A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




sexta-feira, 16 de julho de 2010

ESTA É A CIDADE



Esta é a Cidade, e é bela.

Pela ocular da janela

foco o sémen da rua.

Um formigueiro se agita,

se esgueira, freme, crepita,

ziguezagueia e flutua.

.

Freme como a sede bebe

numa avidez de garganta,

como um cavalo se espanta

ou como um ventre concebe.

.

Treme e freme, freme e treme,

friorento voo de libélula

sobre o charco imundo e estreme.

Barco de incógnito leme

cada homem, cada célula.

.

É como um tecido orgânico

que não seca nem coagula,

que a si mesmo se estimula

e vai, num medido pânico.

.

Aperfeiçoo a focagem.

Olho imagem por imagem

numa comoção crescente.

Enchem-se-me os olhos de água.

Tanto sonho! Tanta mágoa!

Tanta coisa! Tanta gente!

.

São automóveis, lambretas,

motos, vespas, bicicletas,

carros, carrinhos, carretas,

e gente, sempre mais gente,

gente, gente, gente, gente,

num tumulto permanente

que não cansa nem descansa,

um rio que no mar se lança

em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!

Tanta mágoa! Tanta gente!



ANTÓNIO GEDEÃO

ESTADO DA NAÇÃO


quinta-feira, 15 de julho de 2010

CRISE INSUSTENTÁVEL…

Toda a comunicação social se refere todos os dias, a todas as horas, minutos e segundos à crise! Vivemos uma crise insustentável, disse o Presidente da República Cavaco Silva.
Cavaco Silva tão pessimista e Sócrates um optimismo nato, nunca vacila!


O pessimista diz que há muito o país se encontra numa situação económica insustentável, ao optimista, pode-se bem colar aquela frase de Mário Cesariny «se há gente com fome/assim como assim, ainda há muita gente a comer»
Não faria mal o primeiro-ministro reconhecer alguns erros ou a inconsequência de algumas medidas. Mas o facto de isso não suceder não deveria ser tentação suficiente para Cavaco Silva vir a público falar como um dirigente da Oposição, embora Passos Coelho, já ande a «patinar» e o Paulo Portas não largue aquela postura irritante de populista!.. Quanto a Francisco Louça e Jerónimo Bragança, batam, batam… No contexto em que vivemos não podem fazer mais que isso e não me venham dizer que agora não é oportuno bater, por causa da crise! Será oportuno o Estado fazer as suas despesas correntes de luxo? A má gestão do Estado, é o mais revoltante, para todas as pessoas, mas Sócrates será sempre um eterno e inconsequente optimista!..


Fiquei muito admirada pelos empresários estarem preocupados com a situação do país, eles não se preocupam só consigo próprios?
Querem flexibilizar sempre mais as leis do trabalho. Só querem ter lucros e não riscos?
Portugal é o país da Europa onde mais se trabalha e menos se ganha! Os estudos internacionais feitos têm revelado que a baixa produtividade das empresas resulta da má qualidade da gestão!!!!

Vamos tendo o folhetim intrincado da «golden share» - PT-Telefónica, não percebo nada disso, nem gosto de Economia, poderei estudar qualquer coisa sobre outra matéria, mas essa nem pensar! Pode parecer estranho, mas eu até não gosto nada do dinheiro, para a vida ser mesmo «porreira», o ideal era ter o suficiente, para nunca precisar de pensar nele!

Portugal bateu no fundo! É uma grande crise, mas houve sempre muitas crises. Em situação de crise, sempre viveu Portugal, mas claro o que interessa é a crise actual. Nesta crise, nem sequer a criatividade e a emoção, têm procurado combatê-la. A cultura erudita, mantém-se dentro dos seus «palácios», incapaz de dialogar, nunca foi essa a sua vocação. A literatura, excepto casos muito pontuais, não produz nada de interessante. A música, já nada tem para dizer. O cinema, concentra-se nos escândalos, terrores e bonecada. A televisão, além do folhetim da crise «a cappella», à novela, segue-se o concurso e ao concurso a novela, a aposta é o entretenimento.
ENTRETER É O MOTE!

INDIGNADA...

De A a Z, e para parafrasear o título de um romance de José Saramago, as ruas do Porto têm quase todos os nomes, de Aarão de Lacerda a Zeca Afonso. Mas, por vontade da maioria (PSD/CDS) que actualmente dirige a câmara municipal, a toponímia portuense ficará privada do nome do único português que conquistou o Prémio Nobel da Literatura, recentemente falecido.

A proposta, apresentada pelo vereador da CDU, Rui Sá, foi ontem rejeitada pelos votos da maioria. O documento previa uma manifestação de pesar pela morte de José Saramago e a atribuição do nome do escritor a uma artéria da cidade. O voto de pesar ainda foi aprovado, com a abstenção de seis eleitos do PSD e do CDS e o voto contra de Sampaio Pimentel (CDS), mas a proposta de dar o nome do escritor a uma rua foi chumbada pela maioria do executivo (com os votos favoráveis de quatro vereadores do PS e de Rui Sá; o socialista Vilhena Pereira absteve-se).

O vereador comunista declarou-se "chocado" e considerou que "à frente da câmara estão os seguidores de Sousa Lara", o ex-secretário de Estado de Cavaco Silva que se celebrizou por ter impedido a candidatura de Saramago a um prémio literário. "Isto demonstra bem o ódio desta maioria pela cultura e por um escritor que, a despeito da opinião pessoal que se possa ter, é uma referência do país e da língua portuguesa", acrescentou Rui Sá.

