A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Confesso que acredito que ninguém está livre de cair numa condição de vagabundo, por tão vagabundos podermos ser, pela força do acaso.



Conclui a leitura de «Viajante Solitário» de Kerouac, gostei de viajar com ele, de barco, de comboio, a pé...pelo México, altas montanhas, Nova Iorque, Marrocos, França, Inglaterra... comendo o pão que o diabo amassou!
Um livro de experiências diferentes, cheio de citações de escritores, músicos, pintores, cinema...que eu conhecia e desconhecia e que também me motivou uma pesquisa pela net.

No capítulo final sobre vagabundos, eu chamar-lhes-ia também vagamundos é citado Serguei Iessiênin e o seu poema:

A confissão de um vagabundo

Nem todos sabem cantar,
Não é dado a todos ser maçã
Para cair aos pés dos outros.

Esta é a maior confissão
Que jamais fez um vagabundo.

Não é à toa que eu ando despenteado,
Cabeça como lâmpada de querosene sobre os ombros.
Me agrada iluminar na escuridão
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento.
Então, limito-me a apertar mais com as mãos
A bolha oscilante dos cabelos.

Como eu me lembro bem então
Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro,
E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mãe,
Que pouco se importam com meus versos,
Que me amam como a um campo, como a um corpo,
Como à chuva que na primavera amolece o capim.
Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos
A cada injúria lançada contra mim.

Pobres, pobres camponeses,
Por certo estão velhos e feios,
E ainda temem a Deus e aos espíritos do pântano.
Ah, se pudessem compreender
Que o seu filho é, em toda a Rússia,
O melhor poeta!
Seus corações não temiam por ele
Quando molhava os pés nos charcos outonais?
Agora ele anda de cartola
E sapatos de verniz.

Mas sobrevive nele o antigo fogo
De aldeão travesso.
A cada vaca, no letreiro dos açougues,
Ele saúda à distância.
E quando cruza com um coche numa praça,
Lembrando o odor de esterco dos campos nativos,
Lhe dá vontade de suster o rabo dos cavalos
Como a cauda de um vestido de noiva.

Amo a terra.
Amo demais minha terra!
Embora a entristeça o mofo dos salgueiros,
Me agradam os focinhos sujos dos porcos
E, no silêncio das noites, a voz alta dos sapos.
Fico doente de ternura com as recordações da infância.
Sonho com a névoa e a humidade das tardes de abril,
Quando o nosso bordo se acocorava
Para aquecer os ossos no ocaso.
Ah, quantos ovos dos ninhos das gralhas,
Trepando nos seus galhos, não roubei!
Será ainda o mesmo, com a copa verde?
Sua casca será rija como antes?

E tu, meu caro
E fiel cachorro malhado?!
A velhice te fez cego e resmungão.
Cauda caída, vagueias no quintal,
Teu faro não distingue o estábulo da casa.
Como recordo as nossas travessuras,
Quando eu furtava o pão de minha mãe
E o mordíamos, um de cada vez,
Sem nojo um do outro.

Sou sempre o mesmo.
Meu coração é sempre o mesmo.
Como as centáureas no trigo, florem no rosto os olhos.
Estendendo as esteiras douradas de meus versos
Quero falar-vos com ternura.

Boa noite!
Boa noite a todos!
Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo...
Eu sinto hoje uma vontade louca
De mijar, da janela, para a lua.

Luz azul, luz tão azul!
Com tanto azul, até morrer é zero.
Que importa que eu tenha o ar de um cínico
Que pendurou uma lanterna no traseiro!
Velho, bravo Pégaso exausto,
De que me serve o teu trote delicado?
Eu vim, um mestre rigoroso,
Para cantar e celebrar os ratos.
Minha cabeça, como agosto,
Verte o vinho espumante dos cabelos.

