«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




terça-feira, 1 de dezembro de 2009

ABRINDO GAVETAS...

(DALI)

O MEU PEQUENO/GRANDE MUNDO!...

Em criança o meu mundo era pequeno, nele cabia a família e alguns amigos da família, no entanto era um mundo sem limites!.. Era um mundo de sonhos, mas sem desejos (por isso não tinha limites). Esse meu mundo era um grande quintal, onde eu fazia a minha jardinagem e brincava com os animais. Este era todo o meu mundo e era um mundo feliz. Além desse mundo eu sabia que havia o centro da cidade, já que vivíamos numa zona calma da periferia. Ao centro da cidade ia, contrariada, quando a minha mãe queria que a acompanhasse e para mim era uma confusão. Sentia-me feliz naquele espaço físico fechado e mais ao menos limitado, se bem que na altura o devia ver muito maior que a realidade! A vida era praticamente sempre a mesma, excepto nos dias de saída com a minha mãe. Estava em casa com a mãe e a empregada, às vezes ainda aparecia uma costureira, para ajeitar alguma roupa e lá ficava eu também a fazer uns vestidos, para as bonecas. A minha irmã, mais velha do que eu 10 anos, ia para o liceu (assim se dizia nessa altura) e o meu pai ia trabalhar, saindo de manhã e só regressando à noite. Depois do jantar conversava-se e ouvia-se rádio, eu e a minha irmã, apesar das diferenças de idade brincávamos e não era raro acabarmos à «chapada». Dormíamos no mesmo quarto, em camas separadas e se íamos para a cama zangadas, eu passado pouco tempo já estava a dizer «deixa-me ir para a tua cama» e tudo ficava bem. Isto foi assim até aos 6 anos, idade em que iniciei os estudos. Lembro-me de muita coisa, que anteriormente descrevi, complementado com as conversas da família. Lembro-me muito bem, que rezava, a minha mãe assim me educou. E lembro-me que pedia a Deus duas coisas: que a minha mãe nunca morresse e que eu nunca crescesse!.. Com a ida para a escola, foi um drama para mim, ficava nas escadas a chorar e todos a dizerem-me que eu tinha que ir para a escola, com a empregada já no passeio à minha espera. Era uma criança muito tímida, nunca falava nas aulas e quando era obrigada a falar ficava «tomatinho encarnado». Aquele pequeno mundo, tão grande para mim tinha-se alargado e só muito gradualmente fui superando os receios. Tinha deixado um estado de pureza, para entrar num de pesquisa. A escola estava dividida, de um lado estavam os rapazes, do outro as raparigas. As minhas maiores humilhações desse tempo foram: um dia, dado a minha vergonha de pedir para ir ao WC, fiz xi-xi nas calças, claro que fui alvo da maior chacota, as raparigas disseram aos rapazes e todos me chamaram uma coisa, que nem é preciso mencionar. Não queria pôr mais os pés na escola, mas lá continuei. Outra situação desagradável, foi ter chamado a um rapaz que era muito mais alto do que os outros, girafa. Ele foi fazer queixa à minha professora e esta obrigou-me a pedir-lhe desculpa, todas as minhas colegas estavam presentes e riram-se bastante. Gradualmente comecei a modificar-me, a vencer a timidez e até a fazer as minhas asneiras, quando estava com colegas/amigas. Provocávamos os rapazes, porque eles nessa altura também se sentiam inibidos com as raparigas. Tudo passou a ser mais divertido para mim, no entanto sempre gostava de regressar ao meu pequeno mundo, àquele mundo onde me sentia bem, a tirar as ervas daninhas aos canteiros e, os caracóis e os lagartos às plantas. Que saudades eu tenho desse pequeno mundo!...

5 comentários:

Sandra Botelho disse...

Entendo bem o que passates querida tbem era muito timida...
E sofri por isso.
Lindo texto.
Bjos no coração!

Elaine Barnes disse...

Olá! Curiosamente falei de bonecas no meu post.Bem amiga, gostei demais da sua história e poderia ficar falando páginas aqui sobre ela.Da dificuldade em sair para o mundo externo, por ser tão imenso aos olhos da criança que nunca quer crescer. Certa vez assisti um filme que nunca esqueci, fala muito disso e tenho certeza que se encontrá-lo,pois, é bem antigo, irá se identificar assim como eu. Chama-se " A Lenda do pianista do mar"procure amiga, é lindo de viver! gde bjo pra vc farei 1 ano de blog dia 6 de dezembro, não vou fazer nada,mas, já estou partilhando com amigos. A Blogosfera é grande demais! rs...

Cris França disse...

ah Manuela, que delicia de texto, sabe que tbém fiz xixi na calça na escola, eu era tímida, tinha medo de falar alto, se bem que disso não gosto até hoje...rs

quero te agradecer pela viagem que foi esse texto teu , tão lindo, e saio daqui com um sorriso no rosto, porque faz-me bem te ler


beijo grande!

Fatima disse...

Manuela querida, entendo bem o termo "pequeno mundo", pois ainda hoje com meus 54 anos, tenho -o vivo em minha memória.
Sabe, pra mim foi e é assim, mantenho esse pequeno mundo bem vivo em meu interior, tendo adicionado a ele pessoas de vital importância como foram meus pais, irmãos e outras de um tempo ido.
O restante , incluindo os novos espaços físicos, fatos e pessoas, coloco-os em um mundo separado, como fosse o quintal desse pequeno mundo.Com isso, eternizo o passado, me conforto no presente, e e o reservo para o futuro.
Obrigada por nos visitar.
Abraço você juntamente com suas doces lembranças.

Ana Paula Sena disse...

Gostei imenso de ler sobre o teu pequeno-grande mundo, Manuela! Até fiquei com algumas saudades de algumas coisas que referes e que também fizeram parte do meu mundo na infância.

Um belíssimo texto, cheio de autenticidade :)

Um abraço