«Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato.

Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira.

Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio.

A ESCURIDÃO NÃO PODE EXTINGUIR A ESCURIDÃO. SÓ A LUZ O PODE FAZER.»

MARTIN LUTHER KING




sexta-feira, 23 de outubro de 2009

DAVID MOURÃO-FERREIRA

David Mourão-Ferreira (1927 — 1996), licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde mais tarde deu aulas, foi romancista, ensaísta um dos grandes poetas contemporâneos do Século XX.
Na sua obra, são famosos alguns dos poemas que compôs para a voz de Amália Rodrigues. Mourão-Ferreira trabalhou para vários periódicos, a Seara Nova, o Diário Popular, para além de ter sido um dos fundadores da revista Távola Redonda. Entre 1963 e 1973 foi secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores. No pós-25 de Abril foi director do jornal A Capital e director-adjunto do O Dia.
No governo, desempenhou o cargo de Secretário de Estado da Cultura (de 1976 a 1978, e em 1979). Foi por ele assinado, em 1977, o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado.
Foi autor de alguns programas de televisão e obteve condecorações e prémios de relevo, como o grau de Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada, o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores e a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada.


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos
E por vezes encontramos de nós
em poucos meses
que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
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Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.
E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste a meu pedido.
Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias do nosso amor.
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Ilha
Deitada és uma ilha
E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha
Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

2 comentários:

Paula Raposo disse...

Eu sou fã incondicional de David Mourão Ferreira! Tudo o que ele escreve entra por mim e sinto-o...a sensualidade é extraordinária! Obrigada pela partilha. Beijos.

Elaine Barnes disse...

Isso é que eu chamo de um escritor e poeta de luxo.Obrigada por toda informação sobre o romancista. Fiquei chateada. Foi assassinado!Sua obra está aí. Imortal, vai saber o quanto ele teria pra criar ainda né?! Adorei amiga! bjão