Jornal Público

EU TAMBÉM FIQUEI MUITO CHOCADA, SERÁ QUE A MAIORIA QUE COLOCOU RUI RIO NA CÂMARA CONCORDA COM ESTA DECISÃO? EU COMO NUNCA ESTIVE COM ESSA MAIORIA E CONSIDERO QUE RUI RIO TEM FEITO MAL À CIDADE DO PORTO, QUE PELA SUA HISTÓRIA EM NADA SE IDENTIFICA COM HOMENS DESTA PEQUENEZ, FIQUEI «MUITÍSSIMO» INDIGNADA!!!!!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

NELIDA PIÑON


O Bairro Alto, em Lisboa, é um espaço de tertúlia e de boémia, de lojas vanguardistas e de espaços tradicionais, de cultura contemporânea e de tradições bairristas. No Bairro Alto funcionaram muitos jornais e é ainda ali que se encontram as elites culturais e uma nova geração cheia de ideias, de projectos e de histórias para contar. Na RTP2, o Bairro Alto é isso mesmo. Um espaço de conversa com figuras que têm algo para dizer sobre si e sobre o que fazem. José Fialho Gouveia entrevista artistas, ensaístas, cientistas, gente da moda e do espectáculo, gente do pensamento e da acção, portugueses e estrangeiros. O tom é próximo, informal. E as perguntas pedem mais que as habituais respostas politicamente correctas. Bairro Alto é um face a face com ritmo e sem mesa. ESTE É UM PROGRAMA QUE ME AGRADA VER.

Ontem a conversa foi com Nelida Piñon, em Portugal para apresentar o seu livro "Aprendiz de Homero", segundo livro de ensaios, que reúne 24 ensaios sobre autores, temas e personagens literários. Gostei muito da pessoa, de a ouvir, mas ainda não li nenhum livro dela.



Descendente de galegos, nasceu no Brasil em 1937 e, por isso, o seu coração dividiu-se sempre em duas pátrias, a brasileira e a espanhola. Ou talvez três, se considerarmos a língua portuguesa também como pátria. O seu sonho de criança era tornar-se escritora e foi concretizado na plenitude. O seu primeiro romance, “Guia-mapa de Gabriel Arcanjo”, viu a luz das páginas em 1961. Desde então escreveu obras como “A República dos Sonhos”, “A Doce Canção de Caetana” ou “Vozes do Deserto”. Publicou também as suas memórias, “Coração Andarilho”. Nelida ganhou, em 2005, o prestigiado prémio Príncipe das Astúrias, tal como já tinha ganho, no Brasil, o Jabuti, outra importante distinção literária. E há um outro título que ninguém lhe pode tirar: ter sido a primeira mulher no mundo a presidir a uma academia de letras, mais concretamente a Academia Brasileira de Letras. (internet)

É VERÃO, MAIS PROPÍCIO A SAIR, A PASSEAR E A CONVIVER...

Não sei como tudo começou. As pessoas vão se vendo, trocam um sorriso, umas palavras, vão conversando disto e daquilo e de si também. Gradualmente vão-se aproximando, trocam atenções. Encontram afinidades. Umas estão mergulhadas nos seus problemas, outras ultrapassaram-nos ou habituaram-se a viver com eles, mas vivem. A Maria João vive, é uma mulher sempre atarefada, sempre cheia de coisas para fazer.
«Espera, eu dou-te boleia»
A conversa vai-se estendendo, combina-se ir tomar um café, vai-se à praia, vai-se fazer uma caminhada.
«Vamos a minha casa, tenho lá uma coisa para ti»
Era um grande cacto, para eu colocar na minha varanda. Lindo o seu pequeno jardim, muito florido e muito acolhedor.


«Isto enche-me a vida, as plantas e os gatos».
Eles andavam por ali, deitavam-se, rebolavam-se, pediam festas. 8 gatos.
«Só tinha um, o Jeremias, mas depois foram-me pedindo para ficar com outro gato e mais outro, mas eles são tão queridos!»
Gatos siameses, persas, vulgares…
«Não te esqueças de vez enquanto de regar o cacto, mas não regues muito, trata bem dele».
Sinto a generosidade daquela mulher/criança, nas mais pequenas coisas. As suas estrondosas gargalhadas sobrepõem-se a tudo. Mulher de muitas vivências, que de vez enquanto fala de si. Vários homens passaram na sua vida, agora tem 8 gatos, 2 netas de vez enquanto e a sua grande alegria de viver.













Falando de Espanha e das «tapas», de que nós gostamos muito, ela disse:
«Vou fazer um lanche lá em casa, para ti, para a Fernanda e respectivos maridos»
Ontem ofereceu o lanche, de facto como ela dizia era três em um, almoço, lanche e jantar, tudo feito por ela, meticulosamente, com todo aquele prazer de fazer o melhor, para as pessoas que convida!
Esquecemos colesterol, triglicerídeos, diabetes, vesículas sensíveis...
Foi um convívio interessante à volta de duas mesinhas no jardim, com uma grande variedade de «tapas», com música ambiente de jazz (grande colecção!) e depois a Mercedes Soza e «Gracias a la Vida» a pedido.


Tenho que agradecer esse convívio e como não gosto de cozinhar ou melhor cozinho porque tem que ser, ficou logo ali combinado, irmos ao Grove, no Norte de Espanha, onde se come muitíssimo bem.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

BLOGAGEM COLECTIVA: AMOR E INTIMIDADE

O desafio é escrever sobre AMOR e INTIMIDADE, blogagem colectiva do blog Um Pouco de Tudo, eu aderi, mas obviamente que não vou particularizar muito a temática, escrevi o que me veio hoje à cabeça, porque nem tive tempo para pensar muito.

