«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




segunda-feira, 20 de setembro de 2010

CINEMA - UM REALIZADOR - ALGUNS FILMES


CLAUDE CHABROL (1930-2010), morreu este mês, precisamente em 12 de Setembro. Director de cinema, produtor de filmes, actor e roteirista francês.
BIOGRAFIA
Recordo principalmente os filmes de Chabrol da década de 70, quando com Stéphane Audran, teve uma frutuosa colaboração. Durante este período, tornou-se um especialista da análise da burguesia francesa, criticando com veemência um conformismo servindo para dissimular a efervescência de vícios e de ódios. No domínio da comédia feroz ou do filme policial. Claude Chabrol nunca deixou de assediar a hipocrisia, as baixezas e a besteira com deleitação ímpar e intensa alegria, à qual participam seus actores predilectos: Stéphane Audran, Michel Bouquet, Jean Yanne. Compôs assim um retrato sem compromisso da França dos anos de 1970, áspero e corrosivo, onde predominam La Femme infidèle (A mulher infiel), Juste avant la nuit ( Pouco antes da noite) ou Les Biches ( Os bichos).
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Comemorando 20 anos de existência, o Jornal Público, está a editar a colecção Série Ípsilon II, que reúne os 20 dos filmes mais aplaudidos pela crítica e premiados internacionalmente. Nesta época, quando o cinema em exibição faz uma programação pobre, relativamente ao que gosto de ver, vou vendo estes filmes, que me permitem desligar da minha vida por 1.95 euros, muito mais económico do que ir ao clube de vídeo, que estranhamente estão a fechar por cá.

Dois dias em Paris De: Julie Delpy
Com: Julie Delpy, Adam Goldberg, Daniel Brühl
Uma comédia romântica, sem grandes disparates e sem grandes consequências. O enredo aposta nos equívocos, um dos protagonistas é neurótico, medroso e hipocondríaco e o outro é neurótico, irritadiço, mentiroso e mal-educado, no estilo de Woody Allen. Entretenimento, mas permitindo ir recordando Paris.
Por detrás da história da relação do casal propriamente dita, há toda uma critica presente, relativa aos estereótipos americanos e franceses, tais como as paranóias dos americanos quanto ao terrorismo, com alfinetadas à administração Bush, os comportamentos libertinos e boémios dos franceses e as demonstrações de xenofobia, machismo e preconceito dos taxistas.


Broken Flowers De: Jim Jarmusch
Com: Bill Murray, Julie Delpy, Heather Simms
Sem ser uma comédia, «Flores Partidas» podia ser descrito, como um filme sobre um homem, um «Don Juan», que chegando a meio do caminho se descobre numa selva escura - que é "mental", claro, como são todas.
Bill Murray é um homem enfastiado sentado em casa, olhando para a TV. Um homem com uma longa lista de seduções e mulheres deixadas para trás. A última mulher despede-se no princípio do filme, está farta dele e vai-se embora. Este Don Juan, que tão rapidamente se resigna à solidão do seu apartamento de luzes sempre apagadas, precisa de mais qualquer coisa para se mexer. Recebe uma carta: uma ex-namorada, que não se identifica, escreve-lhe a dizer que teve um filho dele e nunca lhe disse nada, e avisa-o de que o filho, agora um adolescente, está na altura de querer conhecer o pai. Um vizinho, que tem a mania de se armar em detective particular, instiga-o a procurar as mulheres que podiam ter assinado tal carta e prepara-lhe a viagem ao passado, assim irá visitar, uma a uma, cinco antigas namoradas. A ideia da «viagem» de Jarmusch, tanto num sentido metafórico, interior e introspectivo, como em sentido literal, físico e territorial. Mas, sendo uma viagem no tempo, a viagem de «Flores Partidas» é igualmente uma viagem no espaço. Johnston vai ao encontro de uma América típica, ou pelo menos habitada por alguns fragmentos de uma mitologia típica, e este encontro com uma América no cruzamento entre as "raízes", a mitologia e uma espécie de "margem», é um tema profundamente "jarmuschiano". Jarmusch interroga para onde foram "os sonhos da juventude.
Terra da Abundância, de Wim Wenders
Na Los Angeles dos que já não contam, dois esquecidos da América encontram-se na procura da verdade… Ele é Paul, veterano da guerra do Vietname, patriota fervoroso. Exposto ao agente laranja, quando foi Marine, sofre de graves problemas psicológicos e paranóia aguda. Após os acontecimentos de 11 de Setembro, que o fizeram reviver o passado, convence-se que a América está em estado de guerra. Defensor acérrimo do seu país, decide patrulhar as ruas numa carrinha equipada com microfones e câmaras que aponta a quem lhe parece suspeito. Ela é Lana, sobrinha de Paul, uma jovem profundamente cristã que decidiu viver a sua vida de acordo com a sua crença. Depois de vários anos em África e no Médio Oriente, regressa aos Estados Unidos para entrar numa missão católica que presta ajuda aos sem-abrigo. Apesar de terem uma visão do mundo radicalmente diferente, Paul e Lana aprendem, pouco a pouco, a aceitarem-se. Mas é o assassinato de um sem-abrigo paquistanês, que testemunham involuntariamente, que os vai aproximar.
Os Sonhadores de Bernardo Bertolucci

