«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




terça-feira, 17 de janeiro de 2012

REVENDO «LA DOCE VITA»

um filme de Federico Fellini
com Marcello Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée
Itália, França, 1960
Festival de Cannes 1960 – Palma de Ouro (Melhor Filme) | Prémios David Donatello – Melhor Realizador
New York Film Critic Circle Awards – Melhor Filme Estrangeiro

« [esta obra-prima de Fellini] “quebrou todas as regras. Há um antes de A Doce Vida e um após A Doce Vida. Fellini rompeu com todas as regras narrativas. Nos EUA, estava-se na altura dos grandes filmes épicos e espectaculares, como o Ben Hur e Spartacus. Já tínhamos visto A Aventura de Antonioni e o primeiro Bergman. Mas Fellini, pela sua audácia, intensidade moral e pela inteligência deste filme, mudou o destino do cinema […]».

Martin Scorsese, na comemoração do cinquentenário do filme, em Roma (Diário de Notícias)



 Fellini Por Fellini, uma entrevista de Giovanni Grazzini, Publicações D. Quixote

«P. A Dolce Vita continua a ser uma chave de abóbada da cultura e da imaginação do século XX; que pensas hoje dele, até que ponto estavas consciente das suas componentes sociológicas?

R. Dou-me conta de que A Dolce Vita constituiu um fenómeno que ultrapassou o próprio filme. Do ponto de vista dos costumes mas também por algumas inovações. [...] Parece-me que foi alimentado, até no que diz respeito à formação das imagens, pela interpretação da vida que nos era imposta pelas revistas ll Europeo, Oggi; [...] As revistas foram o espelho inquietante de uma sociedade que se autocelebrava em continuação, se representava, se premiava; de uma nobreza papalina, negra e rural, que viajava de Caravelle e se fazia fotografar em Lo Spechio. Uma velha Itália seiscentesca e conservadora que se cruzava com a dos Nastri d’Argento e sobre a qual me agradava exercitar a minha propensão para o escárnio.»

ARGUMENTO
O filme passa-se em Roma e conta a história de Marcello Rubini, um jornalista especializado em histórias sensacionalistas sobre estrelas de cinema, visões religiosas e a aristocracia decadente, que passa a cobrir a visita da actriz hollywoodiana Sylvia Rank, por quem fica fascinado.
Através dos olhos deste personagem, Fellini mostra uma Roma moderna, sofisticada, mas decadente. O repórter é um homem sem compromisso, que se relaciona com várias mulheres: a amante ciumenta, a mulher sofisticada em busca de aventura, e a actriz de Hollywood, com a qual passeia por Roma, culminando no ponto alto do filme, a famosa sequência da Fontana di Trevi.
Outra sequência famosa do filme é a da abertura, na qual o jornalista, num helicóptero que transporta uma estátua de Jesus até o Vaticano, encontra uma mulher tomando sol numa cobertura e pergunta pelo seu número de telefone. O barulho dos motores impede que ambos possam sentender-se. A temática da falta de comunicação repete-se ao longo de todo o filme.
Dentre os momentos mais importantes do filme, está aquele na qual duas meninas atraem uma multidão, ao fingirem ver uma aparição da Virgem Maria nos subúrbios de Roma; e quando o personagem Steiner, um intelectual e colega de Marcello, que vive com a sua família numa aparente harmonia, comete o assassinato dos seus próprios filhos (um casal de crianças) e se suicida em seguida. Após a morte de Steiner, Marcello embarca numa vida de orgias e, numa destas ocasiões, pela manhã, caminha pela praia em busca de um monstro marítimo morto, o final simbólico do filme.


O personagem "Paparazzo", fotógrafo interpretado por Walter Santesso, que trabalha com Marcello Rubini, é a origem do termo que descreve os fotógrafos intrusivos, denominados paparazzi, no plural.