BURT LANCASTER E DEBORAH KERR, NO FILME «ATÉ À ETERNIDADE», UMA CENA QUE SE TORNOU MUITO POLÉMICA, ISTO EM 1953.
Hoje é absolutamente um absurdo!...

AMOR E INTIMIDADE

Não é fácil escrever sobre o amor e universalmente muito se escreve sobre o amor! Amores felizes, amor infelizes, encontros, separações…nem sempre é amor, às vezes é paixão! AMOR, considero um sentimento superlativo, não acessível a todos. Amar, amar não é fácil! Amar é o nu completo e não apenas o nu! Certezas não tenho, isto são sempre palpites!...Cada um sente por si, há quem fale num só amor na vida e em muitos amores. Florbela Espanca que tanto escreveu sobre o amor, tem um soneto onde diz:

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Mas que seja então assim:

Soneto de Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
.
Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
.
E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
.
Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, in 'O Operário em Construção'

Também há quem fale em muitos amores e voltando ao soneto da Florbela ela diz:

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

A Florbela estava a fingir, ocultando o seu amor impossível, como diz Pessoa:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


Florbela podia dizer:

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é amor
O amor que deveras sente


Não vou escrever sobre o AMOR em mim. Seria muito complexo! Muito menos escreverei sobre INTIMIDADE, se escrevesse deixava de a ser!...
Com certeza o primeiro soneto sobre o AMOR que li foi o de Camões (1524-1580) e devia tê-lo lido muitas vezes porque até o sei de cor:
.
Amor é fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humana amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

.
Mas depois deste soneto de amor, li muitos e muitos poemas de amor e até escrevi poemas de amor!

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
…/… Fernando Pessoa, ie Álvaro de Campos


São as cartas, são os poemas, é o que se diz, é o que se pensa, é o que se sonha…mas isto é o alimento do amor, são todas as emoções que têm que ser libertadas…



O AMOR, tem sido uma temática muito explorada, exaustivamente explorada em todos os tempos. O amor com catalogações diferentes, o amor libertino (A ARTE DE AMAR, de Ovídio), o amor carnal (KAMASUTRA, de Vatsyana) e depois aquelas aberrações escritas por Masoch, que deu nome ao masoquismo e naturalmente Marquês de Sade, que deu nome ao sadismo ! E outras que eu não sei, nem me interessa, porque prefiro o AMOR ROMÂNTICO!...


Li muitos livros de amor, Abelardo e Eloísa, Romeu e Julieta, Pedro e Inês, Werther…Chorei com estes grandes amores, por acaso todos acabaram mal! Amor, amor também tem de ter alguma coisa de tragédia e de interdito…enfim também chorei por amor!



















O AMOR é de facto muito inspirador, na literatura, na música, na pintura, na escultura…









Gosto destas pinturas de CHAGALL, destes casais que se suspendem da terra, voam, não sabem onde vão parar e pode ser grande o trambolhão!...
Ai o amor!...Que difícil é explicar porque acontece, porque nos envolve tão plenamente, porque perdura, porque acaba…

SENDO O AMOR ALGO TÃO NECESSÁRIO, O QUE AFLIGE É TANTO DESAMOR NA VIDA!..

domingo, 11 de julho de 2010

Glenn Gould - Bach - BWV 828 - 5 - Sarabande

MAS QUE NEURA...


Não tenho nenhum interesse pela leitura dos jornais do dia-a-dia, todos os dias a mesma coisa: crianças violentadas, crianças que morreram por negligência, mulheres mortas pelos companheiros, pessoas de idade roubadas e agredidas, acidentes, discussões, pancadaria, droga, roubos de tudo e mais alguma coisa…Quando se lê, vem o «folclore» do costume, «porque o vizinho disse, porque a amiga disse, o dono do talho, o empregado do café»…mas que me interessa o que eles dizem…o que me interessa estes folhetins tão deprimentes? Não interessa nada o julgamento do «disse, disse»! (Mesmo método na televisão)
Eu gostava de ler jornais, onde a informação, fosse complementada com opiniões de especialistas, que fossem mobilizados pelos conhecimentos e não pelos interesses, então conforme a matéria, poderíamos ter a opinião de psicólogos, sociólogos, filósofos…que evidentemente não falassem só para a «tribo», mas que tivessem uma linguagem compreensível, todos ganhariam em ter conhecimentos mais aprofundados, sobre esta complexa sociedade em que se vive! («O Público«, aproxima-se mais do que eu gosto).
Os Semanários, deixei de comprar, fui compradora assídua de «O Jornal», (já extinto) e do «Expresso», mas enchi-me com a guerra de vendas entre os mesmos, principalmente quando apareceu «O Sol».
Revistas, às vezes «A Sábado», outras vezes «A Visão», a maior parte das vezes, nem devia ter comprado!
Por vezes o jornalista é demasiado opinador e a ele cabe apenas a função de informar, para além disso tem limites, não é um sábio que sabe de tudo! Isso acontece muito a nível dos articulistas e comentadores, são uns polivalentes e escrevem sobre qualquer tema, sobre um filme, sobre uma manifestação, sobre o PEC, sobre futebol, sobre a EU, sobre a Guerra no Iraque…
Sinto-me desinformada de uma forma geral e confusa!...
Hoje, acordei com neura, dormi demais ou de menos? Nem sei por onde andei, nunca me lembro dos sonhos!..Está um dia de sol e eu nem me apetece sair de casa!...Domingo é o dia da fila, não digo «bicha», por causa das más interpretações...

sábado, 10 de julho de 2010

VINICIUS - OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO



Continuando na evocação de Vinicius e seguindo um comentário do Carlos Albuquerque, deixo aqui este poema, dito de forma superior, pelo actor Mário Viegas (1948-1996). Também nestas cumplicidades que podem surgir, agradeço a dois outros blogues (Maria Josefa e Ana Paula) , que me relembraram o excelente Viegas, através de outros poemas

SOBRE MÁRIO VIEGAS - BIOGRAFIA DO ACTOR POR ELE PRÓPRIO:


http://pancadademoliere.blogspot.com/2008/06/biografia-de-mrio-viegas-por-ele-prprio.html
OU AQUI

sexta-feira, 9 de julho de 2010

GANHEI DOIS SÊLOS!?...

