«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

GUERRA COLONIAL – [04.02.1961- 04.02.2011]

Passaram 50 anos, de uma guerra muito marcante para os portugueses, que ainda hoje está presente, em muitas pessoas, pelos muitos estragos, físicos e psíquicos. Não há por certo uma família que um dos seus elementos não tivesse estado em África. O início da chamada Guerra Colonial, ocorreu precisamente em 4 de Fevereiro de 1961, na Zona Sublevada do Norte (Zaire, Uíge e Quanza Norte) em Angola. Chamada também Guerra do Ultramar, e que os movimentos de libertação chamavam obviamente Guerra de Libertação.
Na Guiné os primeiros ataques aconteceram em Julho de 1961 e em Moçambique em Setembro de 1964.

Esta guerra, em três cenários distintos, só terminou em 1974 com a Revolução de Abril, que destituiu o antigo regime ditatorial de António Oliveira Salazar, implantando a democracia no país.
As notícias iam chegando, sobre o massacre de centenas de fazendeiros e seus familiares, mortos e torturados da forma mais cruel! Os negros sofreram a exploração e as sevícias já conhecidas, vingaram-se! Num clima de medo gerou-se o pânico. Com o envio de tropas portuguesas sucedeu o mesmo, a nível de barbaridade, para com os negros, contavam-se actos ignóbeis das tropas que chegando às aldeias dos indígenas, deitavam fogo, matavam toda a gente, cortavam-lhes a cabeça, que colocavam nos jeeps como troféus de caça!


Em Abril de 1961 Salazar falou ao país:


Se é precisa uma explicação para o facto de assumir a pasta da Defesa Nacional mesmo antes da remodelação do Governo que se verificará a seguir, a explicação pode concretizar-se numa palavra e essa é ANGOLA.


Pareceu que a concentração de poderes da Presidência do Conselho e da Defesa Nacional bem como a alteração de alguns altos postos noutros sectores das forças armadas facilitaria e abreviaria as providências necessárias para a defesa eficaz da província e a garantia da vida, do trabalho e do sossego das povoações.


Andar rapidamente e em força é o objectivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão.


Como um só dia pode poupar sacrifícios e vidas, é necessário não desperdiçar desse dia uma só hora para que Portugal faça o esforço que lhe é exigido a fim de defender Angola e a integridade da Nação.

PARA ANGOLA RAPIDAMENTE E EM FORÇA.


O regime do Estado Novo nunca reconheceu a existência de uma guerra, considerando que os movimentos independentistas eram apenas terroristas e que os territórios não eram colónias, mas províncias e parte integrante de Portugal. Durante muito tempo, grande parte da população portuguesa, iludida por notícias falaciosas, viveu sob a ilusão de que, em África, não havia uma guerra, mas apenas alguns ataques de terroristas. Os portugueses começaram a saber do que se passava, pelos militares que iam regressando e não através dos canais noticiosos onde era exercida uma censura muito apertada, mesmo a lista dos que iam morrendo por lá em combate, era ocultada ou as mortes eram referenciadas, tendo por causa acidentes.
O Orçamento e as contas do Estado Português, ao longo das décadas de 1960 e seguinte reflectiram claramente o esforço financeiro exigido ao país durante a guerra. Obviamente, as despesas com a Defesa Nacional sofreram crescentes aumentos a partir de 1961.


Ao longo do seu desenvolvimento foi necessário aumentar progressivamente a mobilização das forças portuguesas, nos três teatros de operações, de forma proporcional ao alargamento das frentes de combate que, no início da década de 1970, atingiria o seu limite crítico.


