«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




domingo, 19 de agosto de 2012

ESPAÇO EDP - VIEIRA DA SILVA - O ESPAÇO E OUTROS ENIGMAS

«A TROCA
Se Vieira for a caligrafia, Arpad é a linha do caderno. A caligrafia avança sobre a linha e a linha segue-a no seu avanço. O avanço de Vieira é feito com lanças altas, levantadas na vertical, mas que às vezes se deitam na horizontal para abrir caminho ao seu caminho. A linha de Arpad tem uma quietude que, de tempos a tempos, se inquieta. Então, a linha gira em volta da sua luz e torna-se movimento da paragem.
Se Vieira for o labirinto, Arpad é o fio de Ariadne. O nosso olhar perde-se nela e encontra-se nele. Ou perde-se nele e encontra-se nela, porque, como diz Walter Benjamin, devemos aprender a perdermo-nos numa cidade como se ela fosse uma floresta.
As cidades de Vieira são nervosas e rápidas. As de Arpad tornam-se calmas e lentas. Nas cidades de Vieira há a fragilidade que lhes dá leveza. Nas cidades de Arpad há a certeza que lhes dá dúvida. As cidades de Vieira fogem e as de Arpad regressam. As cidades dela são o futuro do passado e as dele são o passado do futuro. As cidades de Vieira escrevem-se no espaço, porque o futuro, como sabem os arquitetos e os videntes, constrói-se em extensão. As cidades de Arpad inscrevem-se no tempo, porque o passado, como sabem os arqueólogos e os psicanalistas, desvenda-se em profundidade. É por isso que Vieira é a arquiteta-vidente das suas cidades e Arpad o arqueólogo-psicanalista das cidades dele.
Esta exposição acrescenta mais uns pingos à solda da pareceria entre a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (obrigado, Marina) e a Fundação EDP (oiço a voz da Marina a dizer: obrigado, Zé Manel). Nela, cruzam-se as cidades de Vieira e de Arpad e os seus comissários, João Pinharanda e Marina Bairrão Ruivo, são os sinaleiros deste cruzamento de muitas ruas e muito trânsito nelas. 
Olhamos estas cidades dos dois e começamos a reparar. Reparamos: aquilo que mais as aproxima são pessoas, cidadãos das cidades. As pessoas de Vieira vão para um além. As pessoas de Arpad voltam para um aquém. Passam umas pelas outras e nesse vaivém são como os elevadores, ditos da Glória: o que sobe passa pelo que desce que passa pelo que sobe. 
Olhamos estas pinturas e estes desenhos para descobrirmos que as pessoas de Vieira veem as vistas das pessoas de Arpad e que as pessoas de Arpad andam nos passos das pessoas de Vieira. É sempre assim nas cidades: trocamos com os outros, trocamos os outros, trocamo-nos nos outros. Como Vieira, a bruxa, e Arpad, o sábio, sabiam. E por isso pintaram e desenharam assim. Ele olhava com os olhos dela e ela pintava com a mão dele. Trocados um com o outro, a caminho das cidades que, no mundo, foram deles – e agora, por eles, são nossas.»
José Manuel dos Santos, Diretor Cultural da Fundação EDP




2 comentários:

anamar disse...

Do que gosto mesmo mais, são das fotos...

Beijocas , doce Manu.
Ana

Lilá(s) disse...

Gosto pois...leciono na escola com o nome da Vieira da Silva, todos os anos levamos os alunos a visitar o museu para que conheçam a obra da sua patrona. Adoro fazer a preparação da visita nas minhas aulas, porque adoro a sua obra.
Bjs