A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




sábado, 30 de junho de 2012

LEITURAS, RELEITURAS E PESQUISAS


Uma mulher só em palco, fala ao telefone com o seu (invisível e inaudível) amante perdido. A voz humana é enganadoramente simples - apenas uma actriz em palco durante uma hora, falando ao telefone. Na realidade, está repleto de referências dramáticas às experiências Vox Humana dos dadaístas.
Nenhuma outra obra de Cocteau inspirou tantas criações: a ópera homónima de Francis Poulenc, a ópera buffa de Gian Carlo Menotti, Le Telephone, e a versão em filme de Roberto Rosselini, com Anna MagnaniL'Amore (segmento: Il Miracolo) de 1948. Esta obra tem vindo a atrair um conjunto de grandes actrizes, incluindo Simone SignoretIngrid Bergman e Liv Ullmann (em teatro) e Julia Migenes (em ópera).

O que?…………………………. Oh! sim, mil vezes melhor. Se não tivesses telefonado morreria………………………… Não……………………… espera…………………………….. espera……………………………… encontremos uma saída…………………………… Perdoa-me. Eu sei que é uma cena intolerável, e muita paciência tens tu, mas compreende-me, querido; sofro, sofro como nunca. Este fio é a única coisa que me liga ainda à nossa vida………………………….. Anteontem à noite? Dormi. Deitei-me com o telefone……………………… Não, não. Levei-o para a cama………………. Claro, fui ridícula, mas se levei o telefone para a cama é porque ele, apesar de tudo, nos une ainda. Liga esta casa à tua casa e não te esqueças que me tinhas prometido falar. Imagina que mergulhei numa confusão de sonhos. A tua chamada transformava a campainha do telefone num som mortal e eu caía; depois, vi um pescoço branco que alguém estrangulava; depois ainda, achei-me no fundo dum mar que se parecia com o apartamento de Auteuil, ligada a ti por um tubo de escafandro e a suplicar-te que não o cortasses. Enfim, sonhos estúpidos quando se contam; mas o pior é que durante o sono eram demasiado vivos. Terrível, meu amor…………………………………………….. Porque tu me falas. Há cinco anos que vivo de ti, que és o único ar que posso respirar, que levo o tempo à tua espera, a julgar-te morto quando te demoras, a morrer porque te julgo morto, a reviver quando entras e te vejo, a morrer com medo de partires. Neste momento, respiro porque tu me falas. O meu sonho, afinal, não é assim tão falso; se desligares agora, morrerei afogada naquele mar que parecia o teu apartamento……………………………………………………………………… De acordo, meu amor; dormi. Dormi porque era a primeira vez. O médico bem disse: é uma intoxicação. Mal ele sabia… A primeira noite, dorme-se. O sofrimento distrai, é uma novidade, suportamo-lo. O que não se suporta é a segunda noite, a de ontem, e a terceira, a de hoje, a que vai começar dentro de alguns minutos, e amanhã e depois de amanhã, dias sobre dias, a fazer o que, meu Deus?


segunda-feira, 25 de junho de 2012

NÃO SE DEIXE MORRER POR DENTRO

Edward Hopper

A agitação em que se vive exige sossego, solidão para estarmos a sós connosco, para olhar para dentro, para ordenar as ideias. Uma solidão controlada, com o tempo certo. No entanto a solidão para muitos está sempre omnipresente, uma sombra opressiva de isolamento com os outros. Esta solidão, segundo estudos feitos antecipa a morte. Esta tristeza solitária produz alterações hormonais e químicas. O problema não está em viver-se sozinho, mas em sentir-se sozinho, mesmo quando temos a casa cheia. É preciso lutar contra a solidão, é preciso lutar para ser feliz e não se deixar morrer por dentro.

domingo, 17 de junho de 2012

A INVENÇÃO DO DIA CLARO (excertos) - ALMADA NEGREIROS

ALMADA NEGREIROS

Imaginava eu que havía tratados da vida das pessoas, como ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim parecidos com o tratamento que ha para os animaes domesticos, não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!
Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia. Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com a morada e o dia.
* * * * *
Não achas, Mãe? Por exemplo. Ha um cão vadio, sujo e com fome, cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.
Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si–não saber cuidar de si é ser cão.
Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si!
Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!
* * * * *
Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar e nenhuma era para copiar.
Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei com a mão suada do livro de me ter estendido a mão.
Talvez que nos outros livros… mas os titulos dos livros são como os nomes das pessoas–não quere dizer nada, é só para não se confundir…
* * * * *
Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.
* * * * *
Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa–salvar a humanidade.