Recebi este selo do blog do querido amigo poeta e dos poetas, http://arrozcomtodos.blogspot.com/, mais conhecido por MANUEL MARQUES!
Ahhh...uffff...que orgulho!..

As regras são: responder à pergunta, O que te aquece o coração?

Um sorriso de criança, um abraço de um amigo, um beijo de quem se ama, mãos apertadas por uma causa, o pedido de um carinho de um animal…

A criatividade artística…a beleza da natureza…

Indicar 5 blogues:

Meu Cantinho
Coisas Boas da Vida
O Meu Aconchego
Bordados e Retalhos
Nas Asas da Coruja


Da fofa amiga, Cíntia, do blogue: http://cantinhodabarbiegirl.blogspot.com/


Regras - responder ao seguinte questionário:

1) Explique o motivo de ter começado o blog e se esperava tornar-se popular.

2) Diga a data exacta do início do seu blog.

3) Indique 5 seguidores do seu blog.

1 - Quando iniciei o blogue, nem tinha grande conhecimento de blogues, mas aventurei-me a fazer um, assim algo «petit a petit», porque não percebia nada disso e comecei a escrever, principalmente a nível cultural, o que eu gostava e ia pesquisando. Depois aprendi a colocar imagens. O meu objectivo era entreter-me e assim ia passando as minhas pesquisas para o blogue. Inicialmente os comentários estavam fechados, não seguia ninguém e não era seguida por ninguém. Depois fui colocando mais algumas coisas ao blogue, por exemplo um contador de visitas e surpreendi-me com as visitas que ia tendo! Decidi abrir o blogue aos comentários. Passou-se um tempo, eu ia escrevendo o que me apetecia, até que um dia apareceu um comentário de uma jovem a algo que escrevi sobre Margot Fonteney, ela dizia que tinha gostado e que nem conhecia a bailarina! Depois disso, eu que não tinha feito premeditações de nada, comecei a investir mais, mas sempre dentro de temáticas culturais. Não escrevia nada a nível privado. Gradualmente fui seguindo pessoas e fui seguida. Esse contacto a nível de comentários, aproximou-me mais das pessoas e isso levou-me a deixar impressões pessoais no blogue e a abordar questões mais pertinentes. Em síntese: o blogue nasceu por acaso e foi aumentando de importância na minha vida. Hoje a minha fidelidade ao mesmo é grande. A popularidade obviamente que nunca esteve nos meus propósitos e continua a não estar. Quando me comentam, fico a pensar «o que escrevi teve algum interesse», se há pessoas que me seguem mais assiduamente fico feliz, «afinal há quem goste»!

2 - O blogue inicial – SOMETHING, foi iniciado em Maio de 2008, LIGHT em Outubro 2009, estive a ver, porque não ligo muito a essas coisas.
3 - Indique 5 seguidores do seu blog.


ENTÃO AÍ VAI:

Restolhando
Olhando os meus botões.
Austeriana
O cheiro da Ilha

Constância Vila Poema

Evidentemente que prosseguirá o jogo quem estiver disposto a isso e passar entretanto por aqui.

30 ANOS SEM VINICIUS

VINICIUS DE MORAES (19 de outubro de 1913/9 de Julho de 1980)
Com Vinicius começou o meu «namoro» com a música brasileira, ele abriu-me a porta para aprofundar depois outros autores-cantores e continuo a gostar muito da múscia brasileira, SARAVÁ VINICIUS!

Samba da Bênção

Composição: Vinicius de Moraes / Baden Powell
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
.../...
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
.../...
Eu, por exemplo, o capitão do mato Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha directa de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a bênção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro António Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a acção ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá!
A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

quinta-feira, 8 de julho de 2010

OCTÁVIO PAZ


Octávio Paz nasceu na Cidade do México em 1914. Cursou estudos de Direito na Universidade Nacional Autónoma do México e estudos especializados de literatura, no México, Estados Unidos, Paris e Japão.
Antes do começo
Ruídos confusos, claridade incerta.
Outro dia começa.
Um quarto em penumbra
e dois corpos estendidos.
Em minha fronte me perco
numa planície vazia.
E as horas afiam suas navalhas.
Mas a meu lado tu respiras;
íntima e longínqua
fluis e não te moves.
Inacessível se te penso,
com os olhos te apalpo,
te vejo com as mãos.
Os sonhos nos separam
e o sangue nos reúne:
Somos um rio que pulsa.
Sob tuas pálpebras amadurece
a semente do sol.
O mundo
No entanto, não é real,
o tempo duvida:
Só uma coisa é certa,
o calor da tua pele.
Em tua respiração escuto
as marés do ser,
a sílaba esquecida do
Começo.
Teus Olhos

Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala, tempestades sem vento,
mar sem ondas,
pássaros presos,
douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
Outono numa clareira de bosque
onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo, mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece, paisagem solitária.
Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra
FRASES

O homem é um ser que se criou a si próprio ao criar uma linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si próprio

A palavra quando é criação desnuda. A primeira virtude da poesia tanto para o poeta como para o leitor é a revelação do ser. A consciência das palavras leva à consciência de si: a conhecer-se e a reconhecer-se

A solidão é o fundo último da condição humana. O homem é o único ser que se sente só e que procura um outro

O amor é uma tentativa de penetrar no íntimo de outro ser humano, mas só pode ter sucesso se a rendição for mútua

Não é poeta aquele que não tenha sentido a tentação de destruir ou criar outra linguagem

Nenhum povo acredita no seu Governo. Em resumo, os povos estão resignados

As massas humanas mais perigosas são aquelas em cujas veias foi injectado o veneno do medo... do medo da mudança

O homem é uma criatura moral que envelhece, que morre e que não sabe para o que veio aqui

"não nascemos livres: a liberdade é uma conquista - e mais: uma invenção."