Em Maio de 1968, o jovem americano Matthew, vai para Paris para estudar francês. Completamente apaixonado por cinema, ele rapidamente faz amizade com a jovem francesa Isabelle e seu irmão gémeo Theo. Os três têm, em comum, uma enorme paixão pelo cinema, sobretudo cinema clássico. A amizade entre eles começa a florescer. Matthew passa a descobrir uma intimidade fora do comum, da qual os irmãos franceses compartilham. Matthew fica inicialmente confuso, mas aos poucos começa a ser atraído para o mundo deles. Entretanto, o profundo relacionamento entre eles é abruptamente interrompido, quando percebem o enorme estardalhaço vindo das ruas de Paris. Havia estourado uma grande rebelião de estudantes e, como que se acordassem de um sonho, decidem unir-se ao movimento.
Este filme tem uma banda sonora, de revisitações saudosas:
Third Stone from the Sun - Jimi Hendrix, Hey Joe - Michael Pitt & The Twins of Evil, Quatre Cents Coups - Jean Constantin, New York Herald Tribune - Martial Solal, Love Me Please Love Me - Michel Polnareff, La Mer - Charles Trenet, Song for Our Ancestors - Steve Miller Band, I Need a Man to Love - Janis Joplin, The Spy - The Doors, Tous les garçons et les filles - Françoise Hardy, Ferdinand - Antoine Duhamel, Dark Star - The Grateful Deal, Non, je ne regrette rien - Edith Piaf.
E faz referências a filmes, como:
Bande à part Louvre,Freaks, Persona, La Chinoise, Queen Christina, Mouchette, Shock Corridor, Pierrot le fou, Top Hat, À bout de souffle, The 400 Blows, Blow-Up, Blonde Venus, Scarface, Sunset Boulevard, City Lights, The Cameraman, Rebel Without a Cause

BERNARDO BERTOLUCCI sobre o filme:
Os jovens não sabem nada sobre 68. É como se tivesse existido uma grande censura e acho que isso é completamente de loucos. Porque mesmo que tenha sido um falhanço dos sonhos revolucionários, 68 foi incrivelmente importante para a mudança do comportamento das pessoas. Tudo mudou. Em Itália, as pessoas costumavam ser multadas por se beijarem na rua! Os miúdos de hoje, que tomam a sua liberdade como certa, não sabem que muito disso foi conquistado em 68.» (...) «Havia uma grande esperança nos jovens que nunca antes fora vista, e que também nunca mais se veria. A tentativa de mergulhar no futuro e na liberdade foi fantástica. Foi a última vez que algo tão idealista e tão utópico aconteceu. (...) «Os Sonhadores» são uma lembrança, como uma peça de música ou um raio de sol repentino. É uma memória de um período em que uma geração inteira acordou pela manhã com expectativas incríveis. Talvez porque vejo os jovens de hoje melancólicos com o futuro, quero lembrá-los de um tempo em que o futuro era positivo.»