Ps. Ortografia da época.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

EVOCAÇÃO DE EUGÉNIO DE ANDRADE

MARIA VARBANOVA
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume

Eugénio de Andrade


EVOCAÇÃO DE EUGÉNIO - EXPOSIÇÃO NO ESPAÇO Q, ASSOCIAÇÃO DAS QUADRAS SOLTAS, RUA DE MIGUEL BOMBARDA - PORTO

quarta-feira, 13 de junho de 2012

EXCERTO de: «Nobreza de Espírito-Um Ideal Esquecido» de Rob Riemen


"Baruch de Espinosa tem 24 anos quando abandona o meio mercantil em que foi criado para dedicar o resto da sua vida à demanda da verdade e à meta de uma vida vivida com verdade. .../...
A mente é o maior dom da humanidade. Pensando por si, qualquer pessoa pode familiarizar-se com o que é verdadeira e duradouramente bom e viver em conformidade. A melhor vida é desse modo inteiramente dedicada ao pensamento, ao amor da sabedoria. Numa carta a um amigo, Espinosa confessa: «Que cada um viva de acordo com as suas inclinações pessoais tanto quanto eu posso viver para a verdade». Ao mesmo tempo, compreende que a verdade e a liberdade estão sempre entrelaçadas. Quem não for livre não pode viver com verdade."

sexta-feira, 8 de junho de 2012

QUINTA DAS LÁGRIMAS (EXTERIOR E INTERIOR)

Há dias usufruiu desse beleza ímpar, local cheio de mitos e místicas, que deixa a alma bucólica!...
Depois da luxuriante Natureza, a casa onde a decoração, a luz entrando suave pelos cortinados semi-abertos me levou até um filme de época. Como fundo musical escolhi o adagio do concerto de oboé de A. Marcello



http://pt.wikipedia.org/wiki/Quinta_das_L%C3%A1grimas



Além da Fonte dos Amores, Luís de Camões, baptizou uma outra com o nome de "Fonte das Lágrimas", nascida das lágrimas que Inês chorou ao ser assassinada. O sangue de Inês terá ficado preso às rochas do leito, ainda rubras após seis séculos e meio...
"As filhas do Mondego, a morte escura
Longo tempo chorando memoraram
E por memória eterna em fonte pura
As Lágrimas choradas transformaram
O nome lhe puseram que ainda dura
Dos amores de Inês que ali passaram
Vede que fresca fonte rega as flores
Que as Lágrimas são água e o nome amores"
Os Lusíadas, canto III.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

UM ASSUNTO NADA PACÍFICO - OS DIREITOS LGBT


Gostei de um artigo que li sobre esta temática de Valter Hugo Mãe-JL.(nº.1080)

«Adiar os direitos LGBT é adiar a humanidade. É optar pelo lado animal, irracional, que nos compõe e persistir em abdicar da plenitude afetiva que deve significar ser-se pessoa. Ser-se pessoa deve assentar na capacidade de gostar, porque só no afeto se justifica a resistência perante cada dificuldade da vida. A felicidade implica o outro ou a expectativa do outro, e quem se desmobiliza nos afectos desistiu de ser feliz. Em certa medida, quem se desmobilizou dos afectos desistiu de ser gente.»
Trata-se obviamente do latente estigma contra a homossexualidade. Existe uma falsa tolerância, quando nem de tolerância se trata, mas sim de aceitação. Aceitando a diferença como algo que a natureza define, na sua diversidade, sem condenação, nem maldade.  
É uma falácia o argumento «contra natura»! 

A homossexualidade é uma das três principais categorias de orientação sexual, juntamente com a bissexualidade e a heterossexualidade, sendo também encontrada em muitas espécies animais.

«A vida funciona de acordo com o que é. Não resolve querer mudar ou existir legislação para se reprimir o que se é. É preciso aceitar e também entender cada situação. A questão está em se colocar diante de uma realidade de efetiva evolução espiritual».

O aspeto mais delicado e controverso desta questão ainda é adoção. V. Hugo Mãe diz sobre isso:

«O desassombro em relação ao tema, será sempre seguido pela naturalidade dos miúdos. Porque o preconceito pertence aos adultos, as crianças vão sempre amar quem as ama, muito antes de saberem o nome das coisas.»