"a palavra é a amante e o amigo do poeta, seu pai e sua mãe, seu deus e seu diabo, seu martelo e sua almofada. Também é seu inimigo: seu espelho".

"Cada poema é único. Em cada obra lateja, com maior ou menor intensidade, toda a poesia. Portanto, a leitura de um só poema nos revelará, com maior certeza do que qualquer investigação histórica ou filológica, o que é a poesia ".

"A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade".

quarta-feira, 7 de julho de 2010

COMO AJUDAR OS OUTROS?


Cheguei ao ginásio, arrastando o desejo contrariado de ficar em casa. No balneário estava a Júlia vinha do banho turco, atiro-lhe um olá e o habitual como está.
«Mal, sinto-me mal, enjoada, cheia de dores, nem sei porque vim! Sinto-me como uma vela a extinguir-se!»
Conheço a Júlia há muitos anos. Viveu no prédio onde vivo. Tanto ela como o marido eram economistas e eram pessoas reservadas. Sem filhos, apreciavam muito o silêncio, a tranquilidade e, se nada houve relativamente à minha pequenada, sei que ela teve atritos com outra vizinha por causa das crianças, problemas que chegaram ao tribunal. A Júlia e o marido eram muito simpáticos se me viam, chegaram a convidar-nos para ver a sua casa, mas sempre se manteve uma certa distância. De imediato se notava ser uma pessoa psicologicamente complexa e agora está naquela fase da reforma, do vazio, depois de muita actividade. Começou há pouco a frequentar o ginásio e continua a ser uma pessoa simpática e extremamente educada, a simpatia tem sempre muito a ver com a educação!..
«Precisa de férias!»
«Mas eu estou sempre de férias!» Não posso viajar, tenho muitas dores e depois vivo numa casa excelente, tenho uma paisagem soberba, mar, rio…toda arborizada, tranquilidade completa. Nunca encontraria isto em lado nenhum e depois são as dores, constantes, só passam com cortisona!»
«Pode ser fibromialgia!»
«Já consultei muitos médicos, tenho tentado tudo, essa é uma hipótese, estou sempre com dores, cansada, sonolenta. Só me apetece estar deitada! Já me fizeram uma avaliação psíquica, já fiz acunpultura, agora mandaram-me para o ginásio»
«Mas hoje contrariou a vontade de ficar na cama e veio ao ginásio, valeu! Não gosta de vir ao ginásio? Faz sempre bem o exercício e a convivência!»
«Não sei se faz bem, estou a ficar saturada e eu não gosto muito de conviver!»
Fiquei a olhar para ela, sem saber o que dizer.
«Conhece aquele poema do Ruy Belo, Saudades de Melquisedeque?»
«Não me estou a lembrar…mas não devo conhecer!»
«Sinto bem o que ele diz... de que vale tantas complicações, tantos aborrecimentos…»

Com a entrada de outras colegas, a conversa interrompeu-se, felizmente que há outras disposições, há quem tenha sempre piadas novas, acontecimentos engraçados, sorriso nos lábios, malandrices a fazer. No meu pensamento emergindo de quando em vez, estava a Júlia. Cheguei a casa e a primeira coisa que fiz, foi vir à internet, procurar o poema do Ruy Belo.

Esta manhã gostaria de ter dado ontem
um grande passeio àquela praia
onde ontem por sinal passei o dia
É difícil a vida dos homens senhor
Os anjos tinham outras possibilidades
e alguns deles foi o que tu sabes
Esta terra não está feita para nós
Mesmo que ela fosse diferente
nós quereríamos talvez outra terra
talvez esta de que agora dispomos
Não achas meu senhor que temos braços a mais
dias a mais complicações a mais?
Pra nascer e morrer seria necessário tanto?
Falhamos tantas vezes (Como os judeus que juraram
não comer nem beber até matar paulo
e apesar disso não o mataram)
É difícil a vida difícil a morte.
Por vezes os homens juntam-se todos
ou quase todos e organizam
grandes manifestações. Mas nada disso os dispensa
da grande solidão da morte
de termos de morrer cada um por nossa conta
Todos tivemos pai e mãe
nenhum de nós que eu saiba veio de salém



Difícil para mim falar, com pessoas que estejam num grande negativismo, que se entrincheiram numa barreira, onde batem com ricochete palavras encorajadoras, que já tanto se banalizaram e que depressa podem resvalar para um sentimentalismo de «pacotilha». Júlia também não é uma pessoa com quem se possa argumentar a nível religioso e eu de forma alguma seria a pessoa indicada! Difícil dar ânimo a pessoas com ideias muito convictas, feitas por muitos questionamentos a nível superior. Júlia é uma conhecida, não é uma amiga, não tenho da mesma qualquer conhecimento mais íntimo. Perante pessoas a atravessar crises destas eu sinto-me bastante frustrada, por não conseguir dar algum ânimo, alguma força. Isto tem sido sempre um problema na minha vida, ajudar as pessoas, sem cair na banalidade, na frase feita, até mesmo na mentira da argumentação, porque eu facilmente fico contaminada e o mais verdadeiro seria dar-lhes razão!...A única coisa que realmente aconteceu, foi que ela teve necessidade de desabafar e eu ouvi-a, mas é tão pouco!?...

