«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




segunda-feira, 16 de maio de 2011

DEVANEIO...

Paula Rego

Está cinzenta a tarde…a tarde que vai crescendo para a noite…nas noites em que os olhos se arregalam…e das órbitas saltam para a rua…para aquela brisa que está além das paredes…brisa que arrepia um corpo desaconchegado que anda calcorreando a cidade húmida …em buscam do que se quer esquecer…

É uma caminhada incessante, até que o corpo queda-se olha a erva molhada pela frescura da noite, deita-se e encolhe-se como um feto…ali está só, ao relento…de manhã acorda com a música dos pássaros…o sol percorre-lhe o corpo…traz-lhe um calor apetecido…deitada olha para o céu…para as nuvens que caminham…que se enchem e esvaziam…uma borboleta passa-lhe rente aos olhos…uma borboleta lembra-lhe qualquer coisa…um sonho…estava de mão dada, alguém sorria e dizia: «Olha aquela como é bonita…tem asas azuis…e aquela amarela e castanha….olha uma rajada de preto e branco…fechou os olhos…apertou as mãos vazias e lembrou-se de algo cujas formas não conseguia definir. Depois fixou-se no cantar dos pássaros…tentou perscruta-los nos ramos das árvores, em vão…

Depressa se levantou e começou a andar, tomou um caminho ao acaso, afinal qualquer caminho servia, bastava colocar um pé atrás do outro e ir em frente! Sentiu nas narinas o cheiro da maresia, o mar estava perto… Caminhou e apareceu… Parecia de prata, desceu as escadas e sentou-se na areia, enlaçou as pernas com os seus braços e ficou a olhar, aquela imensidão de água…o mar, as ondas, as gaivotas que passavam e deixavam o seu grito, que sempre lhe parecia desesperado e um sonho insinuou-se…o sonho de ver o mar por dentro, de lhe descobrir as entranhas, a essência…de ver lá no fundo o seu coração a bater… Mas como ele pulsava espraiando a sua energia!...Aproximou-se queria sentir nos lábios o sal…nos pés nus a carícia da água a ir e a vir, movimento incessante…Contou as ondas…na sétima pensou: não há desejos a pedir e virou as costas ao mar…na praia começaram a aparecer pessoas com as suas crianças, ficou a brincar com elas com os olhos…sorriu, esboçou gestos, estendeu a mão…mas ninguém a via…desconsolada pegou uma mão cheia de areia, apertou-a, soltou os dedos e viu como ela se escoava rapidamente…

Levantou-se pegou seus trastes e pensou «tenho que viver sem saber para quê, vivendo, e assim vou-me esquecer para que vivo! »

Escrito num dia de desânimo! A marginalidade na sociedade é sempre uma temática que me impressiona bastante! A pessoa que não tem emprego, casa, família...e quantos eu não vejo cruzarem-se no meu caminho? E quantas histórias não ouço, dos desvarios da vida? Esta é a miséria contemporânea...que vai crescendo...é uma miséria assustadora...que se torna muito presente nos portais da cidade...que vive de expedientes...que procura ganhar o suficiente para os remédios do esquecimento: o alcool e a droga!...

10 comentários:

Socorro Melo disse...

A mim também, Manu, muito me impressiona. E me deixa indignada, e até gosto que seja assim, pois, quando não mais me indignar, significa que estou banalizando a situação, e eu nunca vou querer que isso aconteça, ao contrário, quero poder fazer algo positivo, por mais insignificante que seja.
Um ótimo texto, uma grande reflexão.

Beijos
Socorro Melo

manuel marques disse...

Bravo,bravo,bravo.


"A miséria principia, quando temos empobrecido até de esperanças."

Beijo Manú.

Malu disse...

Caminhar para a brisa que deixa o corpo leve e arrepia a pele e poder quedar-se diante de tantas agruras, porém descrita assim, com delicadeza e carinho.
Uma narrativa triste e cheia de desespranças, mas não deixa de carregar um fio de possibilidades que transparece as borboletas de asas azuis...
Abraços, Manu!

Fatima disse...

Ótimo texto Manu!
Bjs.

Laura disse...

Pois é, quem está bem vai andando e até quem não está bem, mas, a sociedade aprendeu a reprimir os olhares de compaixão ou de ajuda, e, afasta-se porque parece que nada mais há a fazer, ou há? Claro que haver há sempre, mas, há tantos mas de permeio...

Um beijinho.

laura

Maria Teresa disse...

Manuela:
A solidariedade e a compaixão estão tornando-se ficcionais utopias, cada dia mais, cada vez mais. O desalento gruda na alma e a esperança fica mesmo por conta das borboletas. Sorte nossa que elas sabem o segredo da metamorfose!
Beijos

Nilce disse...

Oi Manu

É a solidão no meio da multidão. O desapego pelo amor, família, amigos e vizinhos.
Vive-se numa sociedade egoísta onde quem pode mais, chora menos. O desprezo ainda é o pior dos sentimentos do homem.
Falta fé e esperança em tudo, até na razão de viver, infelizmente.

Bjs no coração!

Nilce

Beth/Lilás disse...

Ah, Manú, temos visto tantos por este mundo assim como falas! É triste, mas a realidade é crescente e veio com a globalização e todo o processo capitalista em que estamos envolvidos.
Temos que nos indignar sim, senão caímos na tal situação de banalizar o problema como bem disse a amiga Socorro.
um grande abraço, carioca.

Luís Coelho disse...

Um texto rasgando a dor e reprimindo a banalidade.
Há dias assim. Temos de olhar em frente e ver melhores dias numa esperança futura.

Sandra Botelho disse...

perfeito texto. A fuga e a entrega a algo que sacie o desespero , mas que pode ser mortal a alma.beijos achocolatados