«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




terça-feira, 11 de janeiro de 2011

FOTOBIOGRAFIA DE CLARICE LISPECTOR

Contrariar as Contrariedades


Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inlcusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida.

Clarice Lispector, in 'Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres'




Fotobiografia de Clarice Lispector, livro organizado por Nádia Batella Gotlib (Brasil-2009), que nos coloca sobre o olhar de Clarice, olhar imperturbável, inquietante, «olhos de piscina», segundo dizia Manuel Bandeira, que parecem que afogam, cegando para dentro dela, porque ela é sobretudo o retrato do mistério. Já, «Why this World», de Benjamim Moser, primeira biografia inglesa sobre a escritora, tem o condão de imergir no peculiaríssimo universo biográfico e literário da autora de Perto do Coração Selvagem. Ucraniana e judia de nascimento, tornou-se cidadã brasileira com 20 anos, talvez por isso a escritora fez uma reinvenção do português, parece mais uma língua sua.



Na Fotobiografia, é como uma Esfinge, a sua beleza é trespassante, por inatingível, O rosto de Clarice não se oferece, nem se desvenda, como que perdido na in-consciência da sua beleza.





Giorgio de Chirico fez-lhe um retrato a óleo em 1945, mas não lhe faz inteira justiça.




Bluma Wainer, foi a sua principal fotógrafa e deu-lhe poses de uma deusa. Maravilhosa mulher, cujo «glamour» é feito de discreto luxo (o simples luxo da beleza pura), rosto silente e sugerindo um mundo interior cuja imensa riqueza talvez não seja acessível aos mortais.






“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma ideia ou um sentimento e eu, em vez de reflectir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”


Até aos treze anos, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de factos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer do tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvajaria e muita timidez.


Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino. Pois juro que a vida é bonita.”


Clarice Lispector

12 comentários:

Cris França disse...

mulher maravilhosa! bjs Manu

Sandra Botelho disse...

Amiga eu amo essa mulher...Maravilhosa!
Saudades de ti. Bjos achocolatados

Maria disse...

Gosto desta mulher. E parece que não sou só eu...
Obrigada por este post, Manuela.

Beijo.

Fatima disse...

Trabalho maravilhoso Manu!
Sou devota da Clarice!
Bjs.

ELIANA-Coisas Boas da Vida disse...

ADOREI TE VER NO MEU BLOG VOCÊ É UMA VISITANTE ILUSTRE QUE EU ADORO RECEBER!

DEIXO AQUI UM PEDACINHO DE ALGO QUE CLARICE ESCREVEU E EU ME IDENTIFICO UM POUCO!

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."
(Clarice Lispector)

Valéria Sorohan disse...

Linda, gosto dela, gosto da obra dela.

BeijooO*

Lilá(s) disse...

Também gosto da obra dela e este post está muito completo, gostei.
Beijinhos

Laura disse...

Apesar de; é preciso viver e lutar para aguentar viver...


beijinhos, e tanta escrita, decididamente já estás boa de todo.

beijinho da laura

manuel marques disse...

Sou um coração batendo no mundo.

Clarice Lispector.

Beijinho.

Pedrasnuas disse...

UMA GRANDE MULHER SEM DÚVIDA...AS MARCAS ESTÃO AÍ...ESPALHADAS PARA QUEM QUISER LER...E APRECIAR.
QUANDO LEIO ALGO SEJA DE QUEM FOR; DE CLARICE OU DE OUTRO POETA ...TENHO O HÁBITO DE QUESTIONAR...O QUE AOS OLHOS DE OUTRAS PESSOAS PODE PARECER QUE SOU ARROGANTE E PREPOTENTE...FAÇO-O DESDE QUE TENHA LÓGICA E SENTIDO...NÃO É SER DO CONTRA POR SER...

BEIJINHOS MANUELA

Há.dias.assim disse...

Gosto muito de Clarice Lispector.
tem uma escrita muito boa.

Glorinha L de Lion disse...

Complexa e difícil essa Clarice! Não gosto de tudo o que ela escreve não. Talvez não a alcance, mas acho que ela está na "moda" por aqui...Serei considerada blasfema!Mas era, de fato, uma bela e profunda mulher. Beijos,