«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




domingo, 10 de outubro de 2010

O FILME DO DESASSOSSEGO

«O Filme do Desassossego» cansou-me! João Botelho ousou abordar uma obra bastante complexa, muito intimista, que só se aprecia devidamente quando lida. O Livro do Desassossego exige ler, parar e reflectir, voltar a ler, respirar fundo. O filme obviamente é muito palavroso, cansativamente palavroso e tudo se segue de uma forma muito acelerada, para quem gosta de ficar a pensar nas palavras! Li o livro, imaginei-o e não o revi no filme, mas isso é algo que geralmente me acontece, o livro é sempre melhor.



Botelho recriou uma obra e ilustrou-a com muito de si, inserindo algumas cenas insólitas. Colocando de lado as considerações feitas à adaptação, o filme é imaginativo, tem uma excelente fotografia (João Ribeiro), bons actores, destacando-se obviamente o intérprete principal (Cláudio Silva), que mostra bem alucinação e desassossego. No panorama do cinema português é de facto um filme diferente, uma obra de arte cinematográfica.


Tenho lido críticas boas, sobre a concepção da forma de adaptação do livro ao filme. Não sou especialista de Bernardo Soares, li o livro e continuarei a lê-lo pela vida inteira. Sem dúvida que aprecio essencialmente o livro, quanto à visão de João Botelho, é a visão dele, outros com certeza o pegariam de outro modo. O livro é inspirador para muitas visões, mas o livro é o livro.


Lembro «Conversa Acabada», que na minha opinião resultou melhor, baseia-se mais em factos, a amizade de Pessoa e do infortunado Sá Carneiro. Comparações não se justificam, porque «O Livro do Desassossego», é um «conjunto desconjuntado», sem uma linha narrativa, sem uma forma definida, sem princípio, meio ou fim, um caleidoscópio de sensações e emoções, difíceis de ilustrar.


Gostei do fragmento do livro «Educação Sentimental» dito pela artista Catarina Wallenstein, olhos nos olhos com o espectador. É um momento sublime.


Da obra de Fernando Pessoa, onde predomina a poesia, o livro mais vendido é exactamente um livro em prosa: «O Livro do Desassossego», desse complexo por demasiado lúcido: Bernardo Soares.

Crítica do Ipsilon AQUI

10 comentários:

manuel marques disse...

Não conheço o filme mas certamente que haverá om fosso entre o mesmo e o livro.Passar o livro para a tela, não será obra fácil,digo eu, sendo leigo na matéria.

Beijinhos Manú.

Glorinha L de Lion disse...

Manu, não consigo imaginar Pessoa num filme. Acho que sua obra é para ser lida, sentida, pois é visceral. Não veria um filme sobre sua obra, se ainda fosse um filme sobre sua vida...aí sim, iria ver correndo, pois ele muito me intriga, desde sempre. Beijinhos

Zélia Guardiano disse...

Concordo com você, Manuela, antes mesmo de ver o filme. Sinto que você coloca perfeitamente bem a questão...
Grande abraço.

Carlos Albuquerque disse...

Não vi o filme.
O Livro do Desassossego é companheiro meu de há muitos anos. Digamos que uma das minhas leituras de procura, insistentes. E é-o assim porque para mim não se trata propriamente de um livro, mas de uma viagem pelo universo da alma desassossegada de Pessoa, pela sua genialidade literária,no caso pela pena do heterónimo Bernardo Soares, a que é preciso voltar sempre.
Quando nele pego, e muitas vezes o faço, encontro algo de novo, como a dizer-me que a cada voltar a passar pelas palavras algo lá está, que ficou por descobrir.
Adaptá-lo ao cinema é tarefa árdua, creio, porventura impossível mesmo.
Conhecendo um pouco do trabalho de João Botelho acredito que ele encarou a realização do filme como mais um exercício da sua costela cineclubista.
Abraço

Socorro Melo disse...

Oi, Manu!

Nos casos em que li os livros, e esses livros foram transformados em filmes, sempre achei os filmes muito pobres, e na verdade não retrataram os livros na íntegra. Deixa muito a desejar.

Beijos
Socorro Melo

Duarte disse...

Não conheço o livro nem vi o filme, o que posso dizer, por experiência de outras obras, é que geralmente distam daquilo que de vê no ecrã. Tanto se o filme deu passo uma obra literária ou vice-versa.

Um grande abraço

Nilce disse...

Não conheço o livro, muito menos o filme.
Costumo me decpcionar com filmes baseados em livros. No livro nossa imaginação corre à solta.

Bjs no coração!

Nilce

Maria Teresa disse...

Manuela:
Minha nossa! Transformar em filme o LIVRO DO DESASSOSSEGO deve ter sido tarefa de gigante! Fiquei super curiosa, mesmo concordando com você, de antemão, que é impossível colocar na tela todo o caleidoscópio que se bebe nas páginas de Pessoa. Ou de Bernardo Soares.
Beijo

Graça Pereira disse...

Não vi o filme e, por isso, não me posso prenunciar. Como tu dizes e bem, normalmente gosta-se mais do livro que tem a cadência apropriada
para parar, assimilar e imaginar...
É uma obra demasiado densa e complexa para a pôr em filme, digo eu que, da sétima arte percebo pouco..
Beijo e uma semana muito feliz
Graça

Maria Josefa Paias disse...

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Olá Manuela,

Por certo se lembrará quando, em Novembro de 2009, dei conhecimento do início da rodagem do "Filme do Desassossego", e em que recebi comentários antecipando a complexidade que seria fazer esse filme e a curiosidade na forma como Botelho o abordaria, uma vez que se trata de uma obra muito parecida a um "Diário" e, portanto, que espelha estados de alma, e em que acrescentei, também, que tenho por norma não ver os filmes baseados em obras que me marcaram para não haver interferências com os "filmes" que construí na minha cabeça ao lê-los.

Apesar de ser um filme esteticamente diferente, que requer alguma abertura à novidade por parte do espectador e, por isso, não é passado no circuito comercial, mantenho a minha posição inicial. A menos que mo coloquem à frente dos olhos:))

Beijinho.