Eu quero ser a vela amarela

Rumo ao país para o qual navegamos.

domingo, 25 de agosto de 2013

Friedrich Wilhelm Nietzsche (Röcken, 15 de Outubro de 1844 — Weimar, 25 de Agosto de 1900) influente filósofo alemão do século XIX



Cultura
É um fenómeno eterno: a ávida vontade vai sempre encontrar um meio de fixar as suas criaturas na vida através de uma ilusão espalhada sobre as coisas, forçando-as a continuar a viver. Este vê-se amarrado pelo prazer socrático do conhecimento e pela ilusão de poder, através do mesmo, curar a eterna ferida da existência; aquele vê-se envolvido pedo véu sedutor da arte ondeando diante dos seus olhos; aquele, por seu turno, pela consolação metafísica de que sob o remoinho dos fenómenos continua a fluir, impreturbável, a vida eterna: para não falar das ilusões mais comuns, e talvez mais vigorosas, que a vontade tem preparadas em qualquer instante. 
Aqueles três níveis de ilusão destinam-se apenas às naturezas mais nobremente apetrechadas, nas quais a carga e o peso da existência são em geral sentidos com um desagrado mais profundo e que podem ser ilusoriamente desviadas desse desagrado através de estimulantes seleccionados. É nestes estimulantes que consiste tudo o que chamamos cultura. 

Friedrich Nietzsche, in 'O Nascimento da Tragédia'




Ecce Homo
Sim, sei de onde venho! 
Insatisfeito com a labareda 
Ardo para me consumir. 
Aquilo em que toco torna-se luz, 
Carvão aquilo que abandono: 
Sou certamente labareda. 

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

Sabedoria do Mundo
Não fiques em terreno plano. 
Não subas muito alto. 
O mais belo olhar sobre o mundo 
Está a meia encosta. 

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"
O Solitário
Detesto seguir alguém assim como detesto conduzir. 
Obedecer? Não! E governar, nunca! 
Quem não se mete medo não consegue metê-lo a 
          ninguém, 
E só aquele que o inspira pode comandar. 
Já detesto guiar-me a mim próprio! 
Gosto, como os animais das florestas e dos mares, 
De me perder durante um grande pedaço, 
Acocorar-me a sonhar num deserto encantador, 
E forçar-me a regressar de longe aos meus penates, 
Atrair-me a mim próprio... para mim. 

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

sábado, 24 de agosto de 2013

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899 — Genebra, 14 de Junho de 1986) escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.

SouSou o que sabe não ser menos vão 
Que o vão observador que frente ao mudo 
Vidro do espelho segue o mais agudo 
Reflexo ou o corpo do irmão. 
Sou, tácitos amigos, o que sabe 
Que a única vingança ou o perdão 
É o esquecimento. Um deus quis dar então 
Ao ódio humano essa curiosa chave. 
Sou o que, apesar de tão ilustres modos 
De errar, não decifrou o labirinto 
Singular e plural, árduo e distinto, 
Do tempo, que é de um só e é de todos. 
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada 
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada. 

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"



Jorge Luis Borges 
A sua obra abrange o "caos que governa o mundo e o caráter de irrealidade em toda a literatura". Seus livros mais famosos, Ficciones (1944) e O Aleph (1949), são coletâneas de histórias curtas interligadas por temas comuns: sonhos, labirintos, bibliotecas, escritores fictícios e livros fictícios, religião, Deus. Seus trabalhos têm contribuído significativamente para o gênero da literatura fantástica. Estudiosos notaram que a progressiva cegueira de Borges ajudou-o a criar novos símbolos literários através da imaginação, já que "os poetas, como os cegos, podem ver no escuro". Os poemas de seu último período dialogam com vultos culturais como Spinoza, Luís de Camões e Virgílio.
Sua fama internacional foi consolidada na década de 1960. Para homenagear Borges, em O Nome da Rosa, romance de Umberto Eco, há o personagem Jorge de Burgos, que além da semelhança no nome é cego. Além da personagem, a biblioteca que serve como plano de fundo do livro é inspirada no conto de Borges A Biblioteca de Babel  (uma biblioteca universal e infinita que abrange todos os livros do mundo).

"A democracia é um erro estatístico, porque na democracia decide a maioria e a maioria é formada de imbecis"
"Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca"
"Parece-me fácil viver sem ódio. Sem amor, acho impossível."
"De todos os instrumentos do homem, o mais surpreendente é, sem dúvida nenhuma, o livro."
"A única coisa sem mistério é a felicidade porque ela se justifica por si só."
"Não acumules ouro na Terra, porque o ouro é pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio."
"Eu não sei se tem alguém do outro lado da linha, mas ser um agnóstico significa que todas as coisas são possíveis, mesmo Deus. Este mundo é tão estranho, tudo pode acontecer, ou não acontecer. Ser um agnóstico permite-me viver num mundo mais amplo, num tipo mais futurístico de mundo. Faz-me mais tolerante."