A não promulgação desta lei é uma hipocrisia, porque sempre houve e há, maneiras de contornar a questão, só que será sempre mais penalizadora, ninguém gosta de viver em ilegalidade. Acrescento que considero que a homossexualidade não é contagiosa e se um dia mais tarde forem descriminados, pela sociedade, será por esses monstros da tolerância»!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

NA CASA MIGUEL TORGA



ADOLFO CORREIA DA ROCHA/MIGUEL TORGA (1907-1995)
Miguel Torga foi o pseudónimo literário, adoptado por Adolfo Correia da Rocha, demarcando o homem do escritor, mas Torga é uma reafirmação à sua terra natal, S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, Vila Real. Torga é uma planta transmontana, urze campestre, com raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas.
Antes de se formar em medicina, Adolfo Correia da Rocha, esteve cinco anos (1920/25) no Brasil a trabalhar na fazenda de um tio em Santa Cruz (Minas Gerais), onde frequentou o liceu de Leopoldina. Depois regressou continuando os seus estudos e formou-se na Universidade de Coimbra, em medicina, onde se fixou exercendo a especialidade de otorrinolaringologia, paralelamente a uma brilhante carreira literária.

QUASE UM POEMA DE AMOR

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem esse humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
-Há muito tempo que não escrevo um poema
De amor.

(In Diário V)

VOZ ACTIVA
Canta, poeta, canta!
Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega
O mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia.

(Diário XIII)






terça-feira, 22 de maio de 2012

DALTON TREVISAN - PRÉMIO CAMÕES 2012

DALTON TREVISAN, recebeu o prémio Camões 2012.
Um dos maiores escritores da actualidade, é considerado pela crítica como «o maior contista moderno do Brasil». É conhecido por ser um autor avesso a entrevistas e fotografias.



Uma Vela para Dario
Dalton Trevisan
Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque. Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos,Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.  Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado. A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede – não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata. Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina;a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las. Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso. Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados – com vários objetos -de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade. Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo – só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão. A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar.Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto. Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva. Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.
Texto extraído do livro “Vinte Contos Menores”, Editora Record – Rio de Janeiro,1979. Este texto faz parte dos 100 melhores contos brasileiros do século, seleção de Ítalo Moriconi para a Editora Objetiva

sexta-feira, 18 de maio de 2012

terça-feira, 15 de maio de 2012

“Precisa-se”


Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.    ( Clarice Lispector )

sábado, 12 de maio de 2012

PARABÉNS MANUEL ALEGRE!

Hoje dia do aniversário do poeta Manuel Alegre, um poema do seu recente novo livro de poemas.

BALADA DOS AFLITOS


Irmãos humanos tão desamparados
A luz que nos guiava já não guia
Somos pessoas – dizeis – e não mercados
Este por certo não é tempo de poesia
Gostaria de vos dar outros recados
Com pão e vinho e menos mais valia.

Irmãos meus que passais um mau bocado
E não tendes sequer a fantasia
De sonhar outro tempo a outro lado
Como António digo adeus a Alexandria
Desconcerto do mundo tão mudado
Tão diferente daquilo que se queria.

Talvez Deus esteja a ser crucificado
Neste reino onde tudo se avalia
Irmãos meus sem valor acrescentado
Rogai por nós Senhora da Agonia
Irmãos meus a quem tudo é recusado
Talvez o poema traga um novo dia

Rogai por nós Senhora dos Aflitos
Em cada dia em terra naufragados
Mão invisível nos tem aqui proscritos
Em nós mesmos perdidos e cercados
Venham por nós os versos nunca escritos
Irmãos humanos que não sois mercados.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MORREU O PINISTA E COMPOSITOR BERNARDO SASSETTI - INQUALIFICÁVEL TRISTEZA!

Morreu Bernardo Sassetti, confirmou ao DN fonte da sua editora, a Clean Feed. Segundo a mesma fonte o pianista caiu de uma falésia no Guincho. Por motivos de saúde, Sassetti cancelou recentemente um espectáculo na Culturgest. Em novembro de 1997 gravou "What Love is", acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Londres e tendo como convidado especial Sting. Bernardo Sassetti era casado com a atriz Beatriz Batarda de quem teve duas filhas. Era bisneto de Sidónio Pais, Presidente da I República. O pianista foi um dos músicos mais ativos a compor música para a sétima arte em Portugal, sendo da sua autoria bandas sonoras de filmes como Alice, de Marcos Martins, Um Amor de Perdição, de Mário Barroso, ou Second Life, de Alexandre Valente. Enquanto viveu em Londres participou também na longa-metragem O Talentoso Mr. Ripley, de Anthony Minghella.



quarta-feira, 9 de maio de 2012

APESAR DA CRISE MAIS UM TRADICIONAL CORTEJO ACADÉMICO!

