«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




domingo, 31 de outubro de 2010

OUTONO E AS CASTANHAS ASSADAS...

Chega o Outono, eles lá aparecem, os homens das Castanhas! Normalmente param nos jardins e fazem uma paisagem de encanto, envolvidos pelo fumo do assador, a névoa e às vezes a chuva miúda. Desde sempre, que gosto de castanhas assadas e lembro-me como elas eram um conforto! Saiamos da escola, à porta estava sempre o homem das castanhas, vínhamos enregeladas de frio e era bom aquecer as mãos no pacote das castanhas quentinhas, às vezes metia-se o pacote por dentro do casaco debaixo dos braços, para as manter quentinhas e lá vínhamos todas na «laracha»!

Está próximo o dia de S. Martinho, dia dos magustos, com castanhas e vinho novo, fazem-se festas, bailaricos…costumes ancestrais.


Acerca do assunto, escreve o conceituado etnólogo Ernesto Veiga de Oliveira (1910-1990): «O S. Martinho, como o dia de Todos os Santos, é também uma ocasião de magustos, o que parece relacioná-lo originariamente com o culto dos mortos (como as celebrações de Todos os Santos e Fiéis Defuntos). Mas ele é hoje sobretudo a festa do vinho, a data em que se inaugura o vinho novo, se atestam as pipas, celebrada em muitas partes com procissões de bêbados de licenciosidade autorizada, parodiando cortejos religiosos em versão báquica, que entram nas adegas, bebem e brincam livremente e são a glorificação das figuras destacadas da bebedice local constituída em burlescas irmandades. Por vezes uma dos homens, outra das mulheres, em alguns casos a celebração fracciona-se em dois dias: o de S. Martinho para os homens e o de Santa Bebiana para as mulheres (Beira Baixa). As pessoas dão aos festeiros. vinho e castanhas. O S. Martinho é também ocasião de matança de porco.»
(in As Festas. Passeio pelo calendário, Fundação Calouste Gulbenkian, 1987)

Antes de ser introduzida em Portugal a batata, cuja origem é do Peru, levada para Espanha em 1570 e de lá disseminando-se para a Europa e depois para todo o mundo, muita castanha se comia! Presume-se que a castanha seja oriunda da Ásia Menor, Balcãs e Cáucaso e acompanhou a história da civilização ocidental há mais de 100 mil anos. A par com o pistácio, a castanha constituía um importante contributo calórico.


O homem das castanhas
Letra: Ary dos Santos

Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono, à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
.

Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.
É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.

.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.

Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

.Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

.A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

.Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.

.E o fado com música de Paulo de Carvalho, cantado por Carlos do Carmo

17 comentários:

AC disse...

Manuela,
Como sempre, uma informação completíssima.
(O homem das castanhas também faz parte das minhas paisagens de infância, emoldurado num quadro quentinho e reconfortante)

beijo :)

Manuela Freitas disse...

Olá AC,
Tenho a minha cabeça cheia de política e quero abafar isso em mim, por outro lado este Outono tão invernoso aniquila a inspiração, daí fiquei a pesquisar sobre as castanhas e saíu este post!...Entreteve-me e o «Homem das Castanhas» é assim um «postal» de estimação! Que perdure, já acabou o amolador de facas, o homem que consertava os guarda-chuvas, a varina...e outras coisas que de momento não me lembro!...
Beijo,
Manuela

Renata disse...

Minha amiga Manu,

os vendedores de castanhas com seu fogo aceso, e as deliciosas frutas sendo assadas, enroladas nos pacotinhos feitos dfe jornal,e oferecidos nas ruas são a minha mais vívida lembrança da Europa. Foi o que mais me impressionou quando estive pela primeira vez nesse continente em janeiro de 1990. Bela lembrança!!!! E o fado, ah o fado que embala a tudo...estou emocionada, obrigada!

Nilce disse...

Oi Manu

Assim eu fico aqui querendo ir a Portugal ligeiro, ligeiro.
Adorei o post e a música. Lembra infância, mesmo não sendo a minha, e fiquei com uma vontade das castanhas...
Ai eu quero o Japão, quero Portugal, quero... e quero...

Obrigada pelo carinho sempre minha amiga.

Bjs no coração!

Nilce

G I L B E R T O disse...

Manu

deu-me uma vontade enorme de comer as castanhas agora....

manuel marques disse...

Mais uma vez tens o condão de me levar por aí.
Para quem vive fora de Portugal, vive estas pequenas coisas com uma intensidade profunda.Só faltou mandares um cartucho com elas quentinhas,rsrsrsr.
Obs.o cartucho pode ser á moda antiga,feito das folhas das páginas amarelas.

Beijinho .

Laura disse...

Menina, também fui uma nina das castanhas quentes e boas, dos dedos sujos da tinta do jornal ou seria do carvão das castanhas? não faz mal, limpava-se tudo à bata da escola ou ao casaco, uma cuspidela e tava feito...era como a lousa da escola e a mãe punha-me uma esponjinha na pasta..estava sempre nova! a bata e as mangas ajudavam...

