A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




domingo, 28 de abril de 2013

PABLO NERUDA


Pablo Neruda nasceu em Parral, em 12 de julho de 1904, como Neftalí Ricardo Reyes Basoalto. Era filho de José del Carmen Reyes Morales, um operário ferroviário, e de Rosa Basoalto Opazo, professora primária, que morreu quando Neruda tinha apenas um mês de vida. Ainda adolescente adotou o pseudónimo de Pablo Neruda (inspirado no escritor checo Jan Neruda), que utilizaria durante toda a vida, tornando-se seu nome legal, após acção de modificação do nome civil.

Durante as eleições presidenciais do Chile nos anos 70, Neruda abriu mão de sua candidatura para que Allende vencesse, pois ambos eram marxistas e acreditavam numa América Latina mais justa o que, a seu ver, poderia ocorrer com o socialismo. De acordo com Isabel Allende, no seu livro Paula, Neruda teria morrido de "tristeza" em setembro de 1973, ao ver dissolvido o governo de Allende. A versão do regime militar do ditador Augusto Pinochet é a de que ele teria morrido devido a um cancro na próstata. No entanto, fontes próximas, como o motorista e ajudante do poeta na época,  afirmam com insistência que o poeta teria sido assassinado. Em Fevereiro de 2013, um juiz chileno ordenou a exumação do corpo do poeta, no âmbito de uma investigação sobre as circunstâncias da morte.Encontra-se sepultado na sua propriedade particular em, Isla Negra Santiago, no Chile. Os restos mortais do poeta foram exumados a 08 de abril de 2013 para esclarecer as circunstâncias da sua morte. Segundo a versão oficial, morreu de um agravamento do cancro da próstata a 23 de setembro de 1973, 12 dias depois do golpe de estado perpetrado contra o seu amigo e presidente socialista Salvador Allende. Mas testemunhos recentes puseram em causa essa versão e evocaram um assassinato comandado pela ditadura, para evitar que Neruda se tornasse um opositor de prestígio, eventualmente a partir do exílio

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO...MAS O POVO ESTÁ MUITO FODIDO!!!

O 25 de Abril hoje, é a recordação de uma alegria profunda de quem o viveu passo a passo, com uma euforia plena e partilhada pelas ruas, entre todos!
Hoje os pressupostos são diferentes, a ditadura hoje é económica e globalizada, e ainda orquestrada por políticos sem qualidade, autênticas marionetas servis aos poderes superiores, com a contrapartida de terem uma margem muito substancial de ganhos favoráveis ao seu amor pela «pátria»!


quarta-feira, 17 de abril de 2013

OS TEMPOS QUE CORREM| A amargura de Maria do Céu Guerra:

"Não sei se este é o meu último espectáculo.
A amargura com que vou estrear este belo texto de Nascimento Rosa – nonagésima produção da Barraca no seu trigésimo sétimo ano de trabalho ininterrupto – não é suportável nem admissível.
Nenhum governo tem o direito de ser tão desproporcionado nas suas medidas e tão arbitrário nos seus fundamentos.
Depois do nosso trabalho ter viajado no País, na Europa e fora dela recolhendo distinções especiais e um carinho que estes funcionários de quem depende a sobrevivência de companhias como esta estão longe de saber o que é
Vemos que os Comissários de Cultura que gastam na administração dos seus sumptuários gabinetes ,nas consultas jurídicas que lhes respaldem os embustes e nas embaixadas milionárias em que transportam coisa nenhuma, a grande parte do orçamento que têm para administrar e fomentar a Criação Artística, aguardam ansiosos que A Barraca dê o seu último suspiro.
Estamos num país de Inveja e Histórica Mediocridade. Por que razão seria agora diferente? Desviam-se os olhos do vizinho que jaz no passeio , na pressa com que estamos de chegar ao conforto do lar.
Como disse Sttau Monteiro “ um país onde se cortam as árvores para que não façam sombra aos arbustos”.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Para que a memória não se apague …


