«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




quarta-feira, 18 de julho de 2012

LENDO MÁRIO DIONÍSIO

Francina van Hove



ARTE POÉTICA


A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia 
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos, 
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores, 
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica 
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais, 
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos. 
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar. 
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento, 
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho 
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.


COMPLICAÇÃO


As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento. 
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras. 
E ter de subir a encosta para a poder descer. 
E ter de vencer o vento. 
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo. 
As complicações, os atritos para as coisas mais simples. 
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente. 
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil. 
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência 
e o fim é infinito.
Ainda bem. 
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.


...///...

Pior que não cantar 
é cantar sem saber o que se canta

Pior que não gritar
é gritar só porque um grito algures se levanta

Pior que não andar
é ir andando atrás de alguém que manda

Sem amor e sem raiva as bandeiras são pano 
que só vento electriza 
em ruidosa confusão 
de engano

A Revolução
não se burocratiza

2 comentários:

Maria Teresa disse...

Tudo brota em poesia, tudo respira poesia! Poesia da poesia, gostei muito, Manuela.
Beijo

mfc disse...

Fiquei encantado...!