A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




segunda-feira, 26 de março de 2012

"O ponto de encontro entre a criação artística e a vida vivida talvez esteja naquele espaço privilegiado que é o sonho".


ANTÓNIO TABUCCHI (1943-2012)
 
A Vida não Está por Ordem Alfabética

A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga­lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e continuas à nora, insistes no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado... até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas. 

António Tabucchi, in 'Tristano Morre'

sexta-feira, 23 de março de 2012

poupe-se em tudo menos na poesia



SUBIDAS

Subir uma montanha é ficar ainda sobre a terra
ascender a altos cumes é um movimento ainda horizontal.
Subidas verdadeiras são as feitas sem dar passos
em que a ascensão é como uma paragem que se eleva.

E no entanto os montes pedem outra respiração
aproximam quem caminha a um ponto de silêncio
às paisagens nuas que os humanos não dominam.

Ai, nas altitudes onde o vento é sempre novo,
também os corações pressentem a vertigem
de algo que se abre, a realidade original.

Por isso os alpinistas, os esforços de ascensão
ao lugar dos cimos, das giestas e das águias,
lugar das fontes vivas e dos cedros quase eternos.

Porém uma montanha é apenas superfície
ninguém se eleva mais que o lugar dos próprios pés
ninguém pode ir mais longe que a moldura do seu corpo.

Só o desejo impele infinito a outra subida
uma subida a um rosto, a um corpo que se ama
e essa é a montanha, o amor, a sarça, o Deus.

Carlos Poças Falcão

quarta-feira, 21 de março de 2012

e a Primavera vestiu a cidade...

Estátua República - Jardim na Pr da República - Porto

terça-feira, 20 de março de 2012

Conspiração dentro de casa

E se o seu frigorífico informasse a Mossad que você faz jejum no Ramadão e a sua dentadura alertasse os serviços secretos iranianos de que só come produtos "kosher"? O Admirável Mundo Novo, o de Huxley e o de Orwell juntos, demorou mais uns anos que o previsto mas parece que finalmente está aí, à nossa porta.
O "Público online", que dá a notícia, chama-lhe Internet das Coisas, anunciando "um mundo em que os electrodomésticos que usamos, as roupas que vestimos, os talheres com que comemos e tudo o resto (...) pode ser localizado, monitorizado e controlado" para passar a espiar-nos.
O director da CIA, David Petraeus, não esconde o entusiasmo: "Na prática, estas tecnologias [designadamente o "cloud computing" ] podem levar a uma rápida integração de dados de sociedades fechadas e permitir uma constante monitorização de praticamente qualquer coisa (...) Os dados estão em todo o lado. Todo e qualquer byte revela informação sobre localização, hábitos e, por extrapolação, intenções e prováveis comportamentos".
Aconselha a prudência que levemos a sério a lei de Murphy segundo a qual, se uma desgraça pode acontecer, o mais certo é que aconteça. Mas até para quem, como eu, já desconfiava da câmara que veio com o computador e do aparelho de TV, é duro ter que passar a olhar de soslaio para a própria roupa interior. É melhor nem imaginar o que a nossa roupa interior terá a dizer sobre nós ao general Petraeus.

Manuel António Pina - JN- 20.03.2012

domingo, 18 de março de 2012

ANIMU


Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
-- Fernando Pessoa

 Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
-- Fernando Pessoa



quinta-feira, 15 de março de 2012

Há palavras que nos beijam





Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neil

 fotos: google

segunda-feira, 12 de março de 2012

«NÃO SEI VIVER!»




O filme «Florbela» foca os últimos anos do poeta (1925-1930), quando já não tem inspiração para escrever poesia e debalde tenta escrever com desespero e muita inquietação.
Nessa altura Florbela está no seu terceiro casamento, completamente falhado e ela tem consciência que não é capaz de amar e promete que vai ser uma boa mulher, mas não consegue, em si vive um grande desassossego. No filme não há qualquer abordagem aos seus poemas, ela apenas cita: Eu sou a que no mundo anda perdida/ Eu sou a que na vida não tem norte,  …/…
A única pessoa que a anima e ama acima de tudo é o seu irmão Apeles, existindo entre os dois uma cumplicidade muito especial, mas Apeles morre de acidente de avião em 1927. Isso representa para Florbela uma dor de que nunca mais se recuperou. Tenta por duas vezes o suicídio em Outubro e Novembro de 1930 e em Dezembro de 1930, no dia do seu 36º aniversário, a 8 de Dezembro, a sobredose de barbitúricos foi fatal.
Não tenhas medo, não! Tranquilamente,//Como adormece a noite pelo outono,//Fecha os olhos, simples, docemente,//Como à tarde uma pomba que tem sono...
Sobre o filme, tem uma realização interessante: fotografia, reconstituição de época, elenco, banda sonora o que me parece mais desinteressante é o diálogo que considero fraco. Não é um grande filme, falta-lhe audácia, falta-lhe interioridade, mas é um filme que eu iria sempre ver, porque é sobre um dos poetas que admiro incondicionalmente.