Obviamente a memória dos Homens é curta, sobretudo para os alemães mais jovens e políticos intelectualmente débeis e mentecaptos.
Hoje parece que estamos, de novo, a voltar ao espírito da máxima “Deutschland über alles!” bem inculcado ainda em boa parte dos alemães. Oxalá não seja mau presságio…

Fez 60 anos - Acordo de Londres sobre as Dívidas Alemãs | Entre os países que perdoaram 50% da dívida alemã estão a Espanha, Grécia e Irlanda.
O Acordo de Londres de 1953 sobre a divida alemã foi assinado em 27 de Fevereiro, depois de duras negociações com representantes de 26 países, com especial relevância para os EUA, Holanda, Reino Unido e Suíça, onde estava concentrada a parte essencial da dívida.

A dívida total foi avaliada em 32 biliões de marcos, repartindo-se em partes iguais em dívida originada antes e após a II Guerra.Os EUA começaram por propor o perdão da dívida contraída após a II Guerra. Mas, perante a recusa dos outros credores, chegou-se a um compromisso. Foi perdoada cerca de 50% (Entre os países que perdoaram a dívida estão a Espanha, Grécia e Irlanda) da dívida e feito o reescalonamento da dívida restante para um período de 30 anos. Para uma parte da dívida este período foi ainda mais alongado. E só em Outubro de 1990, dois dias depois da reunificação, o Governo emitiu obrigações para pagar a dívida contraída nos anos 1920.

O acordo de pagamento visou, não o curto prazo, mas antes procurou assegurar o crescimento económico do devedor e a sua capacidade efectiva de pagamento.

O acordo adoptou três princípios fundamentais:
1. Perdão/redução substancial da dívida;
2. Reescalonamento do prazo da divida para um prazo longo;
3. Condicionamento das prestações à capacidade de pagamento do devedor.

O pagamento devido em cada ano não pode exceder a capacidade da economia. Em caso de dificuldades, foi prevista a possibilidade de suspensão e de renegociação dos pagamentos. O valor dos montantes afectos ao serviço da dívida não poderia ser superior a 5% do valor das exportações. As taxas de juro foram moderadas, variando entre 0 e 5 %.

A grande preocupação foi gerar excedentes para possibilitar os pagamentos sem reduzir o consumo. Como ponto de partida, foi considerado inaceitável reduzir o consumo para pagar a dívida.

O pagamento foi escalonado entre 1953 e 1983. Entre 1953 e 1958 foi concedida a situação de carência durante a qual só se pagaram juros.

Outra característica especial do acordo de Londres de 1953, que não encontramos nos acordos de hoje, é que no acordo de Londres eram impostas também condições aos credores - e não só aos países endividados. Os países credores, obrigavam-se, na época, a garantir de forma duradoura, a capacidade negociadora e a fluidez económica da Alemanha.

Uma parte fundamental deste acordo foi que o pagamento da dívida deveria ser feito somente com o superavit da balança comercial. 0 que, "trocando por miúdos", significava que a RFA só era obrigada a pagar o serviço da dívida quando conseguisse um saldo de divisas através de um excedente na exportação, pelo que o Governo alemão não precisava de utilizar as suas reservas cambiais.

EM CONTRAPARTIDA, os credores obrigavam-se também a permitir um superavit na balança comercial com a RFA - concedendo à Alemanha o direito de, segundo as suas necessidades, levantar barreiras unilaterais às importações que a prejudicassem.

Hoje, pelo contrário, os países do Sul são obrigados a pagar o serviço da dívida sem que seja levado em conta o défice crónico das suas balanças comerciais 

Marcos Romão, jornalista e sociólogo

segunda-feira, 15 de abril de 2013

domingo, 31 de março de 2013

Exposição de Graça Morais – Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva


Uma denúncia e uma reflexão sobre o tempo que vivemos, sob o signo do medo!
A MARCHA DO MUNDO, OS CONFLITOS, AS GUERRAS, A POBREZA, A CRISE ECONÓMICA.