terça-feira, 6 de julho de 2010

MATILDE ROSA ARAÚJO (1921-2010)


Matilde Rosa Araújo nasceu em Lisboa, em 1921, onde se licenciou em Filologia Românica , na Universidade Clássica de Lisboa. Foi professora do Ensino Técnico-Profissional, e formadora de professores na Escola do Magistério Primário de Lisboa.
Foi autora de livros de contos e de poesia para adultos e de mais de duas dezenas de livros de contos e poesia para crianças. Dedicou-se à defesa dos direitos das crianças através da publicação de livros e de intervenções em organismos com actividade nesta área, como a UNICEF em Portugal.
Em 1980, recebeu o Grande Prémio de Literatura para Crianças, da Fundação Calouste Gulbenkian, e o prémio para para o melhor livro infantil, pela mesma fundação, em 1996, pelo seu trabalho Fadas Verdes (livro de poesias de 1994).
Matilde Rosa Araújo recebeu o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e, em Maio de 2004, foi distinguida com o Prémio Carreira, da Sociedade Portuguesa de Autores.

Os Direitos da Criança
I
A criança,
Toda a criança.
Seja de que raça for,
Seja negra, branca, vermelha, amarela,
Seja rapariga ou rapaz.
Fale que língua falar
Acredite no que acreditar,
Pense no que pensar,
Tenha nascido seja onde for,
Ela tem direito…
II
… A pensar para o homem a
razão primeira da sua luta.
O homem vai proteger a criança
Com leis, ternura, cuidados
Que a tornem livre, feliz
deixando crescer
Livremente o coração
E o pensamento.
Esse nascer e crescer e viver assim
Chama-se dignidade.
E em dignidade vamos
Querer que a criança
Nasça,
Cresça,
Viva…
III
… E a criança nasce
E deve ter um nome
Que seja o sinal dessa dignidade.
Ao Sol chamamos Sol
E à Vida chamamos Vida,
Uma criança terá o seu nome também.
E ela nasce numa terra determinada
Que a deve proteger,
Chamamos Pátria a essa terra,
Mas chamemos-lhes antes
Mundo…
IV
… E nesse Mundo ela vai crescer.
Já sua mãe teve o direito
A toda a assistência que assegura um nascer perfeito.
E, depois, a criança nascida,
Depois da hora radial do parto,
A criança deverá receber
Amor,
Alimentação
Casa,
Cuidados médicos,
O amor sereno de mãe e pai.
Ela vai poder
Rir,
Brincar,
Crescer,
Aprender a ser feliz…
V
… Mas há crianças que nascem imperfeitas
e tudo devemos fazer para que isso não aconteça.
Vamos dar a essas crianças um amor maior ainda.
VI
E a criança nasceu
E vai desabrochar como
Uma flor,
Uma árvore,
Um pássaro,
E
Uma flor,
Uma árvore,
Um pássaro
Precisam de amor - a seiva da terra, a luz do Sol.
De quanto amor a criança não precisará?
De quanta segurança?
Os pais e todo o Mundo que rodeia a criança
Vão participar na aventura
De uma vida que nasceu.
Maravilhosa aventura!
Mas se a criança não tem família?
Ela tê-la-á, sempre: numa sociedade justa
Todos terão sua família:
Nunca mais haverá uma criança só,
Infância nunca será solidão.
VII
E a criança vai aprender a crescer.
Todos temos de a ajudar!
Todos!
Os pais, a escola, todos nós!
E vamos ajudá-la a descobrir-se
A si própria
E os outros.
Descobrir o seu mundo,
A sua força,
O seu amor,
Ela vai aprender a viver
Com ela própria
E com os outros:
Vai aprender a fraternidade,
A fazer fraternidade,
Isto chama-se educar,
Saber isto é aprender a ensinar.
VIII
Em situação de perigo
A criança, mais do que nunca,
Está sempre em primeiro lugar…
Será o Sol que não se apaga
Com o nosso medo,
Com a nossa indiferença:
A criança apaga, por si só,
Medo e indiferença das nossas frontes…
IX
A criança é um mundo
Precioso
Raro.
Que ninguém a roube,
A negocie,
A explore
Sob qualquer pretexto.
Que ninguém se aproveite
Do trabalho da criança
Para seu próprio proveito.
São livres e frágeis as suas mãos.
Hoje:
Se as não magoarmos
Elas poderão continuar
Livres
E ser a força do Mundo
Mesmo que frágeis continuem…
X
A criança deve ser respeitada
Em suma,
Na dignidade do seu nascer,
Do seu crescer,
Do seu viver.
Quem amar verdadeiramente a criança
Não poderá deixar de ser fraterno:
Uma criança não conhece fronteiras,
Nem raças,
Nem classes sociais:
Ela é o sinal mais vivo do amor,
Embora, por vezes, nos possa parecer cruel.
Frágil e forte, ao mesmo tempo.
Ela é sempre a mão da própria vida
Que nos estende,
Nos segura
E nos diz
Sê digno de viver!
Olha em frente!

