«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




segunda-feira, 8 de março de 2010

NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER...POESIA


Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.

Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa de madrugada;
regressa a casa é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira desengonçada.


Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.


Ferve-lhe o sangue de afogueada;
saltam-lhe os peitos na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.

Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda,
ciranda,
desaustinada;
range o soalho a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
António Gedeão, in 'Teatro do Mundo'

13 comentários:

Glorinha L de Lion disse...

Que maravilha de poema!
Resume tudo o que é ser mulher!
Queria saber pq não há o dia internacional do homem...
Maravilhoso, sensível e verdadeira mostra do que é ser mulher, todos os dias, subindo as calçadas da vida.
Beijos querida, Manu...a mais bela homenagem que vi hoje foi a tua.

Elaine Barnes disse...

Nossa! É bem por aí viu! Somos Luizas. Não paramos! rs... Parabéns pelo seu dia!Montão de bjs e abraços carinhosos

Maria disse...

É redutor dizer que é um lindo poema. Mas é um facto que é lindo...

Um abraço especial para ti, hoje!

Manuela Freitas disse...

Amigas obrigada,
Sempre gostei muito deste poema, porque transmite bem o rame-rame cansativo, das trabalheiras que tem uma mulher, que nunca são muito valorizadas.
Beijinhos,
Manuela

Laura disse...

Pobres Luisas
pobres Marias
queridas Rosas
sofridas Sofias .

Pobres mulheres crivadas de dor
nos rostos cansados
sobem escadas percorrem estradas
com coisas pesadas
e os maridos chegam de mãos abanadas
que em casa se tornam pesadas...

enfim minha querida Manuela, é o pão de cada dia na vida de muitas mulheres sofridas...Um abraço e feliz dia, laura

Cris França disse...

Um pouco de Luiza em cada uma de nós. bjs querida! bom te ler de novo.

Anónimo disse...

e legal

Memória de Elefante disse...

Ele soube com maestria de um sábio poeta fazer-nos mergulhar no espelho de Luiza...


Gosto da poesia dele.

Um beijo e agradeço a visita carinhosa e palavras!

Margarida de Almeida Tavares disse...

Este poema de António Gedeão, retrata a vida de muitas mulheres...bem realista, infelizmente!

Obrigada pelo elogio ao meu poema sobre a mulher!

direitinho disse...

Recordei um poema que desde a escola primária não via. Isto é uma preciosidade.
Parece que todos subimos a ladeira com a Luísa.
Transporta o cansaço e as preocupações,passa na vida sem se lembrar da sua própria vida.

alcinda leal disse...

Manuela
Que bela poesia e (infelizmente)que adequada para este e todos os dias quando se fala de mulheres!
Obrigada por nos trazer este belo poema de Gedeão.
Beijinhos
Alcinda

AFRICA EM POESIA disse...

Com um beijo

deixo...
a minha poesia

8 DE MARÇO


Dia da Mulher
Mulher que foi criança...
Mulher que foi menina...
E que rápidamente cresceu...
E quando cresceu...
Tornou-se mulher...
E aí o ser que é...
Mulher... Mulher...
Mulher... Mãe...
Mulher... Avó...
Mulher... Gente...
Porque ser Mulher...
É canalizar tudo...
Tudo e todos...
E tudo gira em seu redor
E quase sempre...
Julga-se insubstituível...
No trabalho... na organização...
Na estrutura do lar...
E a Mulher... esquece-se tantas vezes...
Que também é gente...
Que precisa de ser ela própria...
De viver...
De gostar de si...
E quando consegue...
Que isto aconteça...
Ela é verdadeiramente... Mulher!...

LILI LARANJO

Ana disse...

Uma excelente escolha para o Dia da Mulher! António Gedeão e a sua sensibilidade a analisar um dia de uma mulher.
Beijinhos.