«É preciso pensar o que está a acontecer!
Não posso ficar calada. Como é possível fazer uma pintura decorativa que ignore o que está a acontecer?
As leis que são feitas são de uma grande desumanidade e insensibilidade social, há muitas pessoas a sofrer. Revolta-me que tantos seres humanos sejam desprotegidos e desamparados. Não posso ficar calada! Todos estamos a sofrer uma grande injustiça, que se reflecte no nosso dia-a-dia,. É preciso ver o que se está a passar com tanta gente desempregada, com tantos deprimidos.
As mulheres são sempre as maiores vítimas, particularmente em tempos de crise e numa situação de grande desemprego.
São o elo mais fraco, que sofrem a violência psíquica e física. Basta ler os jornais. Ando mesmo impressionada com o número de mulheres que se suicidam e antes matam os filhos. Desempregadas, desesperadas e abandonadas pela sociedade, sem perspectivas, há uma carga imensa sobre esta espécie de «Medeias», que não querem deixar os seus filhos nesta desgraça. É uma tragédia para a própria Humanidade e é preciso que as pessoas pensem no que está a acontecer».

sexta-feira, 29 de março de 2013

sexta-feira, 22 de março de 2013

Caminhos



Para quê, caminhos do mundo, 
Me atraís? — Se eu sei bem já 
Que voltarei donde parto, 
Por qualquer lado que vá. 

Pra quê? — Se a Terra é redonda; 
E, sempre, tem de cumprir-se 
A sina daquela onda 
Que parece vai sumir-se, 

Mas que volta, bem mais débil, 
Ao meio do lago, onde 
A mãe, gota d'água flébil, 
Há muito tempo se esconde. 

Pra quê? — Se a folha viçosa 
Na Primavera, feliz, 
Amanhã será, gostosa, 
Alimento da raiz. 

Pra quê, caminhos do mundo? 
Pra quê, andanças sem Fim? 
Se todo o sonho profundo 
Deste Mundo e do Outro-Mundo, 
Não 'stá neles, mas em mim. 

Francisco Bugalho, in "Paisagem"

quinta-feira, 21 de março de 2013

SAUDEMOS A PRIMAVERA!



DANZA - BOUCHER
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1
", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

sexta-feira, 8 de março de 2013

8 DE MARÇO...

8 de Março no dia da mulher, que são todos os dias, vem ao meu pensamento as notícias diárias de violência contra as mulheres, violência até num sentido lacto, física e psicológica. É difícil ser mulher e em muitos países é até muito difícil!

"Tesouro, presa, jogo e risco, musa, guia, juiz, mediadora, espelho, a mulher é o Outro em que o sujeito se supera sem ser limitado, que a ele se opõe sem o negar. Ela é o Outro que se deixa anexar sem deixar de ser o Outro. E, desse modo, ela é tão necessária à alegria do homem e ao seu triunfo, que se pode dizer que, se ela não existisse, os homens a teriam inventado."
Simone de Beauvoir in "O segundo sexo"

quarta-feira, 6 de março de 2013

"Um homem desejoso de trabalhar, e que não consegue encontrar trabalho, talvez seja o espectáculo mais triste que a desigualdade ostenta ao cimo da terra." - Carlyle


"Eu sou um homem só, um único inferno." Quasimodo , Salvatore



Quantos de nós não ansiámos deixar de trabalhar, com a ideia que íamos ter mais tempo, para isto e para aquilo! O sabor dessa liberdade pode durar um ano, dois, até mais, mas depois procurarmos fazer coisas, ter horários, dar valor à permanência na vida! Procuramos fazer cursos diversificados, voluntariado, pintamos, escrevemos, enfiamo-nos no ginásio, porque dificilmente se poderá arranjar um trabalho para depois, que nos dê, uma utilidade social, paralela a todos os trabalhos que na nossa área privada temos que despender. A reforma por questões várias, motivadas pelas políticas, colocaram-nos incapazes cedo demais, quando inda nos consideramos muito capazes de fazer alguma coisa! O trabalho é algo intrínseco ao homem, seja ele qual for e os aspectos lúdicos crescem de prazer, quando são um intervalo do trabalho!
Sempre foi falsa e de cariz arbitrário, a ideia, que as pessoas não gostam de trabalhar! Hoje vemos como tanta gente se desespera, porque não consegue encetar a sua vida profissional ou então está no desemprego e anda à deriva, o trabalho seja ele qual for é um enriquecimento de todas as formas, só ele nos pode dar realização, liberdade e independência! Esta é uma opinião pessoal, outros pensarão o contrário, mas fui consultar citações sobre o trabalho, que se coadunam com o que penso.