Matilde Rosa Araújo

segunda-feira, 5 de julho de 2010

IO SONO L'AMORE

Um filme operático, onde é inevitável pensarmos em Visconti ("O Leopardo") em Bergman(«Fanny e Alexander») e outros…Luca Guadagnino, reinventa o melodrama clássico, a saga familiar num tempo onde eles já não existem.
No início, depois de visualizarmos uma paisagem de neve, melancólica nos seus cinzentos, um palacete vai surgindo mais nítido e penetrando no seu interior temos um contraste com o calor da madeira, das luzes, do movimento das pessoas. Um interior clássico cheio de preciosismos. A família vai-se reunir para o aniversário do patriarca, o ambiente é aristocrático, focando um cruzamento entre os empregados e os senhores. A um núcleo mais conservador, sobressai o núcleo mais jovem, menos convencional. A refeição é um cerimonial de elite e a atenção prende-se às conversas soltas e principalmente aos olhares. Há um mistério que se começa a insinuar e o foco vai para Emma, (excelente Tilda Swinton). Uma mulher, que parece ser uma líder de tudo que se passa ou uma submissa perante as contingências. Uma mulher que está em foco e simultâneamente mergulha na privacidade, ficando só ou com a sua empregada. Emma, que nasceu na Rússia e casou com o único filho de uma poderosa família industrial milanesa, revela-se como «um corpo estranho» dentro daquele cenário.
O patriarca, nessa festa em homenagem ao seu aniversário, vai delegar a sua posição empresarial no filho e num dos netos. Durante essa cena, abrem-se todas as perspectivas para o desenvolvimento posterior das personagens principais, o casal e os seus filhos.
A frieza e sobranceria do marido de Emma. A insatisfação e inquietação de Emma. O sentimentalismo do filho mais velho, (o herdeiro), para além das questões sociais, (a mulher que ama e convida para o jantar, um amigo que estima e com quem perdeu um «jogo», a maior proximidade e cumplicidade com a mãe). A mudança das opções afectivas da filha. A presença decorativa e nunca participativa do outro filho. A chegada de António, um cozinheiro, com quem Leo perdeu uma «partida» e que vem entregar um bolo feito por si. Emma vê de relance esse visitante inesperado, que nem sequer fica para tomar café.
Se dissermos que Emma se vai apaixonar por António, que lhe dá uma perspectiva de vida campestre e muito simples, deixando a família, parece assim um romance banal, mas o realizador elevou o filme ao estatuto de obra-prima, pela sua abordagem operática, virtuosa, formalista, estilizada, hiper-romântica e pós-modernista. É fabuloso o modo como ele se instala no classicismo, através de Tilda Swinton e também como esta chega a uma sensualidade exacerbada que se opõe à rigidez estruturada do palacete dos Recchi. Guadagnino mantém essa emoção a borbulhar subterraneamente durante todo o filme sabiamente sublinhada pela música do compositor minimal John Adams.
Muito interessante a sequência, onde Emma está na cama com o marido e pela televisão passa Maria Callas, interpretando a ária da "Mamma Morta" de Giordano, na banda-sonora do "Filadélfia" de Jonathan Demme. A frase que Callas canta é "Io sono l'amore" e é nesse momento que Tilda toma perfeita consciência do seu papel na poderosa família milanesa. Ela é a verdadeira "mamma morta", ela não é o amor ali e, ela quer ser o amor.

Elenco impecável onde encontramos o actor e encenador Pippo Delbono e os veteranos Gabriele Ferzetti e Marisa Berenson.

domingo, 4 de julho de 2010

sábado, 3 de julho de 2010

ROMA

Há uns anos é que eu devia ter ido a Roma, com os conhecimentos fresquinhos do Estudo da Civilização Romana, da evolução da Instituição Católica, esses dois grandes poderes que marcaram o mundo. Itália tb. foi o berço do Renascimento. Mas outros factos históricos são de realçar, a ocupação napoleónica, o saque de Roma, Garibaldi e Mazinni, enfim o Risorgimento, que levou à unificação italiana e à monarquia e depois ao fascismo. ..
Para saber mais sobre Roma
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_de_Roma
Ou em vídeo, http://www.youtube.com

Depois de ter aterrado em Leonardo da Vinci, a deslocação inevitável foi a grande estação ferroviária de Termini e daí, Via Julio Cesare, onde tínhamos o apartamento do Paolo à nossa espera, nº. 59 piano 4.