A crise e o desemprego foram as tónicas das mensagens deixadas pelos estudantes universitários, muitos deles finalizando os seus cursos para enfrentarem o desemprego ou então emigrarem como o Primeiro Ministro sugere. Depois da sigla «DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA»  a sigla actual é «ADEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA».




segunda-feira, 7 de maio de 2012

O QUE VI RECENTEMENTE NO CINEMA!

A programação deixa muito a desejar, mas não me divorcio do prazer de ver cinema, vendo algum que passa mais marginal!

TERRA DE SANGUE E MEL

Filme de estreia de Angelina Jolie como realizadora, interpretado por Zana Marjanovic, Goran Kostic e Rade Serbedzija.


Se a Angelina Jolie, não fosse a Angelina Jolie…uma estrela numa passadeira vermelha, uma figura presente nas revistas cor-de-rosa, o filme não passaria pelas salas
internacionais, mas avaliando os filmes que há para consumir e deitar fora, ainda bem que este chegou.
Podendo torcer-se o nariz a um filme-denúncia, realizado por Angelina Jolie, apesar do seu envolvimento em variadas causas, vê-se um trabalho não brilhante, mas honesto e bem intencionado.
«Na Terra de Sangue e de Mel», são mostradas as atrocidades do genocídio, os campos de concentração, as violações de mulheres em massa, a limpeza étnica e ineficiência americana para lidar com um massacre bárbaro que poucos acreditavam que pudesse acontecer tão perto, no tempo e na geografia: a sangrenta guerra na ex-Jugoslávia, nos anos 90. Angelina usa o expediente óbvio, de dois amantes separados pelas barricadas do conflito, ele oficial sérvio, e ela uma bósnia pintora e muçulmana, que se reencontram em plena barbárie. Ela e outras mulheres jovens e bonitas são escolhidas para serem escravas de cozinha e da cama dos militares. O Sérvio tenta protege-la, mas há ali uma ambiguidade que o argumento não soube explorar. O romance é insípido. 

EXÓTICO HOTEL MARYGOLD


 De John Madden

 


Judi Dench, Tom Wilkinson, Bill Nighy ou Maggie Smith são alguns dos nomes de um elenco de qualidade inquestionável, aos quais se junta a irreverência e fluidez de Dev Patel. Quase na totalidade rodado na Índia, o filme acompanha as peripécias de um grupo de "seniores" ingleses que procura naquele país exótico uma lufada de ar fresco para as suas vidas. 
Atraídos pela ilusão de um espaço mágico e relaxante, o primeiro contacto com as pessoas locais e com o Hotel que dá nome ao filme estará longe de ser o mais agradável.

Mais do que o retrato de um país diferente, o filme preocupa-se, acima de tudo, em demonstrar que há verdadeiramente algo que apenas a maturidade permite alcançar. Na vida destas 7 pessoas, cada um com o seu passado e com o seu presente, será difícil não reflectirmos sobre os receios, sonhos e desgostos, acumulados ao longo de uma vida inteira.

Filme recheado de subtilezas, encantos, falsas moralidades e auto-críticas, ao qual Madden transmite autenticidade e naturalidade.


Amigos Improváveis 

Realizado por: Olivier Nakache e Eric Toledano. 

Philippe (François Cluzet), é um aristocrata francês de meia-idade, que sofreu um acidente de parapente, que o deixou tetraplégico e decide contratar alguém que o apoie nas suas rotinas diárias. Para tal, entre muitos candidatos, contrata Driss (Omar Sy), um jovem senegalês de um bairro problemático, recém-saído da prisão. Driss é, segundo todas as aparências, alguém totalmente inadequado à função, porém Philippe, estabelece com ele um vínculo imediato e contrata-o. Assim, aqueles dois homens com vidas tão díspares vão encontrar coisas em comum que ninguém julgaria possíveis, nascendo entre eles uma amizade que, apesar de improvável, se tornará mais profunda a cada dia. Partilhando, experiências e saberes, vão ter para as suas vidas individuais uma outra perspetiva.


Amigos Improváveis - Trailer Legendado