"O trabalho é desejável, primeiro e antes de tudo como um preventivo contra o aborrecimento, pois o aborrecimento que um homem sente ao executar um trabalho necessário embora monótono, não se compara ao que sente quando nada tem que fazer."- Russell , Bertrand

"O trabalho é a melhor das regularidades e a pior das intermitências." - Hugo  Victor

 "Não posso imaginar que uma vida sem trabalho seja capaz de trazer qualquer espécie de conforto. A imaginação criadora e o trabalho para mim andam de mãos dadas; não retiro prazer de nenhuma outra coisa." - Freud , Sigmund

"Não me lembro de alguma vez me ter cansado a trabalhar, mas o ócio deixa-me completamente exausto." - Doyle , Arthur Conan





quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

E ETC, ETC...


As crónicas de Gonçalo Tavares, para mim são sempre imperdíveis!
EXCERTO:
-Excelência, gostaria de fazer-lhe umas perguntas rápidas. Aqui vão duas: qual a unidade de medida do cheiro? Qual a unidade de medida da visão?
-Como? Perguntas difíceis! Então de outra forma: Será que eu vejo em…gramas ou em…litros? Parece disparatado…mas talvez não seja!
-Claro que não! Excelência vê formas? Funções? Cores?
-Basta. Eu vejo tudo ao mesmo tempo: forma, cor, função e etc!
-E etc? Também vê isso?
-Sim sou um dos melhores observadores do etc!
-Muito bom Excelência! Isso é que é uma grande capacidade de observação!
-Etc, etc… Ou seja: e não só!
( NÃO É DIRIGIDA A NINGUÉM EM CONCRETO, EU PENSEI NO GASPAR, MAS HÁ VÁRIOS SABEDORES DO ETC...)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

DO LIXO: IDEIA AVULSA PARA DESOBEDECER COM CIVILIDADE ( via André Gago)

Fomos treinados para reciclar o nosso lixo urbano para salvar o planeta. Pagamos taxas municipais para a recolha do lixo. A separação do lixo é mão-de-obra gratuita que oferecemos às empresas que exploram o nosso lixo. Há gente que perdeu tudo e que procura, no nosso lixo, recursos para sobreviver. As empresas do sector sofrem com as perdas dessa procura e pedem coimas para os infractores. Conclusão: não salvamos o planeta, trabalhamos de borla para catadores de lixo engravatados, criamos um novo tipo de crime de “roubo” (do nosso lixo...) para os catadores sem gravata, e ainda pagamos para isso. Logo, deixar de separar o lixo em casa é repor a cadeia de valores: voltamos a produzir lixo indiferenciado (até podemos separar lixo para dar a quem precisa — ideia miserável, mas infinitamente mais justa do que a propugnada pelos catadores de lixo engravatados), e as empresas que exploram o nosso lixo que façam a triagem. Talvez criemos postos de trabalho, e continuamos a pagar as taxas municipais para recolha do lixo geral, que deixam assim de beneficiar um negócio privado. Os municípios passam a enviar um relatório & contas anual aos munícipes dos valores do negócio. E o tal “salvar o planeta”, hoje tão fora de moda (substituído rapidamente pelo “salve-se quem puder” e pelo “ricos, mulheres e crianças primeiro”, por esta ordem), fica na mesma. Até nos apresentarem uma ideia melhor, a ver se a gente topa.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Amor é Mais Forte