Seguimos a pé até ao Vaticano. Grande fila junto ao portão dos Museus do Vaticano. Gente, gente, muita gente. Em Roma são «banhos» de gente por todo o lado, gente de todas as partes do mundo, pelas ruas um trânsito frenético, com as vespas a rabear por todo o lado. Nunca tinha estado numa cidade com tanta motinha a circular. Depois de uma espera razoável na fila, que se esqueceu pelo nosso entusiasmo e boa disposição, lá passamos o portão.
Os museus são muitos e sucessivos, além dos quadros e esculturas dos grandes artistas, todo o chão é arte, todas as paredes e tectos são arte e, passou pelos meus olhos tudo aquilo, que andei anos e anos a ver através de livros e documentários…é indescritível tanta beleza, tanta materialização criativa.
Depois de andar de salão para salão, (Sala da Cruz, Galeria dos Candelabros, das tapeçarias, dos mapas, Sala Sobiesky e da Imaculada, Pátio da Pinha), «kilómetros» de fruição do belo, chega-se ao êxtase – A CAPELA SISTINA.
O deslumbramento é completo, perante a obra de Miguel Ângelo, os olhos não descolam daquelas pinturas soberbas do tecto (as dores do pescoço ao olhar para cima, lembram como a estrutura do artista ficou afectada ao pintar esse maravilhoso tecto). Na parede frontal - O JUÍZO FINAL. Tudo poderia demorar horas e horas a ver detalhadamente.
A etapa seguinte era a Basílica, depois de se ter comido qualquer coisa, nos jardins dos museus do Vaticano. Calor intensíssimo sem sombras! Antes ainda fomos ver os carros do papa. Na Praça de S. Pedro, a fila dava uma volta quase completa. Por todo o lado em Roma há fontes, além das célebres fontanas, para encher as garrafas, assim como a venda ambulante de tudo: sumos, «birra», sandes e no caso do calor, chapéus e sombrinhas. A fila andava depressa e ao entrar, lá tivemos que ir à vistoria. A Basílica é «fabulástico», como dizia uma companheira de viagem!
Decidimos ver a cúpula. Primeiro elevador até a um varandim, onde se tem uma perspectiva do interior da basílica, mas depois para chegar ao cume são 324 degraus, que nos deixam a arfar, mas dai tem-se uma visão fantástica sobre a cidade de Roma. Descer a escada também não é fácil, já que no final, as pernas tremem bastante.
Entramos então na Basílica, de onde se destaca de imediato, a monumentalidade do seu interior, o Baldaquino de Vernini, a Pietá de Miguel Angêlo, a tumba de S.Pietro. Deambulamos por lá muito tempo, vendo tudo o melhor possível, mas dada a sua grandiosidade não é fácil.
Cansados e a «pingar», fomos comer um gelado e decidimos ir no Bus turístico, dar uma volta à cidade, para no dia seguinte estabelecermos o programa, foi um passeio fabuloso e relaxante, o primeiro contacto com a cidade espectacular que é Roma.














No dia seguinte fomos a pé até ao Castelo Sant' Angelo. De lá vê-se o caminho secreto de fuga dos Papas, do Vaticano para o castelo. Castelo com muita arte e muita história. Atravessamos a ponte do mesmo nome e apanhamos o Bus até à Piazza del Popolo, onde ia ocorrer uma manifestação, contra o governo. Lá existem duas igrejas gémeas, mas só uma está aberta. Da Piazza Popolo, caminhamos a pé pela Villa Borgese, com lindos jardins e aí «piquenicamos». Há sempre locais de abastecimento, onde está sempre pronta a ser comida, uma grande variedade de fruta fresca e já descascada. Depois passamos uma parte da antiga muralha, até à Piazza Federico Fellini e descemos a chiquérrima Via Veneto, onde estão os grandes hotéis, costureiros, cafés célebres, como o famoso café de Paris. Paramos no Hard Rock e daí deixamos as grandes vias, metendo por ruelas típicas, para encontrar a Fontana de Trevi, um deslumbramento! Imaginava que ficava numa Piazza grande, mas não, o local é bem limitado e cheio de gente. Aí fui confrontada com dois soldados romanos, saídos de um Asterix qualquer, andam pelos sítios carismáticos, para venderem o corpo à fotografia!






Continuamos pelas ruelas, passamos pelo Templo de Adriano, fomos ver o espectacular Panteon, depois Palazzo Madama, até à Piazza Navona das três fontanas, e visitamos a Basílica Santa Maria del Anima. Nessa Piazza, como noutras há sempre muito entretenimento: tocam, dançam, pintam, representam… A etapa seguinte era encontrar uma célebre gelataria, mas antes ainda fomos ver a Igreja de Santo António de Lisboa e de Pádua (Igreja Portuguesi). Apanhamos o Bus para regressar a casa. Tomamos um banho, estávamos com o corpo tipo «pasta-cola», aliás o calor de dia e de noite era demais! Fomos para a «nigth», jantar ao bairro medieval de Transtevere, um pouco longe de onde estávamos, porque tivemos que ir de metro ( Roma só tem duas linhas de metro) e depois de comboio. Um sítio muito interessante à beira do Tibre. Local de paragem de muita gente, bares e restaurantes uns colados aos outros, esplanadas por todo o lado. Descemos para a margem do rio, e mais restaurantes, bares, vendas de comércio alternativo. Foi um passeio longo e divertido, que nos fez esquecer as horas e quando decidimos regressar, vieram os problemas! Fomos de eléctrico sem pagar, não tínhamos dinheiro trocado, para pagar o bilhete, o bilhete custava um euro e a multa 101 euros! Chegamos à estação de comboio, já tinham terminado os comboios! Ficamos sem saber o que fazer, porque táxis nem vê-los! Safou-nos uns jovens italianos, que nos deram um número para chamar um táxi. Demorou tempo a chegar e quando chegou fez-se muito esquisito, para nos levar! Éramos cinco, só podia levar quatro! Depois de insistente pedinchice lá se condoeu e levou-nos até casa, lá pelas três da manhã!
Dia seguinte, Bus turístico e Santa Maria Maggiore na Piazza Esquilino, depois San Carlo Quatro Fontane, Fontana del Tritone, Piazza Barberini, Via Sistina, Trinitá del Monti, com aquela longa escadaria onde se faz os desfiles de moda e Piazza Spagna. Daí novamente Bus, até ao espantoso Colosseo, Arco di Costantino e Palatino, que nos ocupou bastante tempo.
Andei por muitos sítios, mas não me lembro de tudo, perdi o moleskine! Andamos mesmo muito e recorremos tb ao Hop-On Hop-Off bus. Roma é uma cidade grande, uma cidade com muito para ver, tenho a impressão de ter visto 1/3 e fiquei com uma grande vontade de lá voltar e ver outras coisas.






( Das mais de mil fotografias tiradas, é difícil seleccionar algumas, isto é apenas um pequeno registo da minha passagem, evidentemente que quem quiser ver Roma, está tudo no youtube)