A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




quinta-feira, 31 de maio de 2012

NA CASA MIGUEL TORGA



ADOLFO CORREIA DA ROCHA/MIGUEL TORGA (1907-1995)
Miguel Torga foi o pseudónimo literário, adoptado por Adolfo Correia da Rocha, demarcando o homem do escritor, mas Torga é uma reafirmação à sua terra natal, S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, Vila Real. Torga é uma planta transmontana, urze campestre, com raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas.
Antes de se formar em medicina, Adolfo Correia da Rocha, esteve cinco anos (1920/25) no Brasil a trabalhar na fazenda de um tio em Santa Cruz (Minas Gerais), onde frequentou o liceu de Leopoldina. Depois regressou continuando os seus estudos e formou-se na Universidade de Coimbra, em medicina, onde se fixou exercendo a especialidade de otorrinolaringologia, paralelamente a uma brilhante carreira literária.

QUASE UM POEMA DE AMOR

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem esse humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
-Há muito tempo que não escrevo um poema
De amor.

(In Diário V)

VOZ ACTIVA
Canta, poeta, canta!
Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega
O mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia.

(Diário XIII)






terça-feira, 22 de maio de 2012

DALTON TREVISAN - PRÉMIO CAMÕES 2012

DALTON TREVISAN, recebeu o prémio Camões 2012.
Um dos maiores escritores da actualidade, é considerado pela crítica como «o maior contista moderno do Brasil». É conhecido por ser um autor avesso a entrevistas e fotografias.



Uma Vela para Dario
Dalton Trevisan
Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque. Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos,Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.  Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado. A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede – não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata. Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina;a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las. Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso. Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados – com vários objetos -de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade. Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo – só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão. A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar.Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto. Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva. Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.
Texto extraído do livro “Vinte Contos Menores”, Editora Record – Rio de Janeiro,1979. Este texto faz parte dos 100 melhores contos brasileiros do século, seleção de Ítalo Moriconi para a Editora Objetiva

sexta-feira, 18 de maio de 2012

terça-feira, 15 de maio de 2012

“Precisa-se”


Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.    ( Clarice Lispector )

sábado, 12 de maio de 2012

PARABÉNS MANUEL ALEGRE!

Hoje dia do aniversário do poeta Manuel Alegre, um poema do seu recente novo livro de poemas.

BALADA DOS AFLITOS


Irmãos humanos tão desamparados
A luz que nos guiava já não guia
Somos pessoas – dizeis – e não mercados
Este por certo não é tempo de poesia
Gostaria de vos dar outros recados
Com pão e vinho e menos mais valia.

Irmãos meus que passais um mau bocado
E não tendes sequer a fantasia
De sonhar outro tempo a outro lado
Como António digo adeus a Alexandria
Desconcerto do mundo tão mudado
Tão diferente daquilo que se queria.

Talvez Deus esteja a ser crucificado
Neste reino onde tudo se avalia
Irmãos meus sem valor acrescentado
Rogai por nós Senhora da Agonia
Irmãos meus a quem tudo é recusado
Talvez o poema traga um novo dia

Rogai por nós Senhora dos Aflitos
Em cada dia em terra naufragados
Mão invisível nos tem aqui proscritos
Em nós mesmos perdidos e cercados
Venham por nós os versos nunca escritos
Irmãos humanos que não sois mercados.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MORREU O PINISTA E COMPOSITOR BERNARDO SASSETTI - INQUALIFICÁVEL TRISTEZA!

