«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

NOVAS CARTAS PORTUGUESAS

Em 1972, foram publicadas “As Novas Cartas Portuguesas”, pelas chamadas três Marias (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa); a obra foi considerada deletéria ao regime e proibida, na época o Presidente do Conselho, era Marcelo Caetano. Foi aberto um processo contra as autoras, o que as tornou famosas - foram proibidas de sair do país e não podiam ser referidas na imprensa, e só se livrariam do processo após o 25 de Abril de 1974. Os textos foram considerados “imorais” e “pornográficos”, pois retratavam mulheres livres, que questionam a sua identidade e expressam o desejo de mudanças sociais e religiosas. O livro, pode ser considerado o introdutor do pensamento feminista na literatura portuguesa. As mulheres começam a falar sobre o seu corpo, sobre os prazeres e sofrimentos das suas relações carnais, uma postura contra a conservadora sociedade portuguesa. O livro é composto de fragmentos, em prosa e verso e expressa a própria concepção da mulher portuguesa, mas transmitindo uma só mensagem: a mulher também tem voz, e sabe falar.
As três escritoras assinam a obra em conjunto e jamais revelaram qual delas compôs cada fragmento. Vários estudos académicos foram realizados na tentativa de atribuir a autoria dos diversos textos que compõem o livro a partir de sua comparação com as obras literárias posteriormente lançadas pelas autoras individualmente.


Excerto de uma entrevista feita por Maria João Cantinho à escritora Maria Teresa Horta

M.J.C. – Qual o impacto que teve, sobre a sociedade portuguesa e sobre as mulheres portuguesas, em particular, o vosso julgamento, aquando da publicação das “Novas Cartas Portuguesas”?
M.T.H. – Bem, digamos que teve pouquíssimo impacto, a não ser a nível dos escritores, pois na altura havia censura prévia que, implacável, pesava sobre os jornais e jornalistas. Isto quer dizer que qualquer notícia, artigo, reportagem, que dissesse respeito a “Novas Cartas Portuguesas”, eram cortados. A esmagadora maioria das pessoas nem sabia do nosso julgamento. Ao contrário do que acontecia no estrangeiro, onde se falava muito do caso, se faziam manifestações, marchas, acontecendo mesmo a ocupação da embaixada portuguesa na Holanda pelas feministas holandesas.
M.J.C. – Quem foi capaz de as defender?
M.T.H. – Para além dos advogados, os escritores. Não esquecer que sob a capa de um processo por atentado à moral pública, estava evidentemente um processo político. E os escritores portugueses conheciam, sabiam isso.
M.J.C. – Quando inicia a sua luta feminista? Conta, em várias entrevistas, que começou por assistir, em menina, a reuniões de sufragistas. Mas em que momento nasce a feminista?
M.T.H. – Digamos que a feminista nasceu muito cedo. Desde o momento em que, “apesar” de ser uma menina, ou por isso mesmo, comecei, dentro da família, a reclamar, a perguntar, a recusar-me a cumprir determinados papéis, que achava por demais penalizantes, limitativos do meu dia-a-dia. Por isso a família sempre me achou desobediente, difícil. Quando a minha avó me levava com ela às reuniões de mulheres na Casa Jardim, ainda bem mais pequena, recordo-me vagamente das muitas mulheres que, sentadas numa sala, falavam umas com as outras, muito sérias e ardorosas. No fim tomavam chá, davam-me doces e chocolates, que eu mal comia, “bicho do mato”, como me então chamavam. Digamos que foram as minhas “fadas-madrinhas” do feminismo... A Maria Lamas era uma delas, e foi quem me contou, já no fim da sua vida, a importância dessas reuniões, de que eu tão mal me lembrava. Quanto à minha luta feminista activa, digamos assim (nunca me entendi enquanto uma militante nata, mas sim como uma escritora independente), começou no dia em que foi lida a sentença das “Novas Cartas Portuguesas”. Logo depois houve o primeiro encontro para se estruturar o Movimento de Libertação das Mulheres (MLM).
M.J.C. – Houve adesão por parte de quem?
M.T. H. – Ao MLM aderiram, de uma maneira geral, mulheres da média burguesia, entre os vinte e os quarenta anos. Foram tempos difíceis, embora também de grandes entusiasmos. Tínhamos consciência de estar a criar algo de novo em Portugal, um país tradicionalmente machista, particularmente marialva, onde as mulheres continuavam a ser tratadas como seres de segunda e terceira. Pessoalmente, dividia esses meus dias cheios de entusiasmo, entre o meu filho pequeno, a minha escrita e a participação na luta pela libertação das mulheres. Mas, foram também tempos de agressividade e mesmo de violência, que caiu sobre as feministas. Lembro o que aconteceu quando o MLM organizou uma manifestação no Parque Eduardo VII, a única que na altura foi impedida de se realizar pelas centenas de homens que apareceram para a boicotar, apalpando as manifestantes, agredindo-as, insultando-as. O jornal Expresso dera a notícia de que as feministas iam fazer “strip-tease”, e queimar soutiens, o que era totalmente mentira. No entanto, essa é uma ideia que hoje se mantém, apesar de inúmeras vezes desmentida. Houve ainda outras perseguições, que caíram particularmente sobre mim.
M.J.C. – E as perseguições deviam-se a que acusações?
M.T.H. – Acusavam-me de ser exactamente como era. Ou seja, de nunca me calar, de pôr os pontos nos is, de dizer o que as mulheres tinham sido sempre obrigadas a calar. E também, calcule-se, “de ter o descaramento” de fazer poesia erótica, vertente da literatura que mais parece uma coutada literária masculina. Portanto, a que apenas os homens tinham acesso por direito próprio. Por tudo isto, três portugueses, másculos e viris, fizeram-me uma espera, à noite, à porta da minha casa, e espancaram-me, a ponto de ter de dar entrada num hospital.
M.J.C. – A sua carreira literária não sofreu por causa desses acontecimentos? Que consequências teve para si?
M.T.H. – Claro! Foi mesmo a minha carreira literária a mais prejudicava com estes acontecimentos. Os preconceitos sexistas vieram todos ao de cima, e enquanto escritora, enquanto poetisa, comecei a ser marginalizada, esquecida, silenciada, posta de lado. E não nos podemos esquecer que a própria poesia erótica feminina descredibiliza. Aquela que a faz irrita os críticos, incomoda aqueles que impõe “as leis” da escrita, os donos bem-pensantes das múltiplas capelinhas literárias.

3 comentários:

Glorinha disse...

Me lembro de falarem muito nesse livro por aqui, mas nunca li...seu post me deu vontade de ler esse livro...imagino o impacto que causou à época numa sociedade tão religiosa e tradicional como a portuguesa...
Certamente, mulheres muito à frente de seu tempo.
Beijos.

manuel marques disse...

Excelente post,parabéns.

Beijos e bom fds.

Me disse...

Manú querida, como sempre muita cultura por aqui! Adoro!!!
bjos, ótimo fim de semana!!!