Os amantes de hoje preferem a droga mais leve, o tabaco mais light ou o café descafeinado. Já ninguém quer ficar pedrado de amor ou sofrer de uma overdose de paixão. As emoções fortes são fracas e as próprias fraquezas revelam-se mais fortes. Os amantes, esses, são igualmente namorados da monotonia e amigos íntimos da disciplina. O que está fora de controlo causa-lhes confusão, e afecta-lhes uma certa zona do cérebro, mas quase nunca lhes toca o coração. O amor devia ser sonhado e devia fazê-los voar; em vez disso é planeado, e quanto muito, fá-los pensar. 
Sobre o amor não se tem controlo. É um sentimento que nos domina, que nos sufoca e que nos mata. Depois dá-nos um pouco vida. No amor queremos viver, mas pouco nos importa morrer e estamos sempre dispostos a ir mais além. Deixamo-nos cair em tentação, e não nos livramos do mal, embora procuremos o bem. No amor também se tem fé, mas não se conhecem orações: amamos porque cremos, porque desejamos e porque sabemos que o amor existe. Amamos sem saber se somos amados, e por isso podemos acabar desolados, isolados e deprimidos. Que se lixe! O amor não é justo, não é perfeito; no amor não se declaram sentenças nem se proferem comunicados. O amor prefere ser imprevisível, cheio de riscos e de fogo cruzado. No amor os braços não se cruzam, as palavras não se gastam e os gestos servem para o demonstrar. Amar também é lutar, e enfrentar monstros fabulosos com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão. É uma ilusão, um sonho, um absurdo e uma fantasia. O amor não se entende, não se interpreta, não se discerne nem se traduz. Quem ama acredita, mas não sabe bem porquê, não sabe bem o quê, nem percebe bem como. 

Rogério Fernandes, in 'Alterne Activo'

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

BOM CARNAVAL!!

PIERRE BERGAIGNE

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Memórias de uma aula no Liceu de Setúbal Barreiro, 4 de Outubro de 1967


Continua o desassossego, com o pessoal a trocar beijos, abraços e
confidências, depois desta longa separação que foram 3 meses e meio de
férias. Estávamos todos fartos do verão, com saudades uns dos outros.
A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar e cheirava a nova, tudo
encerado e polido, apesar do material já ser mais do que velho.

Somos o 7.º A e como não chumbou nem veio ninguém de novo, a pauta é
exactamente igual à do ano passado. Eu sou o n.º 34, e fico sentada na
segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é o lugar dos mais
altos.

Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos
um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal,
dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política.
Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e
contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente
uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não
sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês
contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo
revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz
que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser
comunista.

Diferente dos outros professores, é de certeza.

Quando entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no
limite da falta. Entrou por ali dentro, todo despenteado, com uma
gabardine na mão e enquanto a atirava para cima da secretária,
perguntou-nos:

- Vocês são o 7.º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui
parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também
não vos vou chatear


Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada
com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as
primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam
a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que
já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o
rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes
não sejam um modelo de perfeição e é bem parecido, digamos que um
homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter
uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho.

Depois das primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro
de ponto, rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos,
em
silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala,
impecavelmente limpas.

Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar
uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo
conjecturas. Às tantas, o bichanar foi subindo de tom e já era uma
algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer
professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas
ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se
importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto
esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se,
efectivamente, evadido da sala.

Quando recomeçou a falar connosco, em pé, em cima do estrado, já tinha
ganho o primeiro round de simpatia.
Depois, veio o mais surpreendente:

- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo
dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano
passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.
Gargalhada geral.

- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas
disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não
tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma
matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui
desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em
palhaçadas.
Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele
ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto,
calmo, simpático.

- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas
absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem
interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.


Começámos a olhar uns para outros, espantados; nunca na vida nos tinha
passado pela frente um professor com tamanha ousadia.

- Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse,
como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de
pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de
falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que
nos governa é uma ditadura desumana e cruel.

Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o
sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e
nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que
ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as
devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se
sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo
branco, que se sente mas não se apalpa.

- Repito: eu não percebo nada desta disciplina que vos venho
leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria.
Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque,
no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7.º
ano e poderem entrar na Faculdade. Isso, vocês tem que fazer. Estudar.
Para serem homens e mulheres cultos para poderem combater, cada um
onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria
e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que
lutar por um novo país.

Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha,
basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale
nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida,
mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral.

Vão ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste,
que nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão,
educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os
privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei.
Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela
nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país,
carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou
abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou
ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses
de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e
cultural.

Outra coisa: vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm
que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do
vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma
falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem
os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é
com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem
trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que
devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim
porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas.
Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais
velhos, em qualquer quadrante da sociedade.

Nós temos sempre que mostrar o que somos, temos que ser dignos
connosco para sermos dignos com os outros. Por isso, acho que não
devem copiar. Há que criar princípios de honestidade e isso começa em
vocês, os futuros homens e mulheres de Portugal. Não concordam?

Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.
Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que
fenómeno é este que aterrou em Setúbal?
Já me esquecia de escrever. Esta ave rara, o nosso professor de
Organização Política, chama-se Zeca Afonso.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Ryan Hreljac

Obviamente que este miúdo inspira uma grande admiração, faz a diferença, faz parte de uma minoria que se interessa realmente pelos outros.
Por outro lado ao verso intromete-se o reverso. Olhando para África, vê-se uma série de governantes que sacaneiam os seus próprios irmãos, com uma sede desmedida de ambição! Os que realmente têm poder e meios para atenuar as condições de vida dos seus semelhantes! Infelizmente estes gestos, não os fazem repensar nos seus actos!





sábado, 9 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

REFLEXÃO!

Fernando Pessoa



"Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta."

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

BAREFOOTCOLLEGE




Em Titonia, fica a Universidade do Pé Descalço, Barefoot College, fundada por Sanjit «Bunker» Roy. A história de Barefoot College, é das mais poderosas, em inovação e criatividade. Desfaz a ideia de que a crise se resolve apenas de cima para baixo. Fundado em 1972, é um dos maiores centros de pesquisa, inovação e educação no trabalho com a pobreza. Roy tem sido premiado por todo o lado e é considerado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, pela revista «Time».
Roy é oriundo de uma família abastada, mas quando acabou os estudos quis ir viver para uma aldeia e ver como aí as coisas se organizavam, assim como partilhar a pobreza e a sapiência dos aldeões, porque acreditava, que com todos se pode aprender, todas as pessoas são obrigadas a saber coisas para sobreviver. Decidiu viver com eles, na privação e na frugalidade, seguindo a tradição da doutrina de Mahatma Gandhi.
O Barefoot College já formou mais de três milhões de pessoas, nas mais diversas áreas, todos os graduados eram analfabetos ou semianalfabetos e uma grande parte são mulheres oprimidas numa sociedade de pobreza. Muitas dessas mulheres são hoje, nas diversas comunidades, líderes de projetos. Criaram sistemas de energia solar onde não havia eletricidade, construíram sistemas de rega, de alimentação, assim como, casas e escolas.
No Barefoot College, o ensino tem por base o conhecimento através da experiência, uma transmissão direta e oral de capacidades, para desempenhar tarefas. Um saber casuístico, nascido da necessidade e da privação, extraordinariamente imaginativo e criativo
Esta criatividade permite aos pobres identificarem, analisarem e resolverem os seus problemas com um pequeno empurrão educacional e mínimos custos.
O BC é autónomo, não depende de nada nem de ninguém, é autossustentado.
Também para as crianças tem um programa noturno de escolaridade, porque durante o dia têm que trabalhar, a maior parte guardando gado.
Aqui é contrariada a ideia feita de que os pobres têm de ser virtuosos para serem retirados da pobreza, devendo poupar e gastar sensatamente. Os pobres são pessoas iguais aos ricos, com os mesmos sonhos de uma vida melhor.