Morreu Bernardo Sassetti, confirmou ao DN fonte da sua editora, a Clean Feed. Segundo a mesma fonte o pianista caiu de uma falésia no Guincho. Por motivos de saúde, Sassetti cancelou recentemente um espectáculo na Culturgest. Em novembro de 1997 gravou "What Love is", acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Londres e tendo como convidado especial Sting. Bernardo Sassetti era casado com a atriz Beatriz Batarda de quem teve duas filhas. Era bisneto de Sidónio Pais, Presidente da I República. O pianista foi um dos músicos mais ativos a compor música para a sétima arte em Portugal, sendo da sua autoria bandas sonoras de filmes como Alice, de Marcos Martins, Um Amor de Perdição, de Mário Barroso, ou Second Life, de Alexandre Valente. Enquanto viveu em Londres participou também na longa-metragem O Talentoso Mr. Ripley, de Anthony Minghella.



quarta-feira, 9 de maio de 2012

APESAR DA CRISE MAIS UM TRADICIONAL CORTEJO ACADÉMICO!

A crise e o desemprego foram as tónicas das mensagens deixadas pelos estudantes universitários, muitos deles finalizando os seus cursos para enfrentarem o desemprego ou então emigrarem como o Primeiro Ministro sugere. Depois da sigla «DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA»  a sigla actual é «ADEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA».




segunda-feira, 7 de maio de 2012

O QUE VI RECENTEMENTE NO CINEMA!

A programação deixa muito a desejar, mas não me divorcio do prazer de ver cinema, vendo algum que passa mais marginal!

TERRA DE SANGUE E MEL

Filme de estreia de Angelina Jolie como realizadora, interpretado por Zana Marjanovic, Goran Kostic e Rade Serbedzija.


Se a Angelina Jolie, não fosse a Angelina Jolie…uma estrela numa passadeira vermelha, uma figura presente nas revistas cor-de-rosa, o filme não passaria pelas salas
internacionais, mas avaliando os filmes que há para consumir e deitar fora, ainda bem que este chegou.
Podendo torcer-se o nariz a um filme-denúncia, realizado por Angelina Jolie, apesar do seu envolvimento em variadas causas, vê-se um trabalho não brilhante, mas honesto e bem intencionado.
«Na Terra de Sangue e de Mel», são mostradas as atrocidades do genocídio, os campos de concentração, as violações de mulheres em massa, a limpeza étnica e ineficiência americana para lidar com um massacre bárbaro que poucos acreditavam que pudesse acontecer tão perto, no tempo e na geografia: a sangrenta guerra na ex-Jugoslávia, nos anos 90. Angelina usa o expediente óbvio, de dois amantes separados pelas barricadas do conflito, ele oficial sérvio, e ela uma bósnia pintora e muçulmana, que se reencontram em plena barbárie. Ela e outras mulheres jovens e bonitas são escolhidas para serem escravas de cozinha e da cama dos militares. O Sérvio tenta protege-la, mas há ali uma ambiguidade que o argumento não soube explorar. O romance é insípido. 

EXÓTICO HOTEL MARYGOLD


 De John Madden

 


Judi Dench, Tom Wilkinson, Bill Nighy ou Maggie Smith são alguns dos nomes de um elenco de qualidade inquestionável, aos quais se junta a irreverência e fluidez de Dev Patel. Quase na totalidade rodado na Índia, o filme acompanha as peripécias de um grupo de "seniores" ingleses que procura naquele país exótico uma lufada de ar fresco para as suas vidas. 
Atraídos pela ilusão de um espaço mágico e relaxante, o primeiro contacto com as pessoas locais e com o Hotel que dá nome ao filme estará longe de ser o mais agradável.

Mais do que o retrato de um país diferente, o filme preocupa-se, acima de tudo, em demonstrar que há verdadeiramente algo que apenas a maturidade permite alcançar. Na vida destas 7 pessoas, cada um com o seu passado e com o seu presente, será difícil não reflectirmos sobre os receios, sonhos e desgostos, acumulados ao longo de uma vida inteira.

Filme recheado de subtilezas, encantos, falsas moralidades e auto-críticas, ao qual Madden transmite autenticidade e naturalidade.


Amigos Improváveis 

Realizado por: Olivier Nakache e Eric Toledano. 

