«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

MORTE E VIDA SEVERINA

ESTE POEMA É UM DOS MELHORES QUE CONHEÇO E NESTES ÚLTIMOS TEMPOS ACABEI POR PENSAR NELE, DE TAL MODO SE TEM FALADO TÃO DEMOGICAMENTE EM POBREZA NA CAMPANHA ELEITORAL
.
Poema narrativo e dramático. Consiste em duas partes: antes de chegar ao Recife e depois. Antes de chegar é chamado de caminho ou fuga da morte; e depois o presépio ou encontro da vida.


João Cabral de Melo Neto (Recife, 1920 — Rio de Janeiro, 1999)
 Poeta e diplomata. A sua obra poética, vai de uma tendência surrealista até a poesia popular, caracterizada pelo rigor estético, com poemas avessos a confessionalismo e marcados pelo uso de rimas, inaugurou uma nova forma de fazer poesia no Brasil.

BIOGRAFIA AQUI


CANDIDO PORTINARI, Retirantes


O RETIRANTE EXPLICA QUEM É E A QUE VAI


— O meu nome é Severino,

como não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

.

Mais isso ainda diz pouco:

há muitos na freguesia,

por causa de um coronel

que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo

ora a Vossas Senhorias?

.
Vejamos: é o Severino

da Maria do Zacarias,

lá da serra da Costela,

limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:

se ao menos mais cinco havia

com nome de Severino

filhos de tantas Marias

mulheres de outros tantos,

já finados, Zacarias,

vivendo na mesma serra

magra e ossuda em que eu vivia.
.

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na vida:

na mesma cabeça grande

que a custo é que se equilibra,

no mesmo ventre crescido

sobre as mesmas pernas finas

e iguais também porque o sangue,

que usamos tem pouca tinta.

.
E se somos Severinos

iguais em tudo na vida,

morremos de morte igual,

mesma morte severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte

de fome um pouco por dia

(de fraqueza e de doença

é que a morte severina

ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida).

.
Somos muitos Severinos

iguais em tudo e na sina:

a de abrandar estas pedras

suando-se muito em cima,

a de tentar despertar

terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar

alguns roçado da cinza.

Mas, para que me conheçam

melhor Vossas Senhorias

e melhor possam seguir

a história de minha vida,

passo a ser o Severino

que em vossa presença emigra.




"...E não há melhor resposta

que o espectáculo da vida:

vê-la desfiar seu fio,

que também se chama vida,

ver a fábrica em que ela mesma,

teimosamente, se fabrica,

vê-la brotar como há pouco

em nova vida explodida;

mesmo quando é assim pequena

a explosão, como a ocorrida;

mesmo quando é uma explosão

como a de há pouco, franzina;

mesmo quando é a explosão

de uma morte severina».

7 comentários:

Maria disse...

Esta obra foi passada a cinema não sei há quantos anos, mas já muitos (ou bastantes...).
Tenho um LP riscadinho de tanto o ouvir...

Beijo, Manuela.

Lilá(s) disse...

Já vai para muitos anos, adorei ver o filme, lindo.
Bjs

ADiniz disse...

Tem lugares que parecem ter surgido pra ser fonte inspiradora de artistas, pois passam os anos e pouco ou quase nada se modifica nestes sítios e os sertões, terras áridas, das secas e dos retirantes ainda compõem este cenário em pleno dois mil e já onze.
Manuela, amar o impossível é algo que não procuramos, mas acontece e só sabemos pq ter vivido, eu tive esta experiência e quis acreditar, mas só fui perceber que era um sonho só meu, por isso era impossível.

Manu obrigada por ter estado comigo nestes dias que se passaram, sempre é bom receber a atenção e carinho por algo que fazemos ainda que seja simples como o Fluid
Desta mesma forma quero aproveitar pra desejar um Ano repleno de Paz pra compreender, Sabedoria para agir e Amor pra aceitar o que não podes mudar.
Mas acima de tudo repito o que já disse a outro conterrâneo seu espero profundamente que a Nação Portuguesa tenha a serenidade pra saber lidar com estes dias de mudanças econômicas. Fiquei comovida com um relato de uma Blogueira que tem passado por provas difíceis e gostaria de poder fazer algo porem esta longe de mihas possibilidades, então o Maximo que posso aqui fazer é te desejar dias melhores a todos.
Desculpe por me estender como sempre.
bjinhos

António Rosa disse...

Manuela

Este post é de uma beleza impressionante! Parabéns e bela homenagem.

Nilce disse...

Oi querida Manu

Meu peito estufa-se de orgulho com este maravilhoso post.
Sensacional!

Bjs no coração!

Nilce

Duarte disse...

Profundo, não só pelo conteúdo, mas também pelo risco do extenso.
Tenho que concordar contido... maravilhoso! Não conhecia.

Um grande abraço e obrigado pela divulgação

Beth/Lilás disse...

Manu querida!
Fez-me recordar meu tempo de adolescência que ouvia este poema e a peça de Chico Buarque de Holanda - Morte e vida Severina.
Que beleza! Faz parte da nossa história, do nosso mais profundo brasileirismo, sem copiar ninguém, apenas Brasil puro.
bjs cariocas