Bertoluchi é um realizador de quem já vi filmes de que gostei bastante: Antes da Revolução, a Estratégia da Aranha, O conformista, 1900. Outros que provocaram muita polémica, como O Último Tango em Paris, La Luna. Outros que de facto não gostei tanto, como O último Imperador, Um Chá No Deserto, O Pequeno Buda, Beleza Roubada ...
O Tempo que Resta de François Ozon
Com: Jeanne Monreau, Valeria Brunu-Tedeschi...
Um fotógrafo de moda bem sucedido descobre que só lhe restam poucos meses de vida. Sua reacção inicial não é a de não contar a ninguém da sua família. A única excepção é a sua avó, representada pela fabulosa Jeanne Moreau. Não existe grande intimidade entre eles, mas Romain sente que ela está suficientemente próxima da sua própria morte para poder compreender os seus sentimentos.
Na realidade, ele esforça-se para se distanciar das pessoas mais próximas. Ele insulta propositadamente a sua irmã e rompe de maneira cruel com seu namorado. Mas algo estranho acontece quanto ele viaja para ir a casa da avó. Uma jovem empregada de bar e casada revela, que o considera atraente. Na próxima vez em que o vê, conta-lhe que o seu marido é estéril e, em nome do casal, pede-lhe que a engravide. Romain recusa o convite, mas muda de ideia mais tarde. E os três vão para a cama juntos, numa das raras cenas de amor a três vistas no cinema que consegue ser comovente e emotiva, sem ser lasciva.
"O Tempo que Resta" é um filme curto e sucinto, mas ficou na memória por um tempo.

Mean Creek de Jacob Aaron Estes
Com: Rory Culkin, Ryan Kelley, Scott Mechlowicz
George é um "bully", um rufia - há um rufia na infância de toda a gente "Mean Creek" é, de facto, uma "pequena vingança": um grupo de miúdos planeia punir o obeso George, que ameaça o mais pequeno de entre eles, Sam. Convidam-no para uma expedição rio abaixo. Podia ser só isto, podia ser só uma questão de executar ou não o plano, mas a atmosfera de "Mean Creek" é ameaçadora, estamos à espera que algo aconteça, mas nunca acontece como imaginamos. George revela-se um rapaz vulnerável, sensível à atenção dos outros. O grupo de miúdos decide cancelar o plano, dada a súbita empatia por George, mas este depois revela-se um indomável ogre. A natureza, cenário idílico, contém forças violentas.
Inevitável pensar noutro filme, em que um punhado de homens descia um rio, e a natureza reservava uma vingança "Deliverance/ Fim-de-Semana Alucinante" (1972), de John Boorman. George é um rufia, mas não é o único: "Mean Creek" mostra a violência como uma contaminação, contaminando, até, quem menos se espera. O rufia, no filme, não é uma personagem, é uma cadeia que se impõe do mais forte ao mais fraco.
Estas referências sobre estes filmes, são baseadas em críticas do caderno de cultura Ipsilon, do jornal Público. Quando vejo um filme, gosto também de procurar outros pontos de vista.

6 comentários:

manuel marques disse...

Passei para deixar um beijinho.
Excelente postagem.

Nilce disse...

Oi, Manuela

Adorei tanta indicação de filmes e resenhas muito bem escritas, juntos.
Valeu!

Bjs no coração!

Nilce

Fatima disse...

Amei as dicas Manu!
Vou procurar do lado de cá!
Bjs e uma ótima semana!

Brown Eyes disse...

Manuela realmente 1,95(por filme o que prefaz um total de 39,00 euros) é muito pouco para a série de filmes excelentes com que somos presenteados. Beijinhos

Valéria Sorohan disse...

Não conheço os filmes franceses, mas deve ter sido uma perda irreparável.

BeijooO*

Duarte disse...

Excelente trabalho de investigação com comentários ricos em conteúdo.

Um dos preferidos da minha professora de francês quando vinha disposta a decertar.

Parabéns

Um forte abraço