Contrariar as Contrariedades
Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inlcusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida.
Clarice Lispector, in 'Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres'
Fotobiografia de Clarice Lispector, livro organizado por Nádia Batella Gotlib (Brasil-2009), que nos coloca sobre o olhar de Clarice, olhar imperturbável, inquietante, «olhos de piscina», segundo dizia Manuel Bandeira, que parecem que afogam, cegando para dentro dela, porque ela é sobretudo o retrato do mistério. Já, «Why this World», de Benjamim Moser, primeira biografia inglesa sobre a escritora, tem o condão de imergir no peculiaríssimo universo biográfico e literário da autora de Perto do Coração Selvagem. Ucraniana e judia de nascimento, tornou-se cidadã brasileira com 20 anos, talvez por isso a escritora fez uma reinvenção do português, parece mais uma língua sua.
Na Fotobiografia, é como uma Esfinge, a sua beleza é trespassante, por inatingível, O rosto de Clarice não se oferece, nem se desvenda, como que perdido na in-consciência da sua beleza.
Giorgio de Chirico fez-lhe um retrato a óleo em 1945, mas não lhe faz inteira justiça.
Bluma Wainer, foi a sua principal fotógrafa e deu-lhe poses de uma deusa. Maravilhosa mulher, cujo «glamour» é feito de discreto luxo (o simples luxo da beleza pura), rosto silente e sugerindo um mundo interior cuja imensa riqueza talvez não seja acessível aos mortais.
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma ideia ou um sentimento e eu, em vez de reflectir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”
Até aos treze anos, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de factos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer do tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvajaria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino. Pois juro que a vida é bonita.”
Clarice Lispector





