Eu sou a que no mundo anda perdida
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte

Sou a crucificada ... a dolorida ...
.

Sombra de névoa tênue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

.

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

.

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

.

sexta-feira, 9 de março de 2012

"Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no facto de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões." Bertrand Russell


Nas minhas deambulações pelo Porto, encontrei uma placa numa casa antiga onde se alojou o Grupo Nova Renascença, que editou a revista Águia (1910-1932), de literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social. De imediato me lembrei de Teixeira de Pascoaes, poeta que por circunstâncias especiais eu li muito cedo. Geralmente começa-se a ler os livros que existem em casa e de Pascoaes havia quase tudo. Pela pessoa que sou corre em mim muito de Pascoaes. Teixeira de Pascoaes, foi o vulto máximo e teorizador do saudosismo metafísico e consequentemente do grupo e da revista. 

A Águia teve grande impacto estético e ideológico e congregou sobre um ideal comum, diferentes tendências. Por lá deixaram trabalhos: António Carneiro, Leonardo Coimbra, Hernâni Cidade, Casais Monteiro, Sant’Anna Dionísio, Afonso Lopes Vieira, Jaime Cortesão, entre muitos outros.

Fiquei a contemplar a placa e a fazer as minhas congeminações, lamentando que não existam grupos actuantes de intelectuais, que se debrucem sobre os problemas que vivemos, não apenas aves de maus agoiros! Que não existam ideias, nem ideais! Que ande tudo tão adormecido,  indiferente, desiludido e absolutamente embrutecido ou sei lá o quê, pela crise que estamos a passar! 

quarta-feira, 7 de março de 2012

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Várias lutas em épocas diferentes, foram protagonizadas por mulheres em defesa dos seus direitos. Muitas intervenientes se destacam, mas vou lembrar Olympe de Gouges (1748-1793).
De família pequena burguesa, semi-analfabeta, distingue-se como feminista, revolucionária, jornalista, escritora e autora de peças de teatro.
Casou, teve um filho e logo enviuvou. Nessa altura deixou Montauban, próximo de Toulouse e foi para Paris.
Defendeu diferentes causas: o problema dos filhos ilegítimos, a situação dos escravos, o direito ao divórcio, as relações sexuais fora do casamento, entre outros.
Em 1789 ocorreu a Revolução Francesa, em que participou com destemor e alegria, mas logo se desencantou com a fraternité, que não incluía as mulheres no que se refere a igualdade de direitos.
Em 1791 ingressou no Cercle Social,  uma associação cujo objectivo principal, era a luta pela igualdade dos direitos políticos e legais para as mulheres. Reunia-se na casa da conhecida defensora dos direitos das mulheres, Sophie de Condorcet. 
No mesmo ano, em resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, ela escreveu a Declaração dos Direitos da mulher e da Cidadã. Depois, escreveu o Contrato Social, nome inspirado na famosa obra de Jean-Jacques Rousseau, propondo o casamento com relações de igualdade entre os parceiros.
Por ser contra a pena de morte, insurgiu-se com a condenação à morte de Luís XVI e Maria Antonieta e passou a intervir mais politicamente. Em 1793 é presa e nesse mesmo ano é guilhotinada.

segunda-feira, 5 de março de 2012

DESANUVIAR NA CANTAREIRA!

Cantareira é uma antiga zona portuária da cidade do Porto. Noutros tempos foi local de construção e reparação de embarcações de madeira. Hoje é um pequeno cais de pesca, muito artesanal e um local típico, onde gosto de passear. Para desanuviar andei por lá a pé e bati algumas fotografias!















A NÓDOA NA PAISAGEM, SÃO AS PESSOAS QUE APESAR DA EXISTÊNCIA DE MUITOS CONTENTORES  E ECOPONTOS DE RECICLAGEM DE LIXO, AINDA CONTINUEM A DEITAR O LIXO PARA O RIO DOURO!

quinta-feira, 1 de março de 2012

HOMENAGEM A SÉRGIO DE CARVALHO (MEU SOBRINHO E AFILHADO)





Foi no fim do mês de Março, do ano passado que o imprevisível aconteceu e no entanto houve sinais, que não deixaram de sobressaltar e de criar um clima incomodativo! Todos andavam preocupados, pedindo que se tratasse e uma hospitalização estaria para breve...mas ninguém se apercebeu que um dia de manhã bem cedo a ideia que andava a cismar há uns tempos, fosse concretizada da forma mais violenta...a esperança na vida tinha-se esgotado, a convicção de encontrar a paz foi determinante!...

OS SEUS TRABALHOS PODEM SER VISTOS EM: 

UM DOS SEUS TRABALHOS