Philippe (François Cluzet), é um aristocrata francês de meia-idade, que sofreu um acidente de parapente, que o deixou tetraplégico e decide contratar alguém que o apoie nas suas rotinas diárias. Para tal, entre muitos candidatos, contrata Driss (Omar Sy), um jovem senegalês de um bairro problemático, recém-saído da prisão. Driss é, segundo todas as aparências, alguém totalmente inadequado à função, porém Philippe, estabelece com ele um vínculo imediato e contrata-o. Assim, aqueles dois homens com vidas tão díspares vão encontrar coisas em comum que ninguém julgaria possíveis, nascendo entre eles uma amizade que, apesar de improvável, se tornará mais profunda a cada dia. Partilhando, experiências e saberes, vão ter para as suas vidas individuais uma outra perspetiva.


Amigos Improváveis - Trailer Legendado


sábado, 5 de maio de 2012

O PAÍS DOS CÁGADOS

PARA QUEM GOSTA DE BANDA DESENHADA, CAPA E CONTRACAPA.



sexta-feira, 4 de maio de 2012

BOM FIM DE SEMANA COM MÚSICA E POESIA!



o suporte da música
o suporte da música pode ser a relação 
entre um homem e uma mulher, a pauta 
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus 
olhares encontrando-se, ou das suas 

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas, 
ou dos seus obscuros sinais de entendimento, 
crescendo como trepadeiras entre eles. 
o suporte da música pode ser uma apetência 

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se 
ramifica entre os timbres, os perfumes, 
mas é também um ritmo interior, uma parcela 
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando 

por uns frágeis momentos, concentrado 
num ponto minúsculo, intensamente luminoso, 
que a música, desvendando-se, desdobra, 
entre conhecimento e cúmplice harmonia. 

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

segunda-feira, 30 de abril de 2012

PERAMBULAR


Chegou e deslumbrou-se com as flores amarelas, que sentiu como colorida brisa nos olhos, carícia de pétalas acetinadas e o mar lá mais adiante, um mar imenso, azul, onde as nuvens, véus vaporosos, se espelhavam.



O seu olhar fixou-se na delimitação do mar e da terra, naquele ponto onde confluíam emoções e um ténue tremer do corpo evadiu-a, suspendendo-lhe os gestos!
Caminhou até ao bar, para lentamente, absorta das pessoas, sorver um café concentrando-se nas ondas, no ruído sincopado do vai e vem, riscado na areia.


Barcos, mar…lembrou-se, que quando passou no cais, viu uma grande armação de ferro vermelho e sobre esse vermelho, pintadas a preto, frases de Pessoa, passaram-lhe rapidamente pelos olhos, mas lembra-se desta, da Ode Marítima do Álvaro de Campos.

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! 


Caminhou pelo passadiço, sem sentir os pés no chão toda envolvida em fantasias, como Penélope tecendo em fio fino as voltas e contravoltas de um rendilhado de sonhos, sempre feito e desfeito, olhos cravados no infinito.

Cansou-se e entre rochas sentou-se olhando de vez enquanto a pequena praia, ali a seus pés, intercalando com a leitura do seu livro de companhia.



Nova Iorque era um espaço inesgotável, um labirinto de passos intermináveis; mas independentemente da distância que percorresse, independentemente de se ter familiarizado com as vizinhanças e as ruas, ficava sempre com a sensação de estar perdido. Perdido, não apenas na cidade, mas também dentro de si. Sempre que dava um passeio, sentia-se como se se deixasse a si próprio para trás, e entregando-se ao movimento das ruas, reduzido a um olho que vê, conseguia escapar à obrigação de pensar, e isto, mais de que qualquer outra coisa, trazia-lhe uma certa paz, um salutar vazio interior. O mundo estava no exterior de si, à sua volta, perante si, e a velocidade com que o mundo mudava impossibilitava-o de se prender por muito tempo a uma única coisa. O movimento era a essência, o acto de pôr um pé adiante do outro e seguir a errância do seu próprio corpo. Todos os lugares se tornavam semelhantes caminhando assim sem destino, e deixava de ter importância o sítio onde se encontrava, estava em sítio algum. E isto, afinal, era tudo que pedia às coisas: não estar em sítio algum.

