Bumba meu boi - António Poteiro
Citadina desde que nasci, sempre acalentei o sonho de viver numa aldeia. A primeira casa onde me lembro de ter vivido no Porto, ficava nos seus limites. As pessoas conheciam-se entre si, existia um espírito de solidariedade, os carros de bois ainda passavam pela rua e as rodas chiavam nas linhas dos eléctricos. O ambiente não era citadino, nem rural, mas tinha campos e gado a pastar. Naquela altura, quando se decidia ir ao centro da cidade, dizia-se vamos ao «Porto», quando no Porto já estávamos! Presentemente os campos desapareceram por completo e a paisagem cobriu-se de betão.
Anos depois fui viver para mais perto do centro da cidade e o bucolismo ficou, eu gostava de mexer na terra, gostava dos animais…e fiquei sempre com aquela ideia de que o que era bom era viver numa aldeia! Claro que para as pessoas mais chegadas era uma risota, gozavam comigo.
-Sabes lá o que é viver numa aldeia!?...Em poucos dias enchias-te!.. Conseguias lá passar sem o que tens na cidade! E depois dedicavas-te à lavoura? Estou a ver-te de chapéu de palha e de galochas a chafurdar na bosta!.. O que tem uma aldeia que te encante?
- Numa aldeia a vida é mais simples, mais em contacto com a natureza, mais pura!
-Isso é sonho, não me parece que gostasses de te levantar com as galinhas!..Mais simples!.. E a falta de estruturas que há? Em contacto com a natureza!.. Lembra-te das grandes borrascas, viver numa aldeia no Inverno é uma tristeza completa! Mais pura!.. Só se for de poluição, porque se te referes ao relacionamento humano, as pessoas sabem da vidinha toda umas das outras, também não têm mais que fazer!..Tu és uma lírica!..
Bem a aldeia ficou adiada, mas ter uma casa na aldeia para ir lá de quando em quando foi sempre um sonho! Quando as pessoas em certas épocas festivas diziam: vou passar uns dias há minha aldeia, ficava cá com uma tristeza «só eu não tenho uma aldeia»! A minha aldeia tem muitas casas, muitos automóveis a rolar e muita agitação!..
Tive uns convites, para férias, fins-de-semana em sítios que eu considerava paradisíacos, mas com os seus inconvenientes. Em Portuzende, lá para os Trás-os-Montes, lembro-me de estar na cama e ouvir arranhar no tecto! O que é isto? São os ratos! Tenho medo, os ratos comem as orelhas! De outra vez em Carrazeda de Anciães vim de lá feita um Cristo, toda mordida pelos mosquitos! E tomar banho? Era de bacia! E sanita? Era ao fundo do quintal! Lembro-me de ter estado também em Vila Meã e tínhamos que defender o caldo verde com unhas e dentes, as moscas vinham em voo desatinado e mergulhavam na tigela, então diziam, tira as moscas e come, estas moscas são saudáveis! Ó comes!..Mas de facto inchava por lá, a comida era especial, o vinho caseiro, a sopinha… ai a sopinha! Ia-se à horta colher as couves fresquinhas! E os frangos de pica no chão? Depois ia-se lá para a Junta ou qualquer coisa no género e tudo cantava e dançava! Enfim como em tudo, há coisas boas e coisas más! Vou-me contentando com a casa que já foi mais rural do que é agora, ali para os lados de Grijó, que tem terra, não tem ratos, nem mosquitos e moscas, mas não cheira a bois, nem a porcos!
Este quadro leva-me para a minha aldeia sonhada, quadro pintado por um ingénuo (näif), que pinta quase sempre o ideal e não o real! Casas simétricas, a igreja, árvores alinhadinhas, dia de festa…aqui a festa é do Bumba meu Boi, eu fui ver o que era! Tem a ver com uma representação popular de uma lenda de um casal de trabalhadores rurais. A mulher grávida tem desejos de comer língua de boi e o homem rouba o boi ao patrão, o boi morre e ressuscita e tudo acaba em cantos e danças, comes e bebes! É assim? Mas que importa vou continuar a sonhar com a minha aldeia!...
Blogagem Coletiva proposta pela amiga Glorinha de Leon do Blog Café com Bolo, intitulada "Minha idéia é meu pincel".
Esta é a última blogagem que tinha por objectivo, divagar sobre certos quadros. Aproveito para agradecer à Glorinha Leão as sucessivas ideias que tem tido para as blogagens colectivas, na intenção de criar ligações entre os bloguistas com um tema em comum. Espero que novas ideias possam surgir, na mente dessa incentivador da interacção e aqui lhe deixo um grande xi-coração.