PESQUISA: INTERNET



sábado, 17 de agosto de 2013

EIS UM ESCRITOR QUE NÃO SINTONIZA NA ONDA DO POSITIVISMO, QUE PERPASSA POR AQUI E NO ENTANTO É UM ESCRITOR QUE EU ADMIRO. É FRONTAL E SINCERO E HÁ VIDAS E VIDAS!

Henry Charles Bukowski Jr, nascido Heinrich Karl Bukowski Andernach, (16 de Agosto de 1920 – Los Angeles, 9 de Março de 1994) poeta,contista e romancista. A sua obra de carácter rebelde e obsceno, fascinou gerações que buscavam uma obra com a qual se pudessem identificar.




Tenho lido a sua poesia e tb li o seu livro autobiográfico «Pão com Fiambre», onde se debruça sobre os seus primeiros anos, a rejeição dos outros por ser muito feio, a vivência com os pais, as suas bebedeiras. 

Conforme diz:

"Eu não tinha interesses. Eu não tinha interesses por nada. Não fazia a mínima ideia de como iria escapar. Os outros, ao menos, tinham algum gosto pela vida. Pareciam entender algo que me era inacessível. Talvez eu fosse retardado. Era possível. Frequentemente me sentia inferior. Queria apenas encontrar um jeito de me afastar de todo mundo. Mas não havia lugar para ir.






"Talvez a miséria tenha chegado. Não se pode viver da própria alma. Não se pode pagar o aluguer com a alma. Experimente fazer isso um dia. É o início do Declínio e a Queda do Ocidente, como Splenger dizia. Todo mundo é tão ganancioso e decadente, a decomposição realmente começou. Eles matam gente aos milhões nas guerras e dão medalhas por isso. Metade das pessoas deste mundo vai morrer de fome enquanto a gente fica por aí sentado vendo TV."

"Não é morrer que é ruim, é estar perdido que é ruim."

"Às vezes, sinto-me como se estivéssemos todos presos num filme. Sabemos nossas falas, onde caminhar, como actuar, só que não há uma câmara. No entanto, não conseguimos sair do filme. E é um filme ruim."

"O génio talento é a capacidade de dizer coisas profundas de maneira simples."

"Bem, todos morrem um dia, é simples matemática. Nada de novo. A espera é que é um problema."

"Esse é o problema de ser escritor, o problema principal - ócio, ócio demais. A gente tem de esperar que a coisa cresça até poder escrever, e enquanto espera fica doido, e enquanto fica doido bebe, e quanto mais bêbado mais doido fica. Não há nada de glorioso na vida de um escritor nem na vida de um bebedor."

"Pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos."

" As horas são longas e têm de ser preenchidas de algum modo até nossa morte. E simplesmente não há muita glória e sensação para ajudar. Tudo logo se torna chato e mortal. Acordamos pela manhã, jogamos o pé para fora da cama e pensamos 'ah, merda, e agora?'"

"É tão fácil ser poeta, e tão difícil ser homem."




segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, (São Martinho de Anta, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995) um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX.

A obra de Torga tem um carácter humanista: criado nas serras transmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da natureza: sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a Divindade Transcendente a favor da imanência: para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração: (hinos aos deuses, não/os homens é que merecem/que se lhes cante a virtude/bichos que cavam no chão/actuam como parecem/sem um disfarce que os mude).
Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e enquanto ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à natureza, como os trabalhadores rurais transmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras. E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a natureza, malgrado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, para Torga, fazem do homem único ser digno de adoração.
Fonte: Wikipédia


ORFEU REBELDE

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
                                   
Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que ha gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legitima defesa.
Canto, sem perguntar a Musa
Se o canto
É de terror ou de beleza.
Orfeu Rebelde (1958)



quarta-feira, 31 de julho de 2013

Saint-Exupéry (Lyon, 29 de Junho de 1900 - Mar Mediterrâneo, 31 de Julho de 1944)

Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry (Lyon, 29 de Junho de 1900 - Mar Mediterrâneo, 31 de Julho de 1944), escritor,ilustrador e piloto. Filho do conde Jean Saint-Exupéry e da condessa Marie Foscolombe.