As consequências destas guerras foram muito marcantes a nível social cortando a vida normal aos jovens. O serviço militar era obrigatório e a ida para África uma normalidade, nem os de fraca visão ou pés tortos escapavam, isso levou a que muitos jovens fugissem do país, indo principalmente para França. Os que não fugiam não escapavam, se eram trabalhadores o emprego ficava em suspenso até regressarem da tropa, o que levava o patronato a não empregar jovens em idade de alistamento. O facto de serem casados não era impeditivo, iam deixando mulher e filhos se os tivessem. Quem andasse a tirar um curso superior à primeira reprovação era logo alistado. Era bastante constrangedor para qualquer jovem ter que passar essa situação, ir lutar por algo longínquo, que nada lhe dizia e matar porque razão!?...
As despesas astronómicas para sustentar três guerras, teve efeitos económicos no país e motivou um grande fluxo de emigração.
A situação tornava-se incómoda em todos os aspectos. O Partido Comunista Português, foi o primeiro a pedir a independência imediata. Porém, a censura do regime obrigava o partido a representar dois papéis: o de partido político e o de força de coesão entre os sectores oposicionistas, com os quais acordava programas que não reflectiam as suas posições anticoloniais. A oposição ia-se assumindo lentamente, até se aperceber que o conflito estava a durar tempo demais.
Em Abril de 1964, o Directório de Acção Social-Democrata reivindicava uma resolução política e não militar. Em sintonia com esta iniciativa, em 1966, Mário Soares sugeria a preparação de um referendo sobre a política ultramarina.
Nem a morte de Salazar fez com que o panorama político se alterasse. Só com as eleições legislativas de 1969 se viria a verificar uma radicalização da atitude política, nomeadamente entre as camadas mais jovens, que mais se sentiam vitimizadas pela continuação da guerra. As universidades desempenharam um papel fundamental na difusão deste posicionamento. É neste ambiente que a Acção Revolucionária Armada (ARA) e as Brigadas Revolucionárias (BR) se revelam como uma importante forma de resistência contra o sistema colonial português, dirigindo os seus ataques, principalmente, contra o Exército.
Também o alinhamento dos sectores da finança e negócios, classes médias e movimentos operários constituiu um importante ponto de inflexão na contestação à política do regime. Em 1973 já se tinha consolidado a vontade relativamente à independência das colónias.
O 25 de Abril de 1974, planeado e executado por militares dos três ramos das Forças Armadas, uma nova geração de oficiais, formada e criada na guerra, levantaria, sob a direcção do Movimento das Forças Armadas (MFA), um período revolucionário que transformaria radicalmente o Estado e a sociedade.

Embora inúmeros factores tenham contribuído para a revolução, a Guerra Colonial foi, desde sempre, apontada como a principal justificação para a queda irrevogável do Estado Novo em Portugal.

SOBRE A GUERRA COLONIAL PORTUGUESA:

http://guerracolonial.home.sapo.pt/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Colonial_Portuguesa

10 comentários:

Glorinha L de Lion disse...

Manu querida, tu, como sempre, a nos dar aulas de história, cultura e informação relevante! Adoro quando contas estas histórias de Portugal. Confesso que não sabia dos detalhes...Ditaduras são abomináveis, em todos os aspectos, colonialismo, idem. Acabei de kler o livro da Izabel Allende sobre a formação do Haiti e não foi muito diferente do que contou aqui nesse post...horror, genocídio, barbárie...é incrível como a maldade humana está sempre presente, basta acender uma fagulha e o incêndio do mal toma conta de tudo. Vemos com horror o que está acontecendo no Egito, onde até jornalistas e ongs estão sendo atacados, museus depredados. O troglodita que há em nós sempre arruma um jeito de vir à tona. Excelente post minha amiga! Atualíssimo! beijos

Sandra Botelho disse...

poxa isso é mais que uma aula de história.
Aprende-se muito por aqui.
Bjos achocolatados

Laura disse...

Fomos para lá em 1962, Fevereiro, eu tinha feito 10 anos, andei pela mata com colunas militares, percorrei Angola por tantos lugares, sabia que os nossos soldados nos estavam a defender, mas só posso dizer; guerra estúpida, guerra desnecessária se os homens soubessem ser Homens...mas, já está, houve famílias destruidas, lares desfeitos e tanta dor...

Mas amei conhecer África e a sua lonjura, vivi lá os melhores anos da minha vida, ao todo vivi 30 anos em África! e é por isso que lhe chamo a minha terra amada1

beijinho

laura

manuel marques disse...

Alistei-me na Armada em Abril de 1972 então com 17 anos,um ano depois o meu rumo foi a Guiné,foi duro.

Beijinhos meus e um bom fim de semana

Nilce disse...

Oi Manu

Parabéns pelo post.
É muito importante que a verdadeira História não se perca nunca. Os detalhes se perdem no tempo, e gerações ficam sem saber dos reais acontecimentos, principalmente se o Governo assim achar melhor, como acontece com muitos outros fatos mundiais.
Muito bom! Gostei de ler e saber.

Bjs no coração!

Nilce

Hugo de Oliveira disse...

Super didática essa postagem...gostei. Fiz uma viagem maravilhosa e lembrei das minhas aulas de história.


abraços

Valéria Sorohan disse...

Gosto muito de vir aqui, tornou-se parada obrigatória. Saio sempre com algo a mais, acho até que já disse isso antes. Enfim, não sabia dessa guerra, aliás estou conhecendo Portugal através de vc amiga.

BeijooO*

elisabete disse...

Parabéns snrª Drª. uma boa lição de História.

pensandoemfamilia disse...

Olá Manu

Vc nos oferece detalhes importantes da História que precisam ser lidos, contados, ams como assistimos ainda hoje tantas barbaridades, não é mesmo?
bjs

anamar disse...

Muito trabalho Manuela...
Pois eu ainda me questiono hoje como fui capaz de saber lidar com o meu namorado (71/72), depois marido,com problemas psiquicos enormes... e eu só tinha 20 anos.
Passou , mas foi duro...
Bfs
Beijo
Ana