A Triologia de Nova Iorque – Paul Auster


Olhou à volta o sítio onde estava, estava ali naquele sítio, um sítio bem longe da cidade, mas perto de Nova Iorque e próximo de todos os sítios de ilusão, não estando em sítio algum!


Em frente a capela da Boa Nova, onde num rochedo, estava cravada uma placa, que tinha escrito:



Na praia lá da Boa Nova, um dia,


Edifiquei (foi esse o grande mal)

Alto Castelo, o que é a fantasia,

Todo de lápis-lazúli e coral!





E sentiu essas palavras escritas outrora, nesse agora onde as palavras carregadas de emoções sempre ecoam!




quinta-feira, 26 de abril de 2012

ADEUS MIGUEL!

Morreu um homem justo


Há dois tipos de acontecimentos sobre que evito escrever: efemérides e notícias necrológicas. Há, porém, efemérides inevitáveis e mortes que é impossível omitir. O 25 de Abril é uma dessas efemérides e a morte de Miguel Portas, num momento em que o país mais precisa de homens lúcidos e livres, um desaparecimento que justificaria que se dissesse que ficámos, se possível, ainda mais pobres, não se tivesse tornado tal expressão um cliché fruste sem réstia de literalidade.
Ao todo, terei convivido com Miguel Portas umas poucas de dezenas de horas. Foi o suficiente para me aperceber de um homem de justa inteligência, grande seriedade intelectual e, ao mesmo tempo, de sentido de humor contagiante, coisas praticamente impossíveis de encontrar juntas num político, além do mais um dirigente partidário. Só alguém como ele teria sido capaz de, apesar de todas as nossas divergências, me convencer a aceitar episodicamente (e imprudentemente) ser mandatário de um projecto partidário. Quis eu então acreditar que tal projecto fosse à imagem de Miguel Portas. Não era, como rapidamente e sem surpresa descobri.
Conta-se que Camões, sabendo no leito de morte da catástrofe de Alcácer Quibir, terá dito: "Morro com a Pátria". Miguel Portas não teria gostado da duvidosa palavra "Pátria", mas morreu também quando Portugal se afunda num desastre não menos catastrófico para a independência nacional do que o de Alcácer Quibir.
Manuel António Pina JN

terça-feira, 24 de abril de 2012

NA PRAÇA DA LIBERDADE


Impossível esquecer o 25 de Abril de 1974, foi um impacto tão forte, que se não soubesse o que sei, podia bem ter acontecido ontem, vivos que estão em mim todos os seus detalhes e pormenores. Era jovem, cheia de sonhos e senti a euforia a arder nas veias. Em minha casa entrou o sorriso, de um momento para o outro, os olhos ficaram brilhantes, o envolvimento no desenrolar dos acontecimentos agitava as paredes, abria as portas. A Praça da Liberdade era um local de muita passagem, as pessoas queriam ver, sentir as outras, serem as primeiras a ler os placards das últimas notícias e ficar entre desconhecidos/amigos, a comentar. Os anseios manifestados nas conversas na penumbra, podiam ser partilhados à luz do dia!
As canções explodiram na praça:

As canções explodiram na praça:
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
…/…
E agora, o povo ergue-se e luta
Com voz de gigante, gritando avante
O povo unido jamais será vencido…

…/…
       «Só há liberdade a sério quando houver 
       A paz, o pão, habitação; saúde, educação 
        …/…

 
E podia continuar e fazer uma grande explanação, sobre o vivido e a realidade angustiante de hoje, 38 anos decorridos depois da Revolução dos cravos, mas estou cansada de palavras, cansaram-me de palavras que eu não queria ouvir! Recolho-me ao silêncio, deito-me ainda no sonho, com as janelas fechadas ao caos, meus olhos gotejam vendo as imagens que guardo dentro de mim!