«A perfeição
 não é alcançada quando não há mais nada a ser incluído, mas sim quando não há mais nada a ser retirado».

"O significado das coisas não está nas coisas em si, mas sim em nossa atitude em relação a elas."

"Não confundas o amor com o delírio da posse, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer. (...) O amor verdadeiro começa onde não se espera mais nada em troca."

Quando se fala de um novo amigo, jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: "Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que colecciona borboletas?" Mas perguntam: "Qual é sua idade? Quantos irmãos tem? Quanto pesa? Quanto ganha o seu pai?" Somente então é que julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: "Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado..." elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: "Vi uma casa de «x» valor". Então elas exclamam: "Que beleza!"

«Claro que te farei mal. Claro que me farás mal. Claro que podemos, mas essa é a condição da existência. Receber a Primavera significa correr os riscos do Inverno».

"Aqueles que procuram agradar enganam-se. Para agradar, tornam-se maleáveis, apressam-se a corresponder a todos os desejos. E acabam por trair-se em todas as coisas, para ser como os desejam. Que fazer com seres que não têm ossos nem forma?"

sexta-feira, 19 de julho de 2013

RECORDANDO UM HOMEM SUPERIOR!

Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches (Carregal do Sal, Cabanas de Viriato, 19 de Julho de 1885 — Lisboa, 3 de Abril de 1954) foi um diplomata português. Cônsul de Portugal em Bordéus no ano da invasão da França pela Alemanha Nazi na Segunda Guerra Mundial. Sousa Mendes desafiou ordens expressas do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, António de Oliveira Salazar (cargo ocupado em acumulação com a chefia do Governo), e concedeu 30 mil vistos de entrada em Portugal a refugiados de todas as nacionalidades que desejavam fugir da França em 1940.
Aristides de Sousa Mendes salvou dezenas de milhares de pessoas do Holocausto, das quais cerca de 10 mil judeus.
As consequências foram inevitáveis, de volta a Portugal, é punido pelo governo de Salazar, que priva o diplomata das suas funções. Sousa Mendes perde também o direito de exercer a profissão de advogado.
O cônsul demitido e a sua família, bastante numerosa, sobrevivem graças à solidariedade da comunidade judaica de Lisboa, que facilitou a alguns dos seus filhos os estudos nos Estados Unidos.
Frequentou, juntamente com os seus familiares, a cantina da assistência judaica internacional.
Aristides de Sousa Mendes morreu na miséria, no hospital dos franciscanos em Lisboa.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Portugal visto por Lobo Antunes

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida.

Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento.

Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos.

Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.

Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não
esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.

O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.

Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão.

O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda
piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal.
Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.

Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver:
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo
que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.

As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.

Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito.
Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis.

Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair.

Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar.

Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho.

Agradeçam a Linha Branca.

Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.

Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar  aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos.

Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa.
Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto. Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?

O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.
«Aguenta-te... Portugal»

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Walden; ou, A Vida nos Bosques, auto-biografia do afamado escritor Henry David Thoreau.

A obra contém tanto uma declaração de independência pessoal, uma experiência social e uma viagem de descoberta espiritual, como também um manual para a auto-suficiência .
Publicado em 1854, Walden é um manifesto poético contra a civilização industrial, que então ganhava força nos Estados Unidos. Perante a intensificação da complexidade da vida social , derivada do crescimento exponencial da industrialização e urbanização, Thoreau, insatisfeito com o modo de vida na sociedade e procurando eliminar o desperdício e a ilusão deste propõe o retorno ao simples.
Assim sendo, inspirado pela filosofia do 
Confucionismo, em 1845 retira-se para a floresta, onde constrói pelas suas mãos os seus móveis e a sua própria casa, local onde começa a viver apenas com o mínimo necessário à sobrevivência e em intenso contato com a natureza. Porém, vive isolado da sociedade não como ermitão por objectivo, pelo que recebia visitas e também as fazia, mas sim com o propósito de obter uma maior compreensão da sociedade e de descobrir as verdadeiras necessidades essenciais da vida . Através da sua própria experiência que durou dois anos, Thoreau tanto pôde confirmar que uma vida simples e humilde é viável em termos financeiros, como também descobrir uma nova visão quase mística do Homem: em pleno contato com a natureza e com os livros.
Esta obra não somente relata a estadia do autor na floresta, e analisa e condena a sociedade capitalista do século XIX, mas também incita o espírito crítico genuíno do leitor e leva-o a uma reflexão profunda acerca dos modos de vida, propondo-lhe novas perspectivas sobre o conceito de Liberdade e o da própria Vida.
Walden tornou-se um dos livros mais célebres do autor e é utilizado como referência tanto para a Ecologia, como também para o movimento beat e hippie.

