«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




domingo, 30 de maio de 2010

DE SOFHIA «O RETRATO DE MÓNICA»


O retrato de Mónica
Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da “Liga Internacional das Mulheres Inúteis”, ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem–se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, “qualquer distracção pode causar a morte do artista”. Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio, o mais firme fundamento do seu poder.
(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Contos Exemplares)

11 comentários:

Maria disse...

... "A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias."...

É isto!
Excelente post, excelentérrima Sophia!

Beijos, Manuela.

manuel marques disse...

Lindíssimo texto da Sofhia.

"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa."

Beijo.

Lata de Luxo disse...

Ola,Manuela.
Existem muitas Monicas por aqui e por toda a parte deste mundo.E triste ver o vazio que habita essas pessoas.Grande beijo.zenaide storino.

Glorinha L de Lion disse...

Espetacular!!!! Manu, como há Monicas nesse mundo! Eu conheço várias, com algumas coisa a mais ou a menos do que a Monica da estória...que sofrimento deve ser viver a vida sem poder se olhar no espelho....pois o que verá será a imagem que construiu e não quem foi um dia....amei! beijos

Bordados e Retalhos disse...

Fiquei pensano durante a leitura do texto: Mônica existe? Fico vendo um pouco dela em cada uma de nós. Bjs amiga, ótimo texto.

Sandra Botelho disse...

Poxa esse texto se encaixa a tantas mulheres...
Bjos achocolatados

Ana Paula Sena disse...

Que gosto foi ler a magnífica Sophia!

Obrigada, Manuela. Belíssima leitura para um fim de noite.

Ainda bem que sou super-imperfeita :)))

Um abraço.

Isadora disse...

Manuela bem contundente o texto e ao mesmo tempo sincero, pois quantas pessoas assim podemos ver por aí, não precisamos ir tão longe...
Um beijo

Astrid Annabelle disse...

Maravilhoso texto!!!
Triste constatação de uma realidade da sociedade mundana!
Que pena!...perdeu o ponto da poesia, do amor e da santidade...
Beijo grande Manú!
Astrid Annabelle

Beth/Lilás disse...

Oi, Manu!
Eu sempre pensei que Sophia de Mello Brenner fosse apenas poetisa, mas vejo que escreve bem demais e este conto revela tantas Monicas por este mundão de meu Deus. Aqui tem montes dessas, sabias!
bjs cariocas

Maria Letra disse...

Durante a leitura deste texto, fui gradualmente "enchendo o meu saco" de Mónicas, num ritmo cada vez mais frenético, à medida que o texto avançava. E acabei com um sentimento tal e qual como aquele que as Mónicas que conheço produzem em mim: enjoo. Como diriam os italianos: "Non ce la facevo più!"
Prefiro estar bem longe delas, cá no meu cantinho, suavemente banhado por uma equilibrada dose de tudo o que defendo.
Boa escolha, Manuela!