«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




quinta-feira, 12 de novembro de 2009

TEIXEIRA DE PASCOAES

Teixeira de Pascoaes produziu a partir da experiência existencial da saudade, uma reflexão, a que subjaz o princípio fundamental de que o ser manifesta uma condição saudosa. Do Ser ao ser, processa-se uma verdadeira queda ontológica, uma cisão existencial, manifestando o mundo, na sua condição decaída, um "pathos universal". Da condição saudosa de ser resulta pois uma condição dolorosa do mesmo ser. Dor de privação, dor de saudade, consciência da finitude, de imperfeição, de insuficiência ôntica. A experiência da dor pelo homem saudoso, é simultâneamente individual e universal. Por ela o homem–poeta entende o mundo como "uma eterna recordação", percebendo a realidade como evocadora de uma outra realidade mais real que aquela. A condição dramática da existência manifesta-se assim numa permanente tensão entre Ser e existir. O homem existe num primeiro nível de dignidade ontológica, partilhando pelo corpo o mundo da matéria, e vive pelo espírito. A vida é pois uma eterna aspiração à ultrapassagem da realidade material. A alienação é a situação que resulta da impossibilidade de o homem ser, verdadeiramente. Dividido entre assumir-se como puro espírito ou pura matéria, o homem não é nem pode ser verdadeiramente, oscilando eternamente entre uma e outra condição. A saudade pascoaesiana transcende assim o mero sentimento individual, para assumir uma dimensão ontológica e metafísica. Na mesma medida em que todo o Universo "é a expressão cósmica da saudade" enquanto " infinita lembrança da esperança", a saudade psicológica, individual, assume, enquanto o homem partilha a condição do mundo, uma dimensão metafísica. Enquanto o homem como ser finito e imperfeito aspira à perfeição de ser, a saudade assume uma dimensão ontológica. A saudade encarada do ponto de vista existencial leva o autor a conceber a natureza como sagrada, uma vez que a saudade do mundo é também saudade de Deus, de um Deus presente nas próprias coisas. É a divindade que se apropria de si mesma na evolução da natureza, pelo que Pascoaes postula a sacralização da mesma natureza. Deus existe antes e independentemente do homem; no entanto a vida, confere-lha o próprio homem. O pensamento de Teixeira de Pascoaes manifesta assim, uma particular forma de religiosidade, que provém desde logo desta presença de Deus na natureza e da sua evidenciação nela. O autor concebe uma ordem na natureza, um princípio teleológico alheio ao acaso que deixa supor uma inteligência ordenadora que presida às transformações da realidade. Todo o esforço humano será para penetrar o Mistério da vida e do cosmos.
CANÇÃO DE UMA SOMBRA

Ai, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das cousas,
Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte que chorava
E como nós, cantava e que secou ...
E este sol que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse este luar que chama
Os aspectos à Vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento que embalou
Meu coração e as nuvens nos seus braços
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio
Que ergue as asas e sobe em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos
Eu não era o que sou.

[Pascoaes foi o primeiro poeta que li, com 14/15 anos, em circunstâncias muito peculiares. Tinha que tomar conta de um sobrinho, que era um «terror» e a minha mãe queria que eu ficasse fechada numa sala, para estudar, enquanto fazia o almoço. Na sala havia uma estante com livros e então ia lendo alguma coisa, enquanto o meu sobrinho ia tirando uns quantos da estante, que eu deixava tirar, para ir lendo e, que depois voltava a colocar no sítio. Assim o miúdo estava entretido e eu só tinha que ter o cuidado de ele não rasgar os livros. O meu cunhado era de Amarante e tinha toda a obra de Pascoaes, poesia e prosa, mas nessa altura só me interessava a poesia. O impacto deste poeta em mim foi muito forte e até me motivou que escrevesse alguma poesia. Pascoaes desde aí, foi um poeta marcante, mais tarde em muitos fins de semana que passei em Amarante, fui descobrindo as paisagens de Pascoaes, a Serra do Marão, que tantas vezes aparece na sua poesia e, visitei o solar onde viveu, escondido pela vegetação da serra. As suas instalações privadas impressionaram-me bastante, pelo despojamento, muitos livros, móveis banais e por todo o lado, pequenas pedras, ramos de árvores, flores secas, coisas simples, que deviam ter ido ali parar, depois dos passeios que ele fazia pela Serra do Marão. ]

3 comentários:

Elaine Barnes disse...

Oi amiga! Obrigada pela presença lá nas asas da coruja. Então, não sei porque passei essa impressão rs...Escrevi o poema em 1996 e é a descrição de uma cachoeira,quando começa tímida meio marron e depois lá embaixo qdo explode grisalha em chuva de prata. rs...Enfim,gostei do Pascoaes,além do poema belíssimo, achei interessante quando falou de saudade psicológica. Tudo que se seguiu serve para refletir. A natureza sagrada,saudade de Deus. Ele é a perfeição do Todo e nós a imperfeição que vivemos na ilusão. A única realidade é Deus,sem Ele o nosso sagrado adormece e o profano desperta para as ilusões. bjão

manuel afonso disse...

Parabéns para si que conseguiu ler e conviver com a escrita de Pascoaes. Não é uma das leituras (na minha modesta opinião) mais fáceis, mas é excitante e das mais profundas.
Pensava pela via do sentimento como se fosse pensar com o coração, sempre ligado ao ruralismo, à voz e ciência do povo, em contraposição ao erudito ligeiro e citadino.
Um abraço.

Ana Paula Sena disse...

Lindíssimo, o que nos conta, Manuela.
Foi um poeta imenso e forte, com uma alma e um sentir tão português como a nossa emblemática saudade, tema a que dedicou muito da sua escrita.

É verdade, recordo Amarante, uma terra bucólica e belíssima, naquela ainda doce paz e sossego de estar...

Um beijinho :)