Fui para os bosques viver de livre vontade,
Para sugar todo o tutano da vida…
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!

 Thoreau

FONTE: WIKIPÈDIA

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Reflectindo: José Gil, que o «Nouvel Observateur», considera como um dos grandes pensadores do mundo - EM PORTUGAL A INVEJA NÃO É UM SENTIMENTO, É UM SISTEMA.

Em Portugal há o medo, a falta de ideia do futuro, vive-se num presente que se perpetua. Nós temos medo de experimentar. Porque temos medo do que irão dizer de nós. Partimos sempre do princípio do que o que vão dizer é negativo, desvalorizante. Dificilmente alguém dirá: «Que bom o que tu fizeste. Estou muito contente». Não, vão-nos criticar, Isso cria o medo que paralisa, faz com que tenhamos prudência, bom senso. A prudência paralisa a acção, mas a verdadeira prudência seria uma estratégia para medir e modular a acção, à medida que ela se desenrola, mas não queremos agir. A sociedade portuguesa, é fechada, não tem canais de ar, respirações possíveis. É uma sociedade suavemente paranoica. As pessoas estão demasiado conscientes de si próprias. Conscientes da imagem que podem produzir, da sua presença como imagem dos outros.
Os portugueses estão sempre a falar da auto-estima, esse termo horroroso, essa ideia auto-reflexiva, de nos amarmos a nós próprios, em vez de estarmos virados para fora, para os outros.
O espaço público não existia, o salazarismo tinha-o extinguido e depois da Revolução dos Cravos, passamos a ter o máximo de expressão, mas não tínhamos instrumentos para essa expressão, por isso as forças do poder político voltaram a dominar, ficamos dominados pelo discurso político e a força do seu dispositivo: televisão e os «media» em geral. Estes movem-se em circuito fechado, têm uma acção de absorção. Só se existe, se aparecer na televisão, que não é a mesma coisa do que viver a vida, a materialidade das ruas e do tempo. A televisão tirou-nos o «espaço da nossa liberdade», os acontecimentos da existência, no que têm de invenção. Na televisão tudo está formatado, não há o imprevisto, o encontro. O acontecimento é o resultado do encontro. Mas nós temos medo de um encontro, do acontecimento, da mudança, do futuro, do julgamento dos outros, medo de não sermos capazes, medo de não estar à altura do acontecimento.
Não agimos, nem deixamos agir. O mecanismo da inveja, está associado a magia, o «mau olhado», a «transferência psicótica», como a psiquiatria a domina, o que se passa de uma pessoa para outra. Por exemplo, se um jornalista, entre colegas, diz: fiz uma reportagem extraordinária, sem ser por vaidade, mas de forma objectiva, alguém lhe responde: «Ai sim, pois muito bem». Com este tom introduz em si um afecto que o vai paralisar. Cria-se um ambiente hostil à iniciativa, que tem um efeito sobre a própria vontade de querer fazer. Isto está generalizado, a inveja é mais que um sentimento, é um sistema não individual, criam-se grupos de inveja.
O sistema devia ser: se alguém faz alguma coisa de forte, isso devia ser um estímulo para os outros, mas não, diminuiu, essa intensidade, essa iniciativa, motiva a inveja de o não ter feito ou não ser capaz de…e tudo é feito para destruir isso, porque essa energia sufoca.
Só são afectadas pela inveja as pessoas porosas, frágeis e isso é típico dos portugueses. Somos pessoas sensíveis e sentimos na pele essa inveja que não nos deixa avançar. Assim há como um acordo tácito, para que ninguém aja, ninguém avance, para vivermos em paz, porque temos medo do conflito. Recusamos o conflito, mas temos uma violência incrível na nossa sociedade, uma violência doméstica, os «brandos costumes«, escondem uma violência subterrânea enorme.


PELAS EXPERIÊNCIAS JÁ VIVIDAS É TEMPO DE ACABAR COM ISTO!