A parisiense também pôs esse video do Carlos do Carmo a cantar.

gostei muito do poema do ary dos santos, nunca tive o prazer de o ouvir se era surda e só agora ouço há dois anos...

beijinhos e come, deixa lá a politica, nem te metas ali, dás cabo de ti, que eu já me imagino a mandar vir com eles todos...xi, que maluquice e os nossos homens que nãos e resolvem a sair doc antinhoe ameter o bedelho onde tem de ser, para que haja de novo a honradez e o trabalho para todos.

um abraço da laura e se és do porto, um dia quando for ver a Soledade ao hospital que tem lá o marido há meses, combino contigo e vamos beber um cafézito, só conheço o caminho da estação de S. bento até ao hospital de Sto António..
ora vamos lá a combinar.

Luís Coelho disse...

Gosto muito de castanhas assadas.
Nos dias de inverno com a fogueira acesa e a panela da castanhas a estalar é maravilhoso.
Algumas começam a ficar boas e lá vai a mão e um aperto na castanha. Está mesmo boa e vai...para o mais pequenino...agora guarda-a....Depois vai outra e outra dando voltas à panela que some as castanhas assadas.

Bordados e Retalhos disse...

Esse post respira o lugar que vc vive. Adorei. Bjs

alfa disse...

Adoro, a época em que devagarinho começa a chegar o frio, o cheirinho das castanhas assadas comidas na rua, os homens das castanhas....bjs

Duarte disse...

Chegou o Outono!
O sol espreita retraído,
cobrindo a cidade de ocres
e sombras inclinadas.
O ar vai-se pintando de fumo
que a humidade deixa desenhar
em boladas de mil formas;
enquanto os braseiros
vão aquecendo o corpo.
Já se percebe o cheiro
que invade o Porto
a castanhas assadas.
Stª Catarina, Boavista,
Praça dos Leões,
Ribeira ou Foz.
É a magia do Outono
que da infância guardo,
no culto ao São Martinho
com vinho novo e alegria!

Aqui aquilo que me inspiraste

e

um grande abraço de boa amizade

Socorro Melo disse...

Oi, Manu!

Também gosto de castanhas. Não sei se são as mesmas castanhas, as que conheço, e gosto, são as de caju.

E o que são magustos?

Belo, porém triste, o poema do homem das castanhas, mas,é fato.

Beijos
Socorro Melo

ADiniz disse...

Antes de tudo grata por sua visita onde a porta esta sempre aberta, por isso já nem tem... a casa é sua

Castanhas são tantas
Deliciosa tbm
Fazendo sempre
Um bem ao coração
E ao paladar... hum
Que bem

Pareceu pela descrição que esta na qual se referiu seja a Castanha do Pará, que tbm é originaria do Brasil assim como a Castanha de Caju. Realmente todas, incluindo da Castanha da Índia, têm propriedades benéficas a saúde assim como fonte de renda a famílias das regiões visando uma economia sustentável já que são de áreas nativas rica, do Brasil, o pulmão do mundo o interesse é constante de todos, nada mais seguro que o povo tenha conhecimento pra garantir vida longa as arvores que levam anos pra chegarem a fase produzirem frutos.
Bem sobre o santo confesso que desconhecia a celebração regada à bebedeira e sacrifício animal, o que entra em um contraponto com a simbologia do vinho, da uva, que é vida.
Percebo então que por ai seja um feriado tbm, sendo assim
Um bom feriado em SolM assim ou assado com um bj de castanha que faz bem ao coração.

Manuela Freitas disse...

Queridos amigos virtuais,

Sempre grata pela vossa presença!
O meu post despertou nostalgia a alguns, curiosidade a outros e foram muito agradáveis as palavras que deixaram aqui, é sempre agradável partilhar.

ADINIS
Pela primeira vez aqui, obrigada pela tua visita. A castanha que se come por cá diz na Wiki, são os aquénios (geralmente três) do ouriço, o fruto capsular epinescente do castanheiro-da-europa (Castanea sativa). Eu não percebo nada de variedades de castanhas! Conheço outras que também aparecem por cá, que dizemos serem bravas e são boas para colocarem dentro dos móveis por causa da traça, dizem, claro!
Também conheço as castanhas de Cajú, que servem como aperitivo!

Um grande abraço,
Manuela

Zélia Guardiano disse...

Riqueza enorme esta sua postagem, Manú querida!
Além do encantamento, da beleza, você nos oferece informação, conhecimento.
Bravo!
Enorme abraço, amiga!

elisabete disse...

Quentes e boas à mistura com Carlos do Carmo são mesmo quentinhas.

Beth/Lilás disse...

Manú querida!
Estive longe do meu PC nestes dias de feriado por aqui e por isso só agora estou a colocar os posts em dia.
Pois eu estive ano passado em Portugal nesta época, outubro, e foi aí que vi e senti o cheirinho das castanhas assadas pelas ruas de Lisboa. Fiquei encantada e, claro, experimentei-as. Divinas!
Adorei este post informativo e ainda por cima com um belo fado!
Ai, que saudades desta terrinha linda!
bjs cariocas