ninguém pode negar, é que é.)
Um minuto e uma gota de mim tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor está o sentimento de um pelo outro,
e hão-de ramificar-se ao infinito a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar e nós a eles.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009


Os meus pais, quando era miúda levavam-me sempre ao circo no Natal. O circo encantava-me e hoje continua a encantar-me, mas as minhas ideias sobre o mesmo alteraram-se. Em miúda encantava-me no circo os trapezistas e confesso que gostava bastante das proezas dos animais, tigres, leões e elefantes. Mais tarde comecei a ler e a compreender, que esses animais eram «usados», maltratados e humilhados. Claro, que isto bem a propósito da portaria (1226/2009) emanada pelo Ministério do Ambiente, que proíbe os animais no circo e em lojas e, apresenta uma lista dos animais autorizados em parques zoológicos, empresas de produção animal e centros de recuperação. Esta lei foi mal recebida, pelos empresários ligados ao circo, mas quanto a mim, só peca por tardia.

«YO NO CREO EN BRUJAS, PERO QUE LAS HAY, LAS HAY???? CERVANTES


O Dia das Bruxas (Halloween é o nome original na língua inglesa) é um evento tradicional e cultural, que ocorre nos países anglo-saxónicos, com especial relevo nos Estados Unidos, Canadá, Irlanda e Reino Unido, tendo como base e origem as celebrações dos antigos povos.Na celebração actual do Halloween, podemos notar a presença de muitos elementos ligados ao folclore em torno da bruxaria. As fantasias, enfeites e outros itens comercializados por ocasião dessa festa, estão repletos de bruxas, gatos pretos, vampiros, fantasmas e monstros, no entanto isso não reflecte a realidade pagã.
HISTÓRIA
A celebração do Halloween tem duas origens que no decorrer da História se foram misturando:
Origem Pagã - que tem a ver com a celebração celta chamada Samhain, que tinha como objectivo dar culto aos mortos. Sabe-se que as festividades do Samhain eram celebradas muito possivelmente entre os dias 5 e 7 de Novembro (a meio caminho entre o equinócio de verão e o solstício de inverno). Eram precedidas por uma série de festejos que duravam uma semana, e davam início ao ano novo celta. A “festa dos mortos” era uma das suas datas mais importantes, pois celebrava o que para nós seriam “o céu e a terra” (conceitos que só chegaram com o cristianismo). Para os celtas, o lugar dos mortos era um lugar de felicidade perfeita, onde não haveria fome nem dor. A festa era celebrava com ritos presididos pelos sacerdotes druidas, que actuavam como “médiuns” entre as pessoas e os seus antepassados. Dizia-se também que os espíritos dos mortos voltavam nessa data, para visitar seus antigos lares e guiar os seus familiares rumo ao outro mundo.
Origem Católica - Desde o século IV a Igreja da Síria consagrava um dia para festejar “Todos os Mártires”. Três séculos mais tarde o Papa Bonifácio IV, transformou um templo romano dedicado a todos os deuses (panteão) num templo cristão e dedicou-o a “Todos os Santos”. A festa em honra de Todos os Santos, inicialmente era celebrada no dia 13 de maio, mas o Papa Gregório III, mudou a data para 1º de Novembro, que era o dia da dedicação da capela de Todos os Santos na Basílica de São Pedro, em Roma. Mais tarde, no ano de 840, o Papa Gregório IV ordenou que a festa de Todos os Santos fosse celebrada universalmente. A festa era chamada All Hallow’s Eve (Vigília de Todos os Santos), passando depois pelas formas All Hallowed Eve e “All Hallow Een” até chegar à palavra actual “Halloween”.
(WIKIPÉDIA)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

AOS PROFESSORES


Para todos aqueles que, nos atribulados dias de hoje, insistem em honrar uma das mais belas profissões do mundo, fica um poema de Jô Soares.


O material escolar mais barato que existe na praça é o professor!
É jovem, não tem experiência.
É velho, está superado.
Não tem automóvel, é um pobre coitado.
Tem automóvel, chora de "barriga cheia".
Fala em voz alta, vive gritando.
Fala em tom normal, ninguém escuta.
Não falta ao colégio, é um "Adesivo".
Precisa faltar, é um "turista".
Conversa com os outros professores, está "malhando" nos alunos.
Não conversa, é um desligado.
Dá muita matéria, não tem dó do aluno.
Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Não brinca com a turma, é um chato.
Chama a atenção, é um grosso.
Não chama a atenção, não se sabe impor.
A prova é longa, não dá tempo.
A prova é curta, tira as hipóteses do aluno.
Escreve muito, não explica.
Explica muito, o caderno não tem nada...
Fala correctamente, ninguém entende.
Fala a "língua" do aluno, não tem vocabulário.
Exige, é rude.
Elogia, é debochado.
O aluno é retido, é perseguição.
O aluno é aprovado, deitou "água-benta".
É! O professor está sempre errado, mas, se conseguiu ler